{"id":1465,"date":"2009-01-21T12:35:49","date_gmt":"2009-01-21T15:35:49","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2009\/01\/vacas-fistuladas-abra-aqui\/"},"modified":"2009-01-21T12:35:49","modified_gmt":"2009-01-21T15:35:49","slug":"vacas-fistuladas-abra-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2009\/01\/21\/vacas-fistuladas-abra-aqui\/","title":{"rendered":"Vacas fistuladas: abra aqui"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-top-width: 0px;border-left-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-right-width: 0px\" height=\"375\" alt=\"fistulagadod\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/fistulagadod1.jpg\" width=\"500\" border=\"0\" \/> <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um truque de m\u00e1gica, \u00e9 <strong><a href=\"http:\/\/edself.blogspot.com\/2008\/09\/vacas-com-buracos-no-estmago.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">uma vaca com um buraco<\/a><\/strong>. Ou em um termo m\u00e9dico-veterin\u00e1rio, uma <strong>f\u00edstula<\/strong> criada cirurgicamente que garante acesso direto a um dos compartimentos de seu est\u00f4mago. A cena bizarra que sem d\u00favida lhe causar\u00e1 pesadelos na verdade n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o terr\u00edvel quanto aparenta.<\/p>\n<p>O procedimento \u00e9 relativamente indolor e n\u00e3o prejudica os animais. Em verdade, at\u00e9 facilita seu tratamento caso tenham um problema digestivo. E tudo isso \u00e9 feito com objetivos cient\u00edficos, no estudo e experimenta\u00e7\u00e3o com a digest\u00e3o bovina. A propriedade de ter alunos e crian\u00e7as enfiando suas m\u00e3os em est\u00f4magos de gado pode ser discutida \u2013 para o bem-estar das duas esp\u00e9cies de animais \u2013 mas o procedimento em si \u00e9 bem ben\u00e9fico \u00e0 sociedade. Apesar das apar\u00eancias.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-top-width: 0px;border-left-width: 0px;border-bottom-width: 0px;margin-left: 0px;margin-right: 0px;border-right-width: 0px\" height=\"219\" alt=\"AlexisStMfd\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/alexisstmfd.jpg\" width=\"134\" align=\"right\" border=\"0\" \/> Talvez ainda mais tenebroso, mas proporcionalmente ben\u00e9fico, \u00e9 lembrar que uma f\u00edstula no est\u00f4mago do canadense <strong><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Alexis_St._Martin\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alexis St. Martin<\/a><\/strong> serviu para basicamente os mesmos prop\u00f3sitos. Em 1822 ele foi atingido pelo tiro acidental de um mosquete, que abriu um enorme buraco em seu torso e est\u00f4mago. Martin tinha ent\u00e3o 28 anos e os m\u00e9dicos n\u00e3o acreditavam que sobrevivesse.<\/p>\n<p>O sujeito, talvez av\u00f4 de Chuck Norris, n\u00e3o s\u00f3 sobreviveu como sobreviveu com o buraco em seu est\u00f4mago cicatrizando-se com sua pele, em <strong>uma f\u00edstula permanente<\/strong>. Uma janela para seu est\u00f4mago em funcionamento. Que ele ou seus parentes n\u00e3o se ofendam, mas n\u00e3o t\u00e3o diferente da vaca acima.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico <strong>William Beaumont<\/strong> que o tratava viu a\u00ed uma oportunidade \u00fanica de estudar a digest\u00e3o humana. Durante os pr\u00f3ximos <strong>11 anos<\/strong> conduziu uma s\u00e9rie de experimentos como lan\u00e7ar comida amarrada a uma corda dentro do est\u00f4mago de Martin e pux\u00e1-la de volta horas depois para ver como havia sido digerida. Seus achados foram publicados em \u201cExperimentos e Observa\u00e7\u00f5es sobre o Suco G\u00e1strico e a Fisiologia da Digest\u00e3o\u201d, lan\u00e7ando enorme luz ao tema at\u00e9 ent\u00e3o abordado de formas indiretas.<\/p>\n<p>Hoje em dia, tais experimentos dificilmente seriam autorizados por comit\u00eas de \u00e9tica m\u00e9dica, mas h\u00e1 quase um s\u00e9culo Beaumont p\u00f4de ter Martin como seu empregado comum, que cortava lenha, carregava peso e de quebra ainda servia como o sujeito com o est\u00f4mago aberto. Segundo o m\u00e9dico, Martin n\u00e3o sofria com seu ferimento e trabalhava quase normalmente.<\/p>\n<p>Soa bizarro, mas a rela\u00e7\u00e3o entre Beaumont e Martin seria <strong><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/bioetica\/beaumont.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o primeiro contrato formal entre um pesquisador e um indiv\u00edduo pesquisado<\/a><\/strong>. Estranho como possa parecer, o Dr. Beaumont foi de fato <a href=\"http:\/\/www.springerlink.com\/content\/p854212g44353h2m\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um pioneiro na \u00e9tica biom\u00e9dica<\/a>.<\/p>\n<p>Tudo tem um fim, contudo, e em 1833 pesquisador e pesquisado tomaram seus pr\u00f3prios caminhos. O final da hist\u00f3ria n\u00e3o poderia deixar de ser curioso: enquanto o doutor morreria aos 58 anos, Alexis \u201cChuck Norris\u201d Martin viveria com o est\u00f4mago aberto at\u00e9 a avan\u00e7ada idade de 86 anos. [via <a href=\"http:\/\/io9.com\/5135741\/stick-your-arm-inside-a-cows-stomach-no-seriously\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>io9<\/strong>, com um v\u00eddeo nauseante<\/a>]<\/p>\n<p><strong>ATUALIZA\u00c7\u00c3O<\/strong>: O <strong><a href=\"http:\/\/lablogatorios.com.br\/eccemedicus\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Karl<\/a><\/strong> comentou logo abaixo que:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cNa verdade isso n\u00e3o seria tecnicamente uma f\u00edstula e sim uma gastrostomia. Usamos palavras terminadas em \u201cstomia\u201d quando existe uma solu\u00e7\u00e3o de continuidade entre uma cavidade e o meio externo provocada cirurgicamente, com objetivos terapeuticos. Exemplo mais conhecido: traqueostomia. A gastrostomia \u00e9 um procedimento bastante utilizado atualmente em seres humanos com dificuldades de degluti\u00e7\u00e3o e pode ser realizada por endoscopia de forma pouco invasiva e indolor. Um cateter permite a alimenta\u00e7\u00e3o do paciente (e n\u00e3o d\u00e1 para colocar a m\u00e3o). O citado paciente que levou um tiro teve mesmo uma f\u00edstula g\u00e1strica causada acidentalmente por um ferimento por arma de fogo. Nesse caso \u00e9 mais comum dizermos \u201cfistulizado\u201d e n\u00e3o fistulado\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>E na <strong><a href=\"http:\/\/br.groups.yahoo.com\/group\/ceticismoaberto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">lista CA<\/a><\/strong>, o Beto perguntou \u201c<strong>como \u00e9 que essas f\u00edstulas n\u00e3o infeccionam<\/strong> (como a de St. Martin n\u00e3o infeccionou)?\u201d. Ao que o <strong>Jorge Petretski<\/strong> <a href=\"http:\/\/br.groups.yahoo.com\/group\/ceticismoaberto\/message\/27625\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">respondeu<\/a>:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cPorque, topologicamente falando, o trato digestivo est\u00e1 &quot;fora&quot; do corpo. \u00c9 um tubo que atravessa todo o corpo, come\u00e7ando na boca e terminando no \u00e2nus, mas sem contato direto com os compartimentos internos. O alimento ingerido n\u00e3o entra em contato direto com o sistema circulat\u00f3rio ou linf\u00e1tico, ele \u00e9 digerido em mol\u00e9culas menores, absorvido pela parede do intestino e depois distribu\u00eddo pelo corpo pela circula\u00e7\u00e3o. Existem diversas barreiras f\u00edsicas entre o interior do intestino e o interior do seu corpo que regulam o tr\u00e1fico destas mol\u00e9culas. Claro, o risco de infec\u00e7\u00e3o existe sempre, mas principalmente logo ap\u00f3s o procedimento cir\u00fargico, quando a integridade destas barreiras foi rompida pela cirurgia. Mas depois que a f\u00edstula est\u00e1 cicatrizada, o risco de infec\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o alto. \u00c9 um procedimento comum em pacientes que sofreram a retirada do \u00e2nus e\/ou do reto e\/ou de parte do intestino grosso, por conta de um c\u00e2ncer, colite ulcerativa grave ou mesmo um acidente, uma perfura\u00e7\u00e3o intestinal por arma de fogo (uma bala de fuzil faz muito mais estrago, por conta do v\u00f3rtice que cria ao seu redor, do que simplesmente perfurar). O final do intestino \u00e9 direcionado para a parede do abd\u00f4men onde ser\u00e1 fixado, exigindo o uso permanente de uma bolsa para recolher as fezes. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel, sem d\u00favida, mas a maioria dos pacientes acaba se adaptando e tendo uma vida relativamente normal. O risco de infec\u00e7\u00e3o sempre existe mas n\u00e3o pela conex\u00e3o com o meio exterior, dif\u00edcil imaginar uma ambiente mais contaminado do que o interior do intestino, mas mais no tecido ao redor do estoma (a abertura no abd\u00f4men). Muitas vezes o tr\u00e2nsito normal \u00e9 restabelecido cirurgicamente, quando as causas originais foram resolvidas. Em um c\u00e2ncer de c\u00f3lon, por exemplo. Ap\u00f3s a cura n\u00e3o \u00e9 incomum que o paciente tenha o tr\u00e2nsito normal reconstitu\u00eddo. No est\u00f4mago \u00e9 mais tranquilo ainda, uma vez que a maior parte da digest\u00e3o \u00e9 feita depois do est\u00f4mago, no intestino. O baixo pH, a alta acidez, do est\u00f4mago funciona mais como uma barreira \u00e0 entrada de microorganismos no trato intestinal. Basicamente no est\u00f4mago o bolo alimentar apenas come\u00e7a a ser digerido, mas \u00e9 principalmente esterilizado pela acidez do suco g\u00e1strico. Claro que muitos micro e macroorganismos se adaptaram para sobreviver \u00e0 esta barreira qu\u00edmica. Nada \u00e9 perfeito\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Internet \u00e9 uma coisa fabulosa, n\u00e3o? Com agradecimentos a todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 um truque de m\u00e1gica, \u00e9 uma vaca com um buraco. Ou em um termo m\u00e9dico-veterin\u00e1rio, uma f\u00edstula criada cirurgicamente que garante acesso direto a um dos compartimentos de seu est\u00f4mago. A cena bizarra que sem d\u00favida lhe causar\u00e1 pesadelos na verdade n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o terr\u00edvel quanto aparenta. 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