{"id":1538,"date":"2009-03-24T00:53:01","date_gmt":"2009-03-24T03:53:01","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2009\/03\/mas_isso_eu_ja_sabia\/"},"modified":"2009-03-24T00:53:01","modified_gmt":"2009-03-24T03:53:01","slug":"mas_isso_eu_ja_sabia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2009\/03\/24\/mas_isso_eu_ja_sabia\/","title":{"rendered":"&#8220;Mas isso eu j\u00e1 sabia!&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"sawyer_hindsightbias.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/sawyer_hindsightbias1.jpg\" width=\"500\" height=\"281\" class=\"mt-image-none\" \/><\/span><\/p>\n<p>&#8220;<strong>As ci\u00eancias sociais n\u00e3o revelam nenhuma id\u00e9ia ou conclus\u00e3o que n\u00e3o possa ser encontrada em qualquer enciclop\u00e9dia de ditados<\/strong>&#8230; Dia ap\u00f3s dia cientistas sociais perambulam pelo mundo. E dia ap\u00f3s dia descobrem que o comportamento das pessoas \u00e9 bem aquilo que voc\u00ea esperaria&#8221;. Ou pelo menos \u00e9 como <strong>Cullen Murphy<\/strong>, editor do <em>The Atlantic<\/em>, expressou suas id\u00e9ias a respeito.<\/p>\n<p>Na semana passada, <strong>Ruth de Aquino<\/strong>, diretora da sucursal da revista <strong>\u00c9poca<\/strong> no Rio de Janeiro, <a href=\"http:\/\/revistaepoca.globo.com\/Revista\/Epoca\/0,,EMI64913-15230,00-O+BESTEIROL+NA+CIENCIA+E+MELHOR+QUE+NO+SENADO.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">opinou basicamente o mesmo<\/a>, com acusa\u00e7\u00f5es e questionamentos ainda mais graves a que <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/brontossauros\/2009\/03\/cara_ruth_de_aquino.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Carlos Hotta<\/strong> j\u00e1 respondeu em uma excelente r\u00e9plica<\/a>. Dela, nos atenhamos ao coment\u00e1rio de Aquino de que os resultados de pesquisas &#8220;cient\u00edficas&#8221; (com aspas) seriam para &#8220;dar risada&#8221;, com resultados que &#8220;variam <strong>do \u00f3bvio ao inveross\u00edmil e preconceituoso<\/strong>&#8220;. \u00d3bvio?<\/p>\n<p>Em 1949 o historiador <strong>Arthur Schlesinger Jr<\/strong> reagiu de forma similar aos resultados obtidos por esses tais &#8220;cientistas&#8221; depois de meticulosas pesquisas com soldados durante a Segunda Guerra Mundial. &#8220;Demonstra\u00e7\u00f5es clar\u00edssimas&#8221;, ele disse, de <strong>simples bom senso<\/strong>. Perda de tempo.<\/p>\n<p><strong>Paul Lazarsfeld<\/strong>, no mesmo ano, listou o que seriam algumas das descobertas apresentadas em <a href=\"http:\/\/www.pep-web.org\/document.php?id=PAQ.019.0275A\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>The American Soldier<\/em><\/a>, obra descomunal de dois volumes:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Soldados melhor educados sofreram mais problemas de ajuste que os menos educados<\/strong> (Intelectuais eram menos preparados para o stress das batalhas que as pessoas comuns). <\/li>\n<li><strong>Soldados do sul lidaram melhor com o clima quente da Ilha South Sea do que os soldados no norte<\/strong>. (Sulistas estavam mais acostumados ao clima quente). <\/li>\n<li><strong>Soldados brancos estavam mais ansiosos em serem promovidos a oficiais do que soldados negros<\/strong>. (Anos de opress\u00e3o desmotivam suas v\u00edtimas). <\/li>\n<li><strong>Negros do sul preferiam oficiais do sul ao inv\u00e9s de do norte<\/strong> (porque oficiais do sul eram mais experientes e habilitados a interagir com negros). <\/li>\n<\/ol>\n<p>Apenas bom senso, n\u00e3o? Leia mais uma vez esses itens, s\u00e3o, como Aquino bem escolheu o termo&#8230; <strong>s\u00e3o o \u00f3bvio<\/strong>. Seria realmente necess\u00e1rio um dos maiores esfor\u00e7os j\u00e1 empreendidos no campo das ci\u00eancias sociais, compreendendo o per\u00edodo desde Pearl Harbor at\u00e9 o final da guerra em que mais de duzentos question\u00e1rios diferentes, muitos dos quais com mais de 100 perguntas, foram ministrados <strong>a mais de meio milh\u00e3o de soldados?<\/strong> Apenas para descobrir&#8230; o \u00f3bvio? Quanta perda de tempo!<\/p>\n<p>Pois bem. Como Lazarsfeld completou logo depois, &#8220;<strong>todos esses itens s\u00e3o exatamente o oposto do que foi de fato descoberto<\/strong>&#8220;. R\u00e1\u00e1\u00e1\u00e1! Pegadinha do Lazarsfeld. O esfor\u00e7o cient\u00edfico descomunal em uma das mais importantes pesquisas sobre o comportamento humano descobriu que&#8230; soldados com pouca educa\u00e7\u00e3o eram <strong>menos<\/strong> preparados para lidar com o rigor da batalha. Aqueles intelectuais se adaptaram melhor. Sulistas <strong>n\u00e3o <\/strong>se ajustaram melhor ao clima tropical. Negros estavam <strong>ainda mais motivados<\/strong> a serem promovidos que brancos, e preferiam oficiais <strong>do norte<\/strong>.<\/p>\n<p>Claro, pode lhe parecer que esta foi uma pegadinha maliciosa em que escolhemos itens contr\u00e1rios ao \u00f3bvio, opostos ao bom senso, apenas para invert\u00ea-los e sacanear nossos prezados leitores. Mas lembre-se que ao historiador Schlesinger, que leu a obra sem esta pegadinha, os resultados de fato tamb\u00e9m lhe pareceram \u00f3bvios.<\/p>\n<p>&#8220;Se tiv\u00e9ssemos mencionado os resultados verdadeiros da investiga\u00e7\u00e3o no in\u00edcio, [como ocorreu com Schlesinger], o leitor tamb\u00e9m os teria classificado como &#8216;\u00f3bvios&#8217;. Obviamente algo est\u00e1 errado com todo o argumento sobre obviedade&#8230; J\u00e1 que todo tipo de rea\u00e7\u00e3o humana \u00e9 conceb\u00edvel, <strong>\u00e9 de enorme import\u00e2ncia conhecer que rea\u00e7\u00f5es ocorrem com maior frequ\u00eancia e sob quais condi\u00e7\u00f5es<\/strong>&#8220;. J\u00e1 escrevia Lazarsfeld em 1949.<\/p>\n<p>E como podemos estar realmente seguros de que os itens lhe pareceriam \u00f3bvios n\u00e3o importa tanto quais fossem? Porque, obviamente, este efeito tamb\u00e9m j\u00e1 foi estudado pelas ci\u00eancias sociais. \u00c9 o <strong>preconceito retrospectivo<\/strong>, uma inclina\u00e7\u00e3o que temos a superestimar nossa capacidade de adivinhar algo depois que este algo j\u00e1 ocorreu. H\u00e1 uma s\u00e9rie de estudos publicados sobre o &#8220;<strong><a href=\"http:\/\/scholar.google.com\/scholar?q=&quot;hindsight bias&quot;\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">hindsight bias<\/a><\/strong>&#8220;.<\/p>\n<p>Conhecer o preconceito retrospectivo tem <a href=\"http:\/\/www.overcomingbias.com\/2007\/08\/hindsight-bias.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aplica\u00e7\u00f5es mais amplas e importantes<\/a> do que admoestar jornalistas e leigos que desmere\u00e7am o valor de pesquisas sociais. Julgamentos sobre neglig\u00eancia podem ser um tanto injustos uma vez que tanto o juiz como o j\u00fari podem ser vulner\u00e1veis a tal preconceito. Mesmo eventos como os ataques de 11\/9 parecem &#8220;\u00f3bvios&#8221; <strong>depois<\/strong> que ocorreram.<\/p>\n<p>Porque, como diz o ditado americano, &#8220;hindsight is 20\/20&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; &#8211; &#8211;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia (de onde esta nota \u00e9 um semi-pl\u00e1gio)<\/strong><br \/>\n&#8211; <strong><a href=\"http:\/\/csml.som.ohio-state.edu\/Music829C\/hindsight.bias.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Did You Know It All Along?<\/a><\/strong> Excerpt from: David G. Meyers, Exploring Social Psychology. New York: McGraw-Hill, 1994, pp.15-19.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;As ci\u00eancias sociais n\u00e3o revelam nenhuma id\u00e9ia ou conclus\u00e3o que n\u00e3o possa ser encontrada em qualquer enciclop\u00e9dia de ditados&#8230; Dia ap\u00f3s dia cientistas sociais perambulam pelo mundo. E dia ap\u00f3s dia descobrem que o comportamento das pessoas \u00e9 bem aquilo que voc\u00ea esperaria&#8221;. 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