{"id":1600,"date":"2009-05-18T09:38:47","date_gmt":"2009-05-18T12:38:47","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2009\/05\/cheirando_estrelas_nos_confins\/"},"modified":"2009-05-18T09:38:47","modified_gmt":"2009-05-18T12:38:47","slug":"cheirando_estrelas_nos_confins","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2009\/05\/18\/cheirando_estrelas_nos_confins\/","title":{"rendered":"Cheirando estrelas nos confins do Universo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"sniffingstars.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/sniffingstars1.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" class=\"mt-image-none\" \/><\/span><\/p>\n<blockquote>\n<p>&#8220;<strong>As estrelas s\u00f3 est\u00e3o acess\u00edveis a n\u00f3s por explora\u00e7\u00e3o visual \u00e0 dist\u00e2ncia<\/strong>. &#8230; <strong>Nunca poderemos por qualquer meio estudar sua composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica<\/strong> &#8230; Considero qualquer no\u00e7\u00e3o a respeito da verdadeira temperatura m\u00e9dia de v\u00e1rias estrelas como para sempre negadas a n\u00f3s&#8221;. &#8211; <strong>Augusto Comte<\/strong>, <em>Curso de Filosofia Positiva<\/em>, 1835.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para o famoso fil\u00f3sofo franc\u00eas, certos conhecimentos seriam eternamente inacess\u00edveis. Entre eles estava a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica ou mesmo f\u00edsica das estrelas, t\u00e3o imensamente distantes. Mesmo nosso Sol se situa a em torno de 150 milh\u00f5es de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, \u00e0 velocidade luz s\u00e3o oito minutos de viagem. Se o Sol explodisse neste exato momento, ainda ter\u00edamos oito minutos da mais completa normalidade at\u00e9 que a cat\u00e1strofe fosse finalmente notada.<\/p>\n<p>Praticamente todas as outras estrelas no c\u00e9u est\u00e3o a dist\u00e2ncias medidas em muitos e muitos anos-luz, t\u00e3o distantes que mesmo com os mais potentes telesc\u00f3pios continuam sendo pouco mais que min\u00fasculos pontos de luz. Como poder\u00edamos pretender descobrir algo sobre a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica ou mesmo a estrutura f\u00edsica de pontos de luz que jamais visitamos? As estrelas poderiam ser mesmo pontiagudas, de formas exc\u00eantricas ou terem grandes propagandas de marcas intergal\u00e1cticas em sua superf\u00edcie, e n\u00f3s provavelmente nunca saber\u00edamos porque \u00e0 dist\u00e2ncia em que se encontram, s\u00e3o meramente pontos de luz. Poderiam ser mesmo pequenos furos em uma grande ab\u00f3bada celeste.<\/p>\n<p>Pois bem, ainda n\u00e3o cheiramos estrelas. Nem mesmo nosso Sol. Nunca enviamos sondas para coletar amostras da superf\u00edcie solar, e \u00e9 pouco prov\u00e1vel que o fa\u00e7amos t\u00e3o cedo. Ainda temos as estrelas acess\u00edveis apenas por &#8220;explora\u00e7\u00e3o visual \u00e0 dist\u00e2ncia&#8221;. E ainda assim sabemos, ou pelo menos os astr\u00f4nomos nos dizem muito, a respeito do Sol e at\u00e9 mesmo estrelas e objetos celestes a bilh\u00f5es de anos-luz.<\/p>\n<p>Com o perd\u00e3o do terr\u00edvel trocadilho, o que os astrof\u00edsicos andam cheirando?<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h2>Cheirando Luz<\/h2>\n<p>O que Comte subestimou foi a luz. <strong>Isaac Newton<\/strong>, em seu ano miraculoso de descobertas de 1666, j\u00e1 havia mostrado que a luz solar branca era composta de <a href=\"http:\/\/www.google.com.br\/url?sa=t&amp;source=web&amp;ct=res&amp;cd=2&amp;url=http%3A%2F%2Fscienceblogs.com.br%2F100nexos%2F2009%2F02%2Fmagenta-e-todas-as-outras-cores-da-massa-cinzenta.php&amp;ei=8hoRSoPYIaCm8QTthKShBg&amp;usg=AFQjCNH7aBJ2PJqBNUXtGjj3OMJT1rS86g&amp;sig2=6GmiQy4K1nu7024w0oa_vQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um espectro de todas as cores<\/a>, que podia ser espalhado por um prisma. Foram contudo necess\u00e1rios dois s\u00e9culos at\u00e9 que esse espectro fosse decifrado, porque era muito mais que um espet\u00e1culo de cores.<\/p>\n<p>Mais de um s\u00e9culo se passou at\u00e9 que percebessem que havia algo a ser decifrado. Em 1814, o f\u00edsico alem\u00e3o <strong>Joseph von Fraunhofer<\/strong> (o Instituto Fraunhofer, que desenvolveu o MP3, \u00e9 nomeado em sua homenagem), trabalhando com os prismas de qualidade que ele mesmo fabricava, notou que o espectro da luz do Sol n\u00e3o era uma varia\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de todas as cores, mas possu\u00eda uma s\u00e9rie de falhas, centenas de linhas escuras, semelhantes a um c\u00f3digo de barras. Claro que os c\u00f3digos de barras ainda n\u00e3o haviam sido inventados, e elas foram chamadas de <strong>linhas espectrais<\/strong>. Fraunhofer as registrou, ainda que n\u00e3o soubesse explic\u00e1-las.<\/p>\n<p><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img decoding=\"async\" alt=\"solar_spect.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/solar_spect.jpg\" width=\"500\" height=\"25\" class=\"mt-image-none\" \/><\/span><\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo avan\u00e7o viria logo depois de um qu\u00edmico, tamb\u00e9m alem\u00e3o, de nome familiar no laborat\u00f3rio: <strong>Robert Bunsen<\/strong>, que desenvolveu o famoso bico. Com ele (o bico de Bunsen) os qu\u00edmicos brincaram de queimar os mais diversos elementos com extrema efici\u00eancia, e como o bico produzia uma chama quase incolor, descobriram que vapores de elementos qu\u00edmicos diferentes, quando bem aquecidos, brilhavam com cores diferentes. Vapor de s\u00f3dio, por exemplo, emite uma luz amarelada, que voc\u00ea v\u00ea bem em l\u00e2mpadas pelas ruas.<\/p>\n<p>Um outro alem\u00e3o amigo de Bunsen, e de nome tamb\u00e9m familiar aos que aprendem sobre eletricidade, <strong>Gustav Kirchoff<\/strong>, finalmente juntou as pe\u00e7as quando analisou o espectro dessa luz emitida por diferentes elementos qu\u00edmicos aquecidos.<\/p>\n<p>Kirchoff notou n\u00e3o s\u00f3 que cada elemento emitia luz apenas em pequenas faixas determinadas do espectro, em linhas de emiss\u00e3o, como que absorviam exatamente as mesmas frequ\u00eancias do espectro, em linhas de absor\u00e7\u00e3o. Cada elemento qu\u00edmico possu\u00eda suas pr\u00f3prias linhas caracter\u00edsticas em que ou emitiam ou absorviam luz. <strong>Cada elemento qu\u00edmico possui uma assinatura luminosa<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que todas as l\u00e2mpadas de s\u00f3dio t\u00eam a mesma cor, de fato t\u00eam o mesmo espectro.<\/p>\n<div style=\"text-align: center\">\n<p><font size=\"1\"><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img decoding=\"async\" alt=\"lec07_04.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/lec07_04.jpg\" width=\"441\" height=\"294\" class=\"mt-image-none\" \/><\/span><br \/>\n<br \/>[<a href=\"http:\/\/astrosun2.astro.cornell.edu\/academics\/courses\/astro101\/herter\/lectures\/lec09.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><font size=\"1\">Terry Herter, Cornell University<\/font><\/a>]<\/font><\/p>\n<\/div>\n<p>E enquanto todas estas descobertas cient\u00edficas desconexas finalmente se reuniam, se Comte vivesse apenas mais dois anos veria como a ci\u00eancia ultrapassaria o imposs\u00edvel, com a publica\u00e7\u00e3o dos trabalhos de Kirchoff, que ainda publicaria exatamente sobre a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da superf\u00edcie do Sol.<\/p>\n<p>E muitas outras estrelas.<\/p>\n<h2>Quando um cientista velho e renomado diz que algo \u00e9 imposs\u00edvel&#8230;<\/h2>\n<p>Em um triunfo cient\u00edfico espetacular que s\u00f3 serve para enfatizar como cientistas, e principalmente fil\u00f3sofos, devem ser cautelosos antes de subestimar o alcance do estudo sistem\u00e1tico da natureza, vulgo <em>ci\u00eancia<\/em>, em poucos anos o elemento h\u00e9lio ainda seria descoberto primeiro no Sol, e apenas quase trinta anos depois na Terra!<\/p>\n<p>Apenas para enfatizar. Aquilo que enche bexigas de crian\u00e7as \u00e9 um elemento qu\u00edmico descoberto primeiro em nossa estrela, a 150 milh\u00f5es de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Com uma &#8220;assinatura&#8221; de luz at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida, batizaram-no de <em>h\u00e9lio<\/em> em honra ao deus grego do Sol&#8230; e apenas d\u00e9cadas depois conseguiu-se confirmar tal elemento aqui em nosso planeta. O h\u00e9lio, ali\u00e1s, \u00e9 inodoro.<\/p>\n<p>Ironia das ironias, se de alguma forma consegu\u00edssemos colher material diretamente do Sol e traz\u00ea-lo at\u00e9 a Terra para investiga\u00e7\u00e3o, o que deve ser poss\u00edvel algum dia, uma das formas de an\u00e1lise qu\u00edmica seria justamente&#8230; atrav\u00e9s da espectroscopia. Isto \u00e9, far\u00edamos com o material exatamente o que se faz a milh\u00f5es de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Analisar seu espectro.<\/p>\n<p>O espectro da luz ainda desempenharia papel important\u00edssimo no desenvolvimento de uma outra enorme revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a f\u00edsica qu\u00e2ntica. O conceito de <em>quantum<\/em> foi desenvolvido por <strong>Max Planck<\/strong> (outro germ\u00e2nico) para explicar <a href=\"http:\/\/www.if.ufrgs.br\/~betz\/iq_XX_A\/radTerm\/aRadTermFrame.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a radia\u00e7\u00e3o de corpo negro<\/a>.<\/p>\n<p>N\u00e3o fosse o bastante, o espectro luminoso \u00e9 tamb\u00e9m essencial em nosso conhecimento cosmol\u00f3gico. Foi utilizando a assinatura espectral de corpos celestes que medimos as verdadeiras escalas do Universo, muito maior e muito mais repleto de objetos do que nossas v\u00e3s filosofias jamais haviam sonhado, e foi descobrindo o <a href=\"http:\/\/www.feiradeciencias.com.br\/sala24\/24_A27.asp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desvio para o vermelho<\/a> que constatamos que o Universo est\u00e1 em expans\u00e3o, e ent\u00e3o, que deve ter tido um in\u00edcio.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o cheiramos estrelas, e \u00e9 pouco prov\u00e1vel que cheiremos. O cheiro da luz, contudo, sentido atrav\u00e9s da ci\u00eancia a partir de t\u00eanues e min\u00fasculos pontos a bilh\u00f5es de anos-luz de dist\u00e2ncia nos eleva muito al\u00e9m de nossos sentidos, ultrapassando mesmo os limites de nossa imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ou pelo menos, da imagina\u00e7\u00e3o de Augusto Comte.<\/p>\n<p>&#8211; &#8211; &#8211;<\/p>\n<p>Fonte:<br \/>\n<br \/><strong><a href=\"http:\/\/books.google.com.br\/books?id=ntZwxttZF-sC&amp;hl=en\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Measuring the universe<\/a><\/strong>, de <strong>Stephen Webb<\/strong><\/p>\n<p>Esta nota \u00e9 uma entrada atrasada para <strong><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/raiox\/2009\/05\/uma_blogagem_coletiva_luminosa.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blogagem Coletiva sobre a Luz<\/a><\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/raiox\/2009\/05\/uma_blogagem_coletiva_luminosa.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span class=\"mt-enclosure mt-enclosure-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"banner_luz1.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/banner_luz1.jpg\" width=\"300\" height=\"174\" class=\"mt-image-none\" \/><\/span><\/a> <\/div>\n<p>Que j\u00e1 teve at\u00e9 <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/raiox\/2009\/05\/blogagem_coletiva_da_luz_o_que_1.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">segunda chamada<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;As estrelas s\u00f3 est\u00e3o acess\u00edveis a n\u00f3s por explora\u00e7\u00e3o visual \u00e0 dist\u00e2ncia. &#8230; Nunca poderemos por qualquer meio estudar sua composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica &#8230; Considero qualquer no\u00e7\u00e3o a respeito da verdadeira temperatura m\u00e9dia de v\u00e1rias estrelas como para sempre negadas a n\u00f3s&#8221;. &#8211; Augusto Comte, Curso de Filosofia Positiva, 1835. 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