{"id":1747,"date":"2010-02-03T20:05:51","date_gmt":"2010-02-03T23:05:51","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_1\/"},"modified":"2010-02-03T20:05:51","modified_gmt":"2010-02-03T23:05:51","slug":"a_humanidade_no_merece_ir_lua_1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2010\/02\/03\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_1\/","title":{"rendered":"A Humanidade n\u00e3o merece ir \u00e0 Lua (II)"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;border-top: 0px;border-right: 0px\" border=\"0\" alt=\"concorde-b52\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/concordeb521.jpg\" width=\"500\" height=\"184\" \/>&#160; <\/p>\n<p>Continuando a s\u00e9rie <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">iniciada ontem<\/a>, come\u00e7amos aqui com dois outros feitos tecnol\u00f3gicos, mas a hist\u00f3ria desta vez n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feliz e inspiradora. \u00c0 esquerda temos o <em>Concorde<\/em>, \u00e0 direita o <em>B-52<\/em>. Ambos descendentes do primeiro avi\u00e3o \u2013 embora devam mais a <strong>Santos Dumont<\/strong> que aos <strong>irm\u00e3os Wright<\/strong>, mas <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ciencia\/ult306u15410.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">esta \u00e9 <strong>outra hist\u00f3ria<\/strong><\/a>. Ambos s\u00e3o feitos tecnol\u00f3gicos not\u00e1veis.<\/p>\n<p>Desde que entrou em opera\u00e7\u00e3o em 1976 at\u00e9 sua aposentadoria em 2003, voc\u00ea, cidad\u00e3o comum \u2013 e razoavelmente abastado \u2013, poderia comprar uma passagem do <em>Concorde<\/em> e cruzar o Atl\u00e2ntico a mais de duas vezes a velocidade do som, sentado confortavelmente bebendo champanhe. Grite \u201cUau!\u201d e saiba que voc\u00ea poderia chegar at\u00e9 o ouvido mais pr\u00f3ximo duas vezes mais r\u00e1pido que o seu grito. Sentado e bebendo champanhe. \u201cUau!\u201d.<\/p>\n<p>E, no entanto, hoje j\u00e1 n\u00e3o se pode mais fazer isto. Com pouco mais de dez mil d\u00f3lares ainda \u00e9 poss\u00edvel comprar um passeio em um ca\u00e7a supers\u00f4nico russo, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. N\u00e3o se poder\u00e1 beber champanhe, por exemplo. E que seja um avi\u00e3o ca\u00e7a, militar, nos leva ao bombardeiro B-52.<\/p>\n<p>Desenvolvido a partir de 1952 e introduzido em servi\u00e7o em 1955, o B-52 ainda \u00e9 uma das principais aeronaves da For\u00e7a A\u00e9rea dos Estados Unidos. Usado no Vietn\u00e3, nas duas guerras do Iraque e no Afeganist\u00e3o, ele est\u00e1 muito longe de ser aposentado. Em verdade, os militares americanos planejam manter este avi\u00e3o subs\u00f4nico em servi\u00e7o pelo menos at\u00e9 o ano de 2040 (!). Seriam mais de 80 anos voando e despejando bombas pelo planeta, mais tempo do que o que levou do <em>Flyer<\/em> dos irm\u00e3os Wright \u00e0 pot\u00eancia dos foguetes do <em>Saturno V<\/em>.<\/p>\n<p>Se a foto do reflexo do Flyer no traje de Armstrong representa o imenso progresso tecnol\u00f3gico de que somos capazes, o B-52 \u00e9 um s\u00edmbolo concreto de estagna\u00e7\u00e3o. Resulta, no entanto, que ambos t\u00eam muito mais em comum do que se gostaria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;float: none;margin-left: auto;border-top: 0px;margin-right: auto;border-right: 0px\" border=\"0\" alt=\"strangelove\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/strangelove.jpg\" width=\"500\" height=\"342\" \/>&#160; <\/p>\n<p>O motivo pelo qual este bombardeiro ainda est\u00e1 em servi\u00e7o n\u00e3o \u00e9 devido \u00e0 nossa incapacidade de criar bombardeiros mais avan\u00e7ados. Pelo contr\u00e1rio, novas formas de lan\u00e7ar bombas t\u00eam sido desenvolvidas constantemente. Em 1964, h\u00e1 mais de quarenta anos e antes que pis\u00e1ssemos na Lua, j\u00e1 se havia criado o prot\u00f3tipo <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/XB-70_Valkyrie\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">XB-70 <em>Valkyrie<\/em><\/a>, um bombardeiro com capacidade para toneladas de armas, capaz de voar a Mach 3, mais r\u00e1pido que o pr\u00f3prio Concorde criado anos depois. Outras aeronaves como o <em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/B-1_Lancer\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">B-1<\/a><\/em> ou o <em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/B-2_Spirit\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">B-2<\/a><\/em>, ainda em servi\u00e7o, representam os avan\u00e7os aeron\u00e1uticos que continuaram desde a introdu\u00e7\u00e3o do B-52 h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo. N\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de tecnologia que faz com que este dinossauro voe at\u00e9 2040.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a economia, est\u00fapido\u201d, bradou a campanha de <strong>Bill Clinton<\/strong> contra <strong>George Bush<\/strong> pai em 1992. Clinton ganhou. Bombardeiros B-52 s\u00e3o baratos, e funcionam bem para jogar bombas ao redor do mundo. Eles ganharam. Se a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica n\u00e3o houvesse se dissolvido e a corrida armamentista desenfreada ainda estivesse em curso, \u00e9 prov\u00e1vel que o B-52 j\u00e1 tivesse sido aposentado em favor de algo mais moderno. Mas n\u00e3o por coincid\u00eancia, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tamb\u00e9m ruiu em grande parte por causa do fracasso de sua economia.<\/p>\n<p>Economia tamb\u00e9m \u00e9 o que levou \u00e0 aposentadoria do <em>Concorde<\/em> em 2003. Apenas 20 unidades foram constru\u00eddas nos quase trinta anos de servi\u00e7o, muito menos do que o planejado. E a pr\u00f3pria hist\u00f3ria do desenvolvimento do Concorde \u00e9 ilustrativa do que se pretende discutir aqui.<\/p>\n<p>Criar uma grande aeronave comercial supers\u00f4nica n\u00e3o era nem nunca foi barato, e pelo visto, jamais foi economicamente vi\u00e1vel. Diversos pa\u00edses se aventuraram, mas todos desistiram\u2026 por causa da economia. Houve apenas duas exce\u00e7\u00f5es: o pr\u00f3prio <em>Concorde<\/em>, e ent\u00e3o o sovi\u00e9tico <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Tupolev_Tu-144\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tupolev Tu-144<\/a>, desenvolvido \u00e0s pressas pelos sovi\u00e9ticos como resposta ao projeto ocidental e aposentado igualmente \u00e0s pressas, por mostrar-se operacionalmente invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00e1vel que tanto o Tupolev quanto o Concorde possam ser vistos como resultados de disputas. Como j\u00e1 mencionado, o projeto sovi\u00e9tico opunha-se ao do Concorde e foi um vergonhoso fracasso. A surpresa \u00e9 que o pr\u00f3prio projeto ocidental n\u00e3o foi uma coopera\u00e7\u00e3o t\u00e3o feliz, e a infelicidade da parceria entre Reino Unido e Fran\u00e7a pode ser mesmo o motivo de seu sucesso. Ou fracasso, dependendo do ponto de vista.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;float: none;margin-left: auto;border-top: 0px;margin-right: auto;border-right: 0px\" border=\"0\" alt=\"20070118_napoleon\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/20070118_napoleon.jpg\" width=\"300\" height=\"316\" \/> <\/p>\n<p>Quando franceses e ingleses firmaram o acordo de desenvolvimento do Concorde, este inclu\u00eda a condi\u00e7\u00e3o de que caso qualquer dos pa\u00edses abandonasse o compromisso, teria que pagar pesadas multas ao outro. Isso se tornaria um pesadelo aos pol\u00edticos respons\u00e1veis nos dois pa\u00edses porque o desenvolvimento estourou todos os or\u00e7amentos previstos, mas abandonar o acordo ainda sairia mais caro que empurr\u00e1-lo com a barriga e continuar investindo.<\/p>\n<p>Ao final, o Concorde foi levado at\u00e9 o final a um custo seis vezes maior do que o previsto. Nenhuma companhia a\u00e9rea al\u00e9m de <em>British Airways<\/em> e <em>Air France<\/em> comprou unidades, e as duas companhias s\u00f3 adquiriram suas unidades porque as receberam por generosos financiamentos. Quase todas as rotas iniciais foram canceladas. Foram bilh\u00f5es de investimento p\u00fablico em avi\u00f5es comerciais supers\u00f4nicos que tudo indica n\u00e3o terem sequer rendido o suficiente para cobrir tal gasto.<\/p>\n<p>O que isso tem a ver com o B-52 e a Lua? No pr\u00f3ximo texto da s\u00e9rie.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#160; Continuando a s\u00e9rie iniciada ontem, come\u00e7amos aqui com dois outros feitos tecnol\u00f3gicos, mas a hist\u00f3ria desta vez n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feliz e inspiradora. \u00c0 esquerda temos o Concorde, \u00e0 direita o B-52. Ambos descendentes do primeiro avi\u00e3o \u2013 embora devam mais a Santos Dumont que aos irm\u00e3os Wright, mas esta \u00e9 outra hist\u00f3ria. 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