{"id":1749,"date":"2010-02-10T01:52:11","date_gmt":"2010-02-10T04:52:11","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_2\/"},"modified":"2010-02-10T01:52:11","modified_gmt":"2010-02-10T04:52:11","slug":"a_humanidade_no_merece_ir_lua_2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2010\/02\/10\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_2\/","title":{"rendered":"A Humanidade n\u00e3o merece ir \u00e0 Lua (III)"},"content":{"rendered":"<p>&#160;<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px\" border=\"0\" alt=\"351760_4249\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/351760_42491.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" \/> <\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_1.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">hist\u00f3ria do desenvolvimento do <em>Concorde<\/em><\/a> lembra muito <a href=\"http:\/\/biologiaevolutiva.wordpress.com\/2009\/12\/08\/o-dilema-do-prisioneiro-e-a-critica-ao-reducionismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o dilema do prisioneiro<\/a>. Em menos de dois anos os custos j\u00e1 haviam dobrado, e frente a uma crise econ\u00f4mica, o governo brit\u00e2nico tentou abandonar o projeto em 1964. Como vimos, havia um por\u00e9m. O novo governo de <strong>Harold Wilson<\/strong> descobriu que deveria pagar ao parceiro franc\u00eas uma multa pelo abandono t\u00e3o grande que na pr\u00e1tica seria t\u00e3o cara quanto continuar financiando o projeto.<\/p>\n<p>Os franceses, por sua parte, seguramente n\u00e3o ficaram felizes em financiar um custo mais de seis vezes superior \u2013 e em algumas estimativas, mais de quinze! \u2013 ao or\u00e7amento inicial por um avi\u00e3o que mesmo antes de ser completado j\u00e1 dava sinais de que n\u00e3o operaria com lucro. Isto \u00e9, al\u00e9m de tudo, o investimento brutal n\u00e3o seria recuperado. Em v\u00e1rios momentos, os franceses tamb\u00e9m buscaram abandonar o projeto, mas ent\u00e3o, seriam eles a pagar multas aos brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o racional era e \u00e9 \u00f3bvia. Bastava que os dois pa\u00edses sentassem de novo \u00e0 mesa e cancelassem o projeto conjuntamente, revisando o tratado. \u201cMas em vista da forma como o tratado havia sido firmado, nenhum dos lados podia permitir que parecesse que era aquele desejando o cancelamento, uma vez que o outro veria uma chance de recuperar seu preju\u00edzo ao afirmar que eles, claro, queriam continuar\u201d, <a href=\"http:\/\/www.theatlantic.com\/issues\/77jan\/gillman.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">escreveu <strong>Peter Gillman<\/strong> no <em>The Atlantic<\/em><\/a> pouco ap\u00f3s a entrada em servi\u00e7o do avi\u00e3o em 1977. Como no dilema do prisioneiro, as partes foram incapazes de cooperar frente \u00e0 possibilidade que a outra levasse vantagem, e se viram assim condenadas a um preju\u00edzo combinado muito maior.<\/p>\n<p>Que um acordo lembrando um dilema da teoria de jogos fosse firmado \u00e9 impressionante em si mesmo. Como explic\u00e1-lo? \u201cEm cada caso, motiva\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e pol\u00edticas superaram considera\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas\u201d, conclui <a href=\"http:\/\/tcbh.oxfordjournals.org\/cgi\/content\/abstract\/13\/3\/253\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um estudo de historiadores da Universidade de Westminster<\/a>. Motiva\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e pol\u00edticas e a pr\u00f3pria Teoria de Jogos nos levam finalmente de volta ao projeto Apollo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;float: none;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;margin-left: auto;border-left-width: 0px;margin-right: auto\" border=\"0\" alt=\"sputnik\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/sputnik.jpg\" width=\"300\" height=\"242\" \/> <\/p>\n<p>O dilema do prisioneiro que levou o homem \u00e0 Lua come\u00e7ou com a surpresa do <em>Sputnik<\/em> em 1957. Uma enorme conquista tecnol\u00f3gica, o primeiro sat\u00e9lite artificial, e tamb\u00e9m um aviso aos americanos de que os russos haviam lan\u00e7ado sobre suas cabe\u00e7as uma pequena esfera met\u00e1lica contra a qual nada podiam fazer. A esfera polida era bela, brilhante e inofensiva, transmitindo simples bips eletr\u00f4nicos. Mas bem poderia ter sido uma arma. De certa forma, havia sido uma arma psicol\u00f3gica poderos\u00edssima. N\u00e3o houve dilema do prisioneiro em maior escala do que a <em>Guerra Fria<\/em>.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava naquele momento a corrida espacial, que de in\u00edcio possu\u00eda um sentido muito claro: domine-se o espa\u00e7o, domine-se o planeta. Mesmo a conquista da Lua era um objetivo claro. Conquiste-se a Lua, conquiste-se o planeta: o primeiro pa\u00eds a colonizar a Lua encontraria l\u00e1 uma plataforma de lan\u00e7amento invulner\u00e1vel a partir da qual se poderia aniquilar a pr\u00f3pria Terra. Quando <strong>Yuri Gagarin<\/strong> se tornou o primeiro homem a orbitar o planeta, <strong>John Kennedy<\/strong> finalmente se convenceu de que os americanos escolheriam ir \u00e0 Lua n\u00e3o porque era f\u00e1cil, nem apenas porque era dif\u00edcil, mas porque representava o ponto de chegada de uma corrida que de in\u00edcio parecia valer tudo ou nada. E eles estavam perdendo. <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=RCZks2F3Gf4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">TVs coloridas<\/a> de nada adiantariam em meio a uma chuva de ogivas nucleares do espa\u00e7o.<\/p>\n<p align=\"center\">\n<p>Como o or\u00e7amento inicial do <em>Concorde<\/em>, isso rapidamente mudou. Com o desenvolvimento de submarinos nucleares, m\u00edsseis podiam ser lan\u00e7ados do fundo do mar de qualquer ponto dos oceanos, mesmo sob as calotas polares, representando uma plataforma de lan\u00e7amento m\u00f3vel praticamente invulner\u00e1vel. No evento de um apocalipse nuclear, tanto astronautas na esta\u00e7\u00e3o espacial quanto marinheiros em submarinos nucleares sobreviver\u00e3o dentro de suas latas um pouco mais do que n\u00f3s sobre a terra devastada. E submarinos s\u00e3o muito mais baratos que esta\u00e7\u00f5es ou col\u00f4nias espaciais. Foi acima de tudo a economia que fez com que um <em>thriller<\/em> como \u201c<a href=\"http:\/\/www.adorocinema.com\/filmes\/cacada-ao-outubro-vermelho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Ca\u00e7ada ao Outubro Vermelho<\/em><\/a>\u201d envolvesse submarinos e n\u00e3o naves espaciais.<\/p>\n<p>Em meados dos anos 1960 j\u00e1 era claro que chegar \u00e0 Lua n\u00e3o significava o ponto final e definitivo de uma domin\u00e2ncia absoluta no espa\u00e7o, muito menos do planeta. O projeto Apollo, no entanto, j\u00e1 estava em curso e abandon\u00e1-lo n\u00e3o era uma alternativa vi\u00e1vel em plena Guerra Fria, por \u201cmotiva\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e pol\u00edticas\u201d. Os EUA precisavam reafirmar sua superioridade tecnol\u00f3gica ainda que no espa\u00e7o ela n\u00e3o significasse tanto quanto se imaginava de in\u00edcio.<\/p>\n<p>Curiosamente, o projeto Apollo n\u00e3o estourou seu or\u00e7amento inicial, mas a explica\u00e7\u00e3o talvez esteja <a href=\"http:\/\/www.aura-astronomy.org\/nv\/Denver_1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">na anedota<\/a> de que o administrador da NASA, <strong>James Webb<\/strong>, pediu que seus engenheiros fossem muito sinceros ao estimar os custos do programa \u2013 e ent\u00e3o <strong>dobrou<\/strong> o valor antes de apresent\u00e1-lo a Kennedy. Em seu \u00e1pice, ele consumiu mais de 5% do or\u00e7amento federal de todo os EUA, algo imposs\u00edvel fora do contexto da Guerra Fria, com o objetivo \u00fanico de pisar na Lua.<\/p>\n<p>E esta se tornaria a trag\u00e9dia do projeto Apollo. No pr\u00f3ximo texto.<\/p>\n<p>[Imagem do topo: <a href=\"http:\/\/www.sxc.hu\/photo\/351760\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ctechs\/sxc.hu<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#160; A hist\u00f3ria do desenvolvimento do Concorde lembra muito o dilema do prisioneiro. Em menos de dois anos os custos j\u00e1 haviam dobrado, e frente a uma crise econ\u00f4mica, o governo brit\u00e2nico tentou abandonar o projeto em 1964. Como vimos, havia um por\u00e9m. 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