{"id":1755,"date":"2010-02-25T03:00:31","date_gmt":"2010-02-25T06:00:31","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_4\/"},"modified":"2010-02-25T03:00:31","modified_gmt":"2010-02-25T06:00:31","slug":"a_humanidade_no_merece_ir_lua_4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2010\/02\/25\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_4\/","title":{"rendered":"A Humanidade n\u00e3o merece ir \u00e0 Lua (V)"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>Como negar a beleza das explos\u00f5es que podem ser vistas acima? \u00c9 imposs\u00edvel. S\u00e3o fabulosos fogos de artif\u00edcio. E o s\u00e3o em escala \u2013 e pot\u00eancia \u2013 nunca vistas, porque s\u00e3o alguns dos poucos testes nucleares realizados no espa\u00e7o. Mais detalhes da breve hist\u00f3ria das \u201cbombas do arco-\u00edris\u201d podem ser conferidos no excelente document\u00e1rio \u201c<a href=\"http:\/\/www.vce.com\/nukes.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Nukes in Space<\/em><\/a>\u201d, do premiado cineasta <strong>Peter Kuran<\/strong>.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o que pagamos por esta pirotecnia nuclear no espa\u00e7o s\u00e3o seus produtos radioativos dispersados pela atmosfera: alguns \u00e1tomos liberados nestas explos\u00f5es bem podem fazer parte de seu corpo neste exato momento. Como voc\u00ea pode imaginar, n\u00e3o s\u00e3o muito saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Beleza e terror. N\u00f3s ainda estamos falando da conquista espacial.<\/p>\n<p>Eu gostaria de escrever aqui que <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_3.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a vis\u00e3o grandiosa de <strong>Wernher von Braun<\/strong><\/a> para o futuro da humanidade no espa\u00e7o era n\u00e3o apenas mais ambiciosa e confiante que a de <strong>Kennedy<\/strong>, como tamb\u00e9m antecipava e refor\u00e7ava sua mensagem conciliadora. Que mesmo antes de se virem pressionados pelo <em>Sputnik<\/em> e por <strong>Gagarin<\/strong>, os americanos se lan\u00e7ariam na conquista espacial pelas \u201cnovas esperan\u00e7as de conhecimento e paz\u201d que residem no c\u00e9u infinito. Infelizmente, n\u00e3o foi o que ocorreu.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cNos pr\u00f3ximos dez ou 15 anos, a Terra ter\u00e1 um novo acompanhante nos c\u00e9us, um sat\u00e9lite artificial que pode ser tanto a maior for\u00e7a pela paz j\u00e1 constru\u00edda, ou <strong>uma das mais terr\u00edveis armas de guerra<\/strong> \u2013 dependendo de quem o construir e controlar\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Era assim que come\u00e7ava a s\u00e9rie de artigos de von Braun na <em>Collier\u2019s<\/em>. Na g\u00eanese da vis\u00e3o inspiradora que nos prometeu o Universo em 1952, j\u00e1 estava l\u00e1 o ultimato de que a conquista espacial deveria ser levada \u00e0 frente pelo medo, sob o espectro da aniquila\u00e7\u00e3o nuclear.<\/p>\n<p>Quando lembramos que <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_2.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a Guerra Fria foi o maior dilema do prisioneiro<\/a> e como a pr\u00f3pria conquista da Lua envolvia de in\u00edcio planos de plataformas para destruir a Terra, est\u00e1vamos nos referindo a planos promovidos entre outros <a href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science?_ob=ArticleURL&amp;_udi=B6V52-4J2W0NY-3&amp;_user=10&amp;_coverDate=02%2F28%2F2006&amp;_rdoc=1&amp;_fmt=high&amp;_orig=search&amp;_sort=d&amp;_docanchor=&amp;view=c&amp;_searchStrId=1210705108&amp;_rerunOrigin=google&amp;_acct=C000050221&amp;_version=1&amp;_urlVersion=0&amp;_userid=10&amp;md5=847fd8bf00e0a739cb2ae12b30e4ed53\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pelo mesmo von Braun<\/a>. Afinal, era o antigo cientista de <strong>Adolf Hitler<\/strong> que mirava as estrelas, mas como o humorista <strong>Mort Sahl<\/strong> brincou, \u00e0s vezes acertava Londres.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px\" border=\"0\" alt=\"dr_strangelove_1ed07\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/dr_strangelove_1ed071.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" \/>&#160; <\/p>\n<p>Wernher von Braun e sua vis\u00e3o na <em>Collier\u2019s<\/em> talvez representem perfeitamente a hist\u00f3ria da conquista espacial no s\u00e9culo 20, em todas suas contradi\u00e7\u00f5es, em tudo aquilo que pode haver de melhor e pior em nossa natureza. Somos tanto inspirados pela esperan\u00e7a quanto motivados pelo medo, e quanto maiores os desafios, maiores as esperan\u00e7as, maiores os medos.<\/p>\n<p>Neste paradoxo aparente, \u00e9 contudo muito mais comum que finalmente nos comprometamos com a\u00e7\u00e3o em projetos onerosos quando nos vemos for\u00e7ados pelo medo. Ou pelo menos, a hist\u00f3ria da conquista, da pr\u00f3pria <em>corrida<\/em> espacial \u00e9 uma <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_2.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">longa hist\u00f3ria de dilemas do prisioneiro<\/a>. O paradoxo se desfaz quando notamos que \u00e9 este medo que nos levou a investir na esperan\u00e7a de grandes conquistas.<\/p>\n<p>Porque, como vimos, economicamente algo como o <em>Concorde<\/em>, e muito menos a conquista da Lua, <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_1.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00e3o fazem sentido<\/a>. Era preciso algo mais para que nos dedic\u00e1ssemos a eles. E em nossa natureza humana, de macacos dotados de ci\u00eancia e tecnologia, a esperan\u00e7a por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9, ou n\u00e3o foi suficiente para levar \u00e0 frente tais sonhos. Ao final, foi o medo que motivou a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cL\u00e1 onde cresce o perigo, cresce tamb\u00e9m o que salva\u201d, menciona o fil\u00f3sofo franc\u00eas <strong>Edgar Morin<\/strong> como um princ\u00edpio de esperan\u00e7a. \u201cDe um modo tr\u00e1gico, quanto mais nos aproximarmos do perigo, mais teremos chances de sair dele, mas aumentar\u00e3o tamb\u00e9m mais os riscos de nele mergulhar\u201d.<\/p>\n<p>Nossa breve estada em nosso sat\u00e9lite natural foi um dos sobressaltos mais fant\u00e1sticos produzidos por uma das eras em que mais nos aproximamos de mergulhar no terror do apocalipse nuclear. Foi tanto a antecipa\u00e7\u00e3o de um empreendimento que talvez s\u00f3 se torne economicamente vi\u00e1vel neste s\u00e9culo \u2013 ou no pr\u00f3ximo \u2013 e que determinar\u00e1 a continuidade de nossa civiliza\u00e7\u00e3o a longo prazo, quanto um dos encontros mais pr\u00f3ximos com o simples fim de tudo.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a hist\u00f3ria a lembrar a partir da pegada de <strong>Neil Armstrong<\/strong>. E com uma hist\u00f3ria assim, a humanidade n\u00e3o merece ir \u00e0 Lua. Ci\u00eancia e tecnologia nos oferecem o Universo infinito, mas como macacos nos preocupa muito mais o que outros macacos andam fazendo. Acabamos todos prisioneiros do po\u00e7o gravitacional terrestre.<\/p>\n<p>Com uma hist\u00f3ria assim, a humanidade n\u00e3o merece ir \u00e0 Lua.<\/p>\n<\/p>\n<p>Conseguiremos nos livrar de todos estes dilemas? Depois de toda uma s\u00e9rie de textos pretendendo mostrar por que n\u00e3o merecemos ir \u00e0 Lua, n\u00e3o poder\u00edamos parar aqui em tom f\u00fanebre. Ou talvez pelo tom apocal\u00edptico, nos sejam despertados os sonhos, afinal, este que escreve aqui \u00e9 tamb\u00e9m um macaco.<\/p>\n<p>Encerraremos esta s\u00e9rie a seguir com as esperan\u00e7as de que mere\u00e7amos voltar \u00e0 Lua, e consigamos alcan\u00e7ar as estrelas \u2013 sem precisar encarar o abismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como negar a beleza das explos\u00f5es que podem ser vistas acima? \u00c9 imposs\u00edvel. S\u00e3o fabulosos fogos de artif\u00edcio. E o s\u00e3o em escala \u2013 e pot\u00eancia \u2013 nunca vistas, porque s\u00e3o alguns dos poucos testes nucleares realizados no espa\u00e7o. 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