{"id":1871,"date":"2010-08-29T17:27:32","date_gmt":"2010-08-29T20:27:32","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/08\/a_primavera_silenciosa_da_natu_1\/"},"modified":"2010-08-29T17:27:32","modified_gmt":"2010-08-29T20:27:32","slug":"a_primavera_silenciosa_da_natu_1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2010\/08\/29\/a_primavera_silenciosa_da_natu_1\/","title":{"rendered":"A Primavera Silenciosa da Nature (parte II)"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cHouve outrora uma cidade no cora\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica onde toda a vida parecia viver em harmonia com o ambiente. Ent\u00e3o uma estranha mol\u00e9stia avan\u00e7ou sobre a \u00e1rea e tudo come\u00e7ou a mudar. Um feiti\u00e7o maligno foi lan\u00e7ado sobre a comunidade. Por todo o lugar se via a sombra da morte.<\/p>\n<p>Fazendeiros falavam de muitas doen\u00e7as em suas fam\u00edlias. Na cidade, os doutores ficaram mais e mais intrigados por novos tipos de mol\u00e9stias aparecendo em seus pacientes. <\/p>\n<p>Havia uma estranha calmaria. Os p\u00e1ssaros, por exemplo, para onde teriam ido? Os poucos vistos estavam moribundos, tremiam violentamente e n\u00e3o podiam voar. Aquela era uma primavera sem vozes. Pelas manh\u00e3s, que outrora haviam vibrado com o coro dos papos-roxos, dos tordos-dos-remedos, dos pombos, dos gaios, das corru\u00edras e de vintenas de outras aves canoras, n\u00e3o havia agora som algum, somente o sil\u00eancio pairava.<\/p>\n<p>Nas fazendas, os galos cruzavam mas os pintinhos n\u00e3o chocavam. As macieiras floresciam mas nenhuma abelha voava entre as flores, n\u00e3o havia poliniza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o haveria frutos.<\/p>\n<p>Nas sarjetas e nas calhas, entre as telhas, um p\u00f3 branco granulado ainda podia ser visto. Algumas semanas antes ele havia ca\u00eddo como neve sobre os telhados e jardins, os campos e rios. Nenhuma bruxaria, nenhuma a\u00e7\u00e3o inimiga havia silenciado o renascimento de uma nova vida naquele mundo golpeado pela morte. Fora o povo, ele pr\u00f3prio, que fizera aquilo\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Com esta assustadora \u201c<em>F\u00e1bula para Amanh\u00e3<\/em>\u201d come\u00e7a a \u201c<em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Silent_Spring\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Primavera Silenciosa<\/a><\/em>\u201d (1962) de <strong>Rachel Carson<\/strong>, saudado como um dos marcos iniciais do movimento ambientalista. Aproximando-se dos 50 anos desde sua publica\u00e7\u00e3o, voc\u00ea pode jamais ter lido o livro de capa verde, mas sem d\u00favida j\u00e1 escutou alguma vers\u00e3o desta f\u00e1bula apocal\u00edptica, e \u00e9 bem poss\u00edvel que o cen\u00e1rio do sil\u00eancio dos p\u00e1ssaros e das doen\u00e7as misteriosas causadas por produtos qu\u00edmicos sint\u00e9ticos fa\u00e7am parte de seus temores mais primordiais.<\/p>\n<p>Como contou <a href=\"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um amigo<\/a>, quando o aluno comentou, \u201c<em>Bah, o Shakespeare \u00e9 um clich\u00ea atr\u00e1s do outro!<\/em>\u201d, o professor respondeu, \u201c<em>Claro, foi ele que criou eles<\/em>\u201d. A \u201cPrimavera Silenciosa\u201d de Carson, com seus alertas sobre o abuso de componentes sint\u00e9ticos, a manipula\u00e7\u00e3o do p\u00fablico incauto pela grande ind\u00fastria e a delicada teia da vida em que vivemos pode soar como um amontoado de clich\u00eas ecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Claro, foi em grande parte este best-seller ainda lido em escolas que os levou a milh\u00f5es de mentes. <em>Primavera Silenciosa<\/em> foi eleito recentemente como um dos 25 maiores livros de ci\u00eancia pelos editores da <em>Discover Magazine<\/em>. <\/p>\n<h3>\u201cBiocidas\u201d<\/h3>\n<p>Em meio \u00e0 poesia, havia sim ci\u00eancia: com a como\u00e7\u00e3o popular, o presidente <strong>John Kennedy<\/strong> ordenou que seus cientistas investigassem as alega\u00e7\u00f5es de Carson. Quando em maio de 1963 o relat\u00f3rio foi finalmente divulgado, nada menos que a pr\u00f3pria <a href=\"http:\/\/www.sciencemag.org\/cgi\/reprint\/140\/3569\/878\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Science<\/em> opinaria como<\/a>:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cO t\u00e3o esperado relat\u00f3rio sobre pesticidas do Comit\u00ea de Assessoria Cient\u00edfica do presidente foi divulgado na semana passada, e embora seja um documento moderado, mesmo em tom, e cuidadosamente equilibrado em seu julgamento de riscos versus benef\u00edcios, ele se soma a uma vindica\u00e7\u00e3o razoavelmente completa da tese da <em>Primavera Silenciosa<\/em> de Rachel Carson\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A tese do livro, novamente hoje um clich\u00ea, era realmente simples. O uso irrespons\u00e1vel e irrestrito de pesticidas exterminava n\u00e3o apenas insetos, como afetava animais como p\u00e1ssaros e mesmo seres humanos. Carson argumentava como n\u00e3o seriam \u201cpesticidas\u201d, e sim \u201cbiocidas\u201d, porque sua a\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limitava \u00e0s pestes e sim se estendia a toda a vida. O DDT em particular podia ter uma a\u00e7\u00e3o muito restrita a insetos, mas por ser lipof\u00edlico e n\u00e3o se degradar facilmente, tendia a se concentrar cada vez mais na gordura de animais no topo da cadeia alimentar, com efeitos n\u00e3o desprez\u00edveis por exemplo em algumas esp\u00e9cies de p\u00e1ssaros como o falc\u00e3o peregrino.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;float: none;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;margin-left: auto;border-left-width: 0px;margin-right: auto\" border=\"0\" alt=\"RTEmagicC_littoatl_406e.jpg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/RTEmagicC_littoatl_406e.jpg.jpg\" width=\"300\" height=\"322\" \/> <\/p>\n<p>Mais do que seus efeitos colaterais, o pr\u00f3prio sucesso do DDT seria tamb\u00e9m seu fracasso, porque a evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 literalmente uma for\u00e7a da natureza. Quase todos os insetos eram exterminados pelo DDT, mas os pouqu\u00edssimos indiv\u00edduos que por pequenas muta\u00e7\u00f5es eram mais resistentes ou mesmo imunes passavam ent\u00e3o a se proliferar sem rivais. Enfatizando as ideias de Darwin para o desenvolvimento de resist\u00eancia a pesticidas por insetos, Carson nota como \u201c<em>a guerra qu\u00edmica nunca \u00e9 vencida, e toda a vida fica encurralada no fogo-cruzado<\/em>\u201d. Insetos e pesticidas s\u00f3 se tornariam mais t\u00f3xicos e resistentes at\u00e9 que realmente n\u00e3o houvesse mais p\u00e1ssaros cantando pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Dez anos ap\u00f3s sua publica\u00e7\u00e3o, o DDT foi banido nos EUA e o uso e aplica\u00e7\u00e3o de pesticidas passou a ser melhor regulado por todo o mundo. A <a href=\"http:\/\/chm.pops.int\/Home\/tabid\/36\/language\/en-US\/Default.aspx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Conven\u00e7\u00e3o de Estocolmo<\/a>, um tratado global do qual o Brasil faz parte e em vigor desde 2004, limita o uso de Poluentes Org\u00e2nicos Persistentes, incluindo al\u00e9m do DDT subst\u00e2ncias como as dioxinas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 nada t\u00e3o \u00f3bvio e ponderado que n\u00e3o possa ser distorcido para se transformar em algo abomin\u00e1vel. A figura feminina de Rachel Carson e sua prosa repleta de refer\u00eancias po\u00e9ticas seria transformada por alguns em um dos maiores males do \u00faltimo s\u00e9culo, respons\u00e1vel pela morte de milh\u00f5es.<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo texto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cHouve outrora uma cidade no cora\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica onde toda a vida parecia viver em harmonia com o ambiente. 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