{"id":1882,"date":"2010-10-04T23:23:21","date_gmt":"2010-10-05T02:23:21","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/10\/eclipses_antropocntricos\/"},"modified":"2010-10-04T23:23:21","modified_gmt":"2010-10-05T02:23:21","slug":"eclipses_antropocntricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2010\/10\/04\/eclipses_antropocntricos\/","title":{"rendered":"Eclipses Antropoc\u00eantricos"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/high_altitude_eclipse_by_nethskied2xq0ww.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;border-top: 0px;border-right: 0px\" border=\"0\" alt=\"high_altitude_eclipse_by_nethskie-d2xq0ww\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/high_altitude_eclipse_by_nethskied2xq0ww_thumb.jpg\" width=\"500\" height=\"281\" \/><\/a> <\/p>\n<p>O cone de sombra lan\u00e7ado pela Lua encobrindo o Sol se desfaz, de forma particularmente destacada, enquanto um eclipse total chega ao seu fim. Uma imagem de tirar o f\u00f4lego, at\u00e9 porque \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o digital de <a href=\"http:\/\/nethskie.deviantart.com\/art\/High-Altitude-Eclipse-177573920#\/d2xq0ww\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>nethskie<\/strong><\/a>. Mas n\u00e3o desanime: uma vis\u00e3o t\u00e3o bela pode sim ser vista de verdade em latitudes mais altas, onde a penumbra de nosso sat\u00e9lite <a href=\"http:\/\/apod.nasa.gov\/apod\/ap031127.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">se alonga obliquamente por centenas de quil\u00f4metros<\/a>.<\/p>\n<p>A fotografia abaixo, capturada por <strong>Daniel Fischer<\/strong>, \u00e9 do <a href=\"http:\/\/apod.nasa.gov\/apod\/ap100804.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mundo muito real da Patag\u00f4nia<\/a>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;border-top: 0px;border-right: 0px\" border=\"0\" alt=\"shadowcone_fischer\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/shadowcone_fischer.jpg\" width=\"500\" height=\"333\" \/> <\/p>\n<p>Enxergar que o cone de sombra de um eclipse \u00e9 em verdade pequeno deve ser uma experi\u00eancia que inspire reflex\u00e3o e mesmo humildade. Nossos antepassados, de culturas das mais diversas em diferentes pontos do globo, viam eclipses como press\u00e1gios e maus agouros c\u00f3smicos. Afinal, o Sol estava sendo tomado por escurid\u00e3o. Que esp\u00e9cie de feiti\u00e7aria ou caprichos divinos responderiam por essa escurid\u00e3o em pleno dia? Que garantia havia de que a escurid\u00e3o n\u00e3o duraria eternamente?<\/p>\n<p>Apenas registros astron\u00f4micos estendendo-se por gera\u00e7\u00f5es permitiriam descobrir que os eclipses n\u00e3o eram arbitr\u00e1rios. Muito pelo contr\u00e1rio, eles obedecem a uma regularidade t\u00e3o previs\u00edvel e confi\u00e1vel que atrav\u00e9s deles podemos estabelecer que na tarde de 28 de maio de 585 AC, <strong>Aliates<\/strong>, rei da L\u00eddia, batalhava com <strong>Ci\u00e1xares<\/strong>, rei de M\u00e9dia. \u00c9 o evento hist\u00f3rico mais antigo conhecido com tal precis\u00e3o justamente porque esta \u201cBatalha do Eclipse\u201d foi interrompida pelo escurecer do c\u00e9u, cuja data pode ser determinada com base na regularidade astron\u00f4mica.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de dois mil\u00eanios, os reis ficaram t\u00e3o impressionados com o fen\u00f4meno, interpretado como um sinal dos deuses, que ap\u00f3s anos de guerra estabeleceram a paz da forma antiga: a filha de Aliates casou-se com o filho de Ci\u00e1xares, e seus territ\u00f3rios foram divididos no rio H\u00e1lis que dividia seu campo de batalha. Registrado por <strong>Her\u00f3doto<\/strong>, foi sorte de l\u00eddios e medas que a Turquia n\u00e3o se situasse em uma latitude alta como a Patag\u00f4nia, pois ent\u00e3o os reis talvez percebessem que o eclipse era um fen\u00f4meno local e passageiro.<\/p>\n<p>Porque afinal eclipses solares s\u00e3o fen\u00f4menos locais e passageiros, durando no m\u00e1ximo pouco mais de sete minutos e vistos em um mesmo momento apenas de uma pequena faixa da superf\u00edcie do planeta. Salvo um fant\u00e1stico cataclismo interplanet\u00e1rio altamente improv\u00e1vel que tirasse a Lua ou a Terra de suas \u00f3rbitas da maneira exata, eclipses solares sempre ser\u00e3o locais e passageiros, sempre obedecer\u00e3o a uma regularidade que permite conhecer todos os eclipses estendendo-se em eras passadas e futuras com enorme precis\u00e3o. Nada h\u00e1 de sobrenatural e os press\u00e1gios que trazem s\u00e3o meramente de movimentos celestes.<\/p>\n<p>A natureza local de um eclipse fica ainda mais evidente quando se v\u00ea o cone de sombra do espa\u00e7o, algo que l\u00eddios, medas e mesmo habitantes da Patag\u00f4nia n\u00e3o poderiam apreciar, mas <a href=\"http:\/\/visibleearth.nasa.gov\/view_rec.php?id=20565\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">astronautas na Esta\u00e7\u00e3o Espacial Internacional sim<\/a>. A mancha escura sobre o planeta abaixo \u00e9 a sombra de um eclipse.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;border-top: 0px;border-right: 0px\" border=\"0\" alt=\"ISS012-E-21351_lrg\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/ISS012E21351_lrg.jpg\" width=\"500\" height=\"331\" \/> <\/p>\n<p>Qu\u00e3o apropriado n\u00e3o \u00e9 que esta imagem de um eclipse solar vista do espa\u00e7o tenha um cone de sombra pr\u00f3ximo da mesma Turquia onde Aliates e Ci\u00e1xares batalharam h\u00e1 um par de mil\u00eanios. E quanta reflex\u00e3o e sobretudo humildade esta imagem n\u00e3o deve inspirar: enquanto os reis guerreiros do passado pensaram que os deuses escureciam o Sol por causa de sua batalha, o Sol em verdade brilhava ininterruptamente h\u00e1 bilh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>Apenas uma fugaz conjun\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica entre a posi\u00e7\u00e3o do verdadeiro astro-rei, a Terra e seu sat\u00e9lite \u00e9 que gerava uma pequena mancha escura movimentando-se rapidamente sobre o planeta. Aqueles no meio da sombra pensariam que o Sol foi engolido por um disco negro, mas no mesmo instante pessoas fora do cone de sombra n\u00e3o notariam nada de mais. Qualquer observador mais distante do planeta talvez nem percebesse o min\u00fasculo ponto de sombra na pequena esfera azul.<\/p>\n<p>Eclipses s\u00e3o fen\u00f4menos astron\u00f4micos, mas sua aprecia\u00e7\u00e3o \u00e9 inteiramente antropoc\u00eantrica. Humanos sobre o planeta se fascinam com os r\u00e1pidos momentos de escurid\u00e3o e por mil\u00eanios pensaram que toda a ordem do Universo havia sido violada. Pensavam, como muitos ainda pensam, que todo o Universo e todos os fen\u00f4menos verdadeiramente fabulosos em todo o Cosmos giravam em torno de si mesmos.<\/p>\n<p>Estavam somente um pouco obscurecidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cone de sombra lan\u00e7ado pela Lua encobrindo o Sol se desfaz, de forma particularmente destacada, enquanto um eclipse total chega ao seu fim. Uma imagem de tirar o f\u00f4lego, at\u00e9 porque \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o digital de nethskie. 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