{"id":1884,"date":"2010-10-15T03:34:59","date_gmt":"2010-10-15T06:34:59","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/10\/sindoque_o_oceano_dentro_de_ns\/"},"modified":"2010-10-15T03:34:59","modified_gmt":"2010-10-15T06:34:59","slug":"sindoque_o_oceano_dentro_de_ns","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2010\/10\/15\/sindoque_o_oceano_dentro_de_ns\/","title":{"rendered":"Sin\u00e9doque: o oceano dentro de n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>O solu\u00e7o pode ser um mist\u00e9rio e uma pista. Mist\u00e9rio, porque n\u00e3o se sabe realmente para que o solu\u00e7o serve, se \u00e9 que \u00e9 de alguma utilidade. E pode ser uma pista, porque em \u201c<a href=\"http:\/\/www.haydnallbutt.com.au\/files\/phylogenetic_hiccups.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Uma hip\u00f3tese filogen\u00e9tica para a origem do solu\u00e7o<\/em><\/a>\u201d (ingl\u00eas, PDF), <strong>Straus<\/strong> <em>et al<\/em> sugerem que ele seria o remanescente do reflexo respirat\u00f3rio de nossos ancestrais anf\u00edbios.<\/p>\n<p>Pequenos girinos, por exemplo, fecham a glote e for\u00e7am m\u00fasculos respirat\u00f3rios para ventilar \u00e1gua pelas suas guelras. E uma indica\u00e7\u00e3o de que o solu\u00e7o poderia ser um reflexo ancestral \u2013 e n\u00e3o um mero curto circuito no sistema respirat\u00f3rio \u2013 \u00e9 que mesmo antes de inspirar ar pela primeira vez, enquanto ainda fetos, j\u00e1 exibimos alguns solu\u00e7os. \u00c9 curioso imaginar que a cada \u201c<em>hic<\/em>\u201d estar\u00edamos tentando ventilar guelras que j\u00e1 n\u00e3o temos h\u00e1 muito.<\/p>\n<p>A ideia de preservarmos certos atavismos de nossa hist\u00f3ria aqui se relaciona com um conceito cl\u00e1ssico e mesmo anterior \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o de Darwin, o de que \u201c<em><a href=\"http:\/\/www.oocities.com\/~esabio\/ontogenia.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a ontogenia recapitula a filogenia<\/a><\/em>\u201d. Enquanto nos desenvolvemos, cada um de n\u00f3s desde um punhado de c\u00e9lulas at\u00e9 a forma de pequenas criaturas com cara de joelho recapitularia no ventre materno todas as principais formas de nossos ancestrais por centenas de milh\u00f5es de anos, um conceito ador\u00e1vel que j\u00e1 penetrou mesmo em filmes de Hollywood onde desafortunados protagonistas \u201cdevoluem\u201d a formas primitivas.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;float: none;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;margin-left: auto;border-left-width: 0px;margin-right: auto\" border=\"0\" alt=\"comp_embryo.gif\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/comp_embryo.gif.jpg\" width=\"275\" height=\"259\" \/> <\/p>\n<p>Ador\u00e1vel como seja, a ci\u00eancia moderna revela que a ontogenia n\u00e3o recapitula a filogenia t\u00e3o perfeitamente \u2013 n\u00e3o nos tornamos realmente peixes ou r\u00e9pteis em nossas primeiras semanas de vida \u2013 mas em termos gerais sim carregamos em nosso desenvolvimento tra\u00e7os de nossa hist\u00f3ria evolutiva. O mais evidente deles talvez sejam as caudas, que manifestamos como fetos e se retraem para formar o c\u00f3ccix. Ou possivelmente os solu\u00e7os, que segundo Straus seriam lembran\u00e7as motoras primitivas da respira\u00e7\u00e3o por guelras.<\/p>\n<p>Nossos ancestrais vieram do oceano, das \u00e1guas primordiais onde a vida teria surgido at\u00e9 os primeiros anf\u00edbios que conquistaram a terra firme. Como a ontogenia recapitulando a filogenia, isto \u00e9, ilustrando a continuidade da evolu\u00e7\u00e3o, de certo modo ao conquistar a terra nossos ancestrais n\u00e3o abandonaram realmente o mar: eles o trouxeram consigo. Mesmo em nosso corpo, resultado de milh\u00f5es de gera\u00e7\u00f5es de animais vivendo em terra firme, ainda podemos encontrar algo deste oceano, com a concentra\u00e7\u00e3o de sais e minerais dentro da mesma ordem de grandeza. Todos trouxemos o oceano conosco.<\/p>\n<p>O humor aquoso transparente que preenche o interior de seu globo ocular, atrav\u00e9s do qual voc\u00ea enxerga estas mesmas imagens, \u00e9 uma amostra muito similar \u00e0 \u00e1gua que voc\u00ea encontraria no oceano de onde viemos, ou inclusive no mar que encontramos hoje. A m\u00e1 not\u00edcia aos n\u00e1ufragos \u00e9 que a semelhan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 identidade, e nosso corpo \u00e9 particularmente sens\u00edvel a pequen\u00edssimas varia\u00e7\u00f5es na concentra\u00e7\u00e3o destes sais e minerais \u2013 motivo pelo qual n\u00e3o se deve beber \u00e1gua do mar, uma vez que o corpo despende mais \u00e1gua do que a ingerida para se livrar do excesso de sais, efetivamente se desidratando.<\/p>\n<div style=\"width: 500px;height: 130px\" class=\"change_AdContainer\">\n<div style=\"width: 500px;height: 130px\" class=\"change_FlashContainer\"><\/div>\n<div style=\"border-bottom: medium none;border-left: medium none;background: none transparent scroll repeat 0% 0%;height: 130px;border-top: medium none;border-right: medium none\" class=\"change_Loading\"><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div class=\"change_AdContainer\"><\/div>\n<\/p>\n<p>Esse dilema \u00e9 finalmente o tema principal deste texto, como parte do <a href=\"http:\/\/blogactionday.change.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Blog Action Day 2010<\/strong><\/a> sobre a \u00e1gua. Quase um bilh\u00e3o de pessoas n\u00e3o possui acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel. O pequeno oceano que carregamos dentro de n\u00f3s precisa ser constantemente renovado em um delicado equil\u00edbrio, uma homeostase onde a \u00e1gua que nos compunha ontem \u00e9 diferente da que nos comp\u00f5e hoje. Somos, ainda pensando em met\u00e1foras, um fr\u00e1gil rio afluente de um oceano ancestral em constante renova\u00e7\u00e3o, vulner\u00e1vel a qualquer problema em suas fontes.<\/p>\n<p>Foi apenas no s\u00e9culo 19 que o m\u00e9dico ingl\u00eas <strong>John Snow<\/strong> fundaria a ci\u00eancia da epidemiologia ao descobrir como <a href=\"http:\/\/contanatura.weblog.com.pt\/arquivo\/2005\/10\/o_nascimento_da.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">uma fonte de \u00e1gua contaminada na Broad Street<\/a> seria a origem de um surto de c\u00f3lera, capaz de interromper abruptamente o curso de muitos destes \u201crios afluentes\u201d. \u00c1gua contaminada ainda mata hoje quase 38.000 crian\u00e7as toda semana.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;float: none;margin-left: auto;border-top: 0px;margin-right: auto;border-right: 0px\" border=\"0\" alt=\"BroadStreetPump\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/BroadStreetPump.jpg\" width=\"398\" height=\"318\" \/> <\/p>\n<p>A beleza do conhecimento cient\u00edfico associando a vida e sua origem \u00e0 \u00e1gua j\u00e1 havia sido vislumbrada por cosmogonias antigas, como as primeiras concep\u00e7\u00f5es da origem do mundo por sum\u00e9rios que viam nos oceanos a fonte de tudo. Estavam certos na percep\u00e7\u00e3o intuitiva de que vida e \u00e1gua s\u00e3o indissoci\u00e1veis.<\/p>\n<p>A urg\u00eancia do reconhecimento da import\u00e2ncia de acesso a fontes adequadas de \u00e1gua limpa \u00e9 bem mais recente, e \u00e9 um problema s\u00f3cio-econ\u00f4mico. Em apenas duas d\u00e9cadas conseguimos distribuir quas<br \/>\ne 5 bilh\u00f5es de telefones celulares em todo o planeta, mas em mais de um s\u00e9culo n\u00e3o fomos capazes de garantir acesso segura a \u00e1gua a todo ser humano com que partilhamos o legado deste oceano ancestral.<\/p>\n<p>No Brasil, segundo a ONG \u201c<em><a href=\"http:\/\/www.tratabrasil.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Trata Brasil<\/strong><\/a><\/em>\u201d, mais de 100 milh\u00f5es de brasileiros n\u00e3o disp\u00f5em de rede de coleta de esgoto sanit\u00e1rio e 13 milh\u00f5es n\u00e3o t\u00eam sequer banheiro em casa. Todos os dias, sete crian\u00e7as brasileiras morrem em consequencia da falta de saneamento. Para zerar o d\u00e9ficit de saneamento b\u00e1sico e oferecer acesso universal \u00e0 coleta e ao tratamento de esgoto, o Brasil precisa de investimentos anuais de R$ 10 bilh\u00f5es nos pr\u00f3ximos 20 anos.<\/p>\n<p>\u00c9 bastante dinheiro, mas os preju\u00edzos causados pela falta de investimento em saneamento s\u00e3o ainda maiores. Cada R$ 1,00 investido em saneamento representa uma economia de R$ 4,00 em gastos com sa\u00fade. E, apesar da sa\u00fade ser a principal preocupa\u00e7\u00e3o dos brasileiros, <a href=\"http:\/\/tratabr.wordpress.com\/2010\/09\/01\/brasileiros-ainda-nao-relacionam-saneamento-a-saude\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o saneamento b\u00e1sico \u00e9 apenas a oitava maior preocupa\u00e7\u00e3o<\/a>. Como tal, foi deixado de lado nas elei\u00e7\u00f5es. <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2008\/10\/tenho-clera-mas-t-na-moda-saneamento-e-prioridades.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Falta a consci\u00eancia<\/a> do que John Snow descobriu h\u00e1 mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Ao solu\u00e7ar, lembre-se da curiosidade que o espasmo pode ser lembran\u00e7a de que j\u00e1 tivemos guelras, que viemos do oceano. Beba um copo d\u2019\u00e1gua, limpa, pode melhorar o solu\u00e7o. N\u00e3o seria fabuloso se todos, no Brasil e no mundo, pudessem fazer o mesmo?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O solu\u00e7o pode ser um mist\u00e9rio e uma pista. Mist\u00e9rio, porque n\u00e3o se sabe realmente para que o solu\u00e7o serve, se \u00e9 que \u00e9 de alguma utilidade. E pode ser uma pista, porque em \u201cUma hip\u00f3tese filogen\u00e9tica para a origem do solu\u00e7o\u201d (ingl\u00eas, PDF), Straus et al sugerem que ele seria o remanescente do reflexo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":467,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[6,23],"tags":[],"class_list":["post-1884","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blogagem-coletiva","category-ideias"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/467"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1884"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1884\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}