{"id":1896,"date":"2011-01-02T10:10:29","date_gmt":"2011-01-02T13:10:29","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2011\/01\/ordem_e_progresso_no-linear\/"},"modified":"2011-01-02T10:10:29","modified_gmt":"2011-01-02T13:10:29","slug":"ordem_e_progresso_no-linear","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2011\/01\/02\/ordem_e_progresso_no-linear\/","title":{"rendered":"Ordem e Progresso N\u00e3o-Linear"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"sr71\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/sr71.jpg\" width=\"500\" height=\"265\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 objetivamente o avi\u00e3o mais espetacular do mundo. N\u00e3o s\u00f3 possui linhas agressivas que parecem t\u00e3o modernas quanto o mais estiloso dos b\u00f3lidos de F\u00f3rmula-1, como \u00e9 detentor do recorde oficial de velocidade a mais de 3.500km\/h riscados no dia 28 de julho de 1976.<\/p>\n<p>Voc\u00ea leu bem, o SR-71 bateu os 3.500km\/h no distante ano de 1976, quando a <em>Apple<\/em> foi fundada por dois jovens barbados e os <em>Ramones<\/em> lan\u00e7aram seu primeiro \u00e1lbum. \u201c<em>O avi\u00e3o mais avan\u00e7ado e mais r\u00e1pido do mundo<\/em> <em>voou pela primeira vez 47 anos atr\u00e1s. O recorde de velocidade tem 35 anos<\/em>\u201d, destacou <strong>Carlos Cardoso<\/strong> em um excelente texto no <em>MeioBit<\/em> sobre o avi\u00e3o supers\u00f4nico: \u201c<a href=\"http:\/\/meiobit.com\/78568\/ainda-que-eu-voe-pelo-vale-da-morte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Ainda Que eu voe pelo Vale Da morte\u2026<\/strong><\/a>\u201d. Parece um paradoxo tecnol\u00f3gico. Onde est\u00e1 o sucessor do SR-71? E se for assim, onde est\u00e3o nossos jetpacks? As quest\u00f5es est\u00e3o entrela\u00e7adas e antes de respond\u00ea-las \u00e9 bom rever rapidamente o que consideramos progresso.<\/p>\n<p>Vivemos cercados por tecnologia progredindo a um ritmo alucinante: computadores, celulares, MP3s, MP4s, MP<em>n<\/em>s. Este ritmo alucinante tem um nome, \u00e9 a exponencial Lei de Moore verificada h\u00e1 mais de cinco d\u00e9cadas, e como tal, nos acostumamos com ela. Toda a ind\u00fastria de informa\u00e7\u00e3o se estruturou em torno deste progresso previsto e concretizado, e com ela, muitos outros setores da sociedade, das finan\u00e7as ao entretenimento. Assim \u00e9 f\u00e1cil esquecer que ela se aplica rigorosamente apenas \u00e0 tecnologia de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c<em>Se a ind\u00fastria automotiva tivesse avan\u00e7ado sua tecnologia como a ind\u00fastria de computadores, estar\u00edamos dirigindo carros custando R$50 que andariam mais de 1.000km\/l<\/em>\u201d, dizia o e-mail que voc\u00ea deve ter recebido pela primeira vez em um computador jur\u00e1ssico. E isto porque autom\u00f3veis sim progrediram imensamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas em v\u00e1rios aspectos. \u201c<em>Em 1964 est\u00e1vamos dirigindo verdadeiras carro\u00e7as, hoje carros t\u00eam mais eletr\u00f4nica embarcada que avi\u00f5es de ca\u00e7a. \u00c9 ABS, controle de tra\u00e7\u00e3o, sensores de pista, software que detecta quando voc\u00ea VAI perder o controle e reage evitando\u2026 at\u00e9 uma Palio com acelerador DBW detecta que o motor vai morrer e for\u00e7a a acelera\u00e7\u00e3o sem que voc\u00ea pise mais fundo (aconteceu comigo, me senti no KITT)<\/em>\u201d, escreveu Cardoso. Note contudo que s\u00e3o todos avan\u00e7os relacionados diretamente com circuitos integrados.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a que n\u00e3o deva diretamente algo a <strong>Gordon Moore<\/strong>, \u00e9 que seu carro hoje, mesmo um Palio, pode ser <em>Flex<\/em>. \u00c9 sua fonte de energia.<\/p>\n<p>Na era dourada da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sonhava-se com um futuro repleto de carros voadores, jetpacks, conquista espacial e tanto mais. Bem, j\u00e1 foram criados muitos <a href=\"http:\/\/www.moller.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">carros voadores<\/a>, <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Bell_Rocket_Belt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">jetpacks<\/a> e n\u00f3s sim conquistamos a Lua. Podem ter sido saltos gigantescos para a humanidade, mas aqui est\u00e1 a quest\u00e3o, foram saltos movidos a energia qu\u00edmica. Gasolina, querosene, mesmo per\u00f3xido de hidrog\u00eanio ou hidrog\u00eanio l\u00edquido s\u00e3o todos combust\u00edveis qu\u00edmicos. Foram assim n\u00e3o por coincid\u00eancia todos breves saltos, porque a energia qu\u00edmica de liga\u00e7\u00e3o entre \u00e1tomos \u00e9 muito menor que aquela que une seus n\u00facleos. \u00c9 ordens de grandeza menor que a energia nuclear.<\/p>\n<p>Se apenas tiv\u00e9ssemos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o reatores nucleares compactos, ent\u00e3o carros voadores, jetpacks e a conquista espacial avan\u00e7ariam no ritmo sonhado pelas vis\u00f5es tecnol\u00f3gicas ut\u00f3picas do tempo dos Jetsons. Mas voc\u00ea se sentiria confort\u00e1vel com um reator nuclear nas costas? Por tr\u00e1s deste sonhos estava o pr\u00e9-requisito de uma revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica que a tecnologia a princ\u00edpio permite, mas a riscos e custos ambientais que logo provaram ser inaceit\u00e1veis.<\/p>\n<p>E n\u00e3o s\u00f3 o uso da energia nuclear encontrou limita\u00e7\u00f5es, como o futuro dourado de progresso linear e cont\u00ednuo sofreu um enorme golpe quando mesmo a fonte de energia qu\u00edmica abundante de que disp\u00fanhamos encontrou seus limites naturais e ambientais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"energy_cons_graph1\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/energy_cons_graph1.gif\" width=\"500\" height=\"238\" \/><\/p>\n<p>No gr\u00e1fico acima [<a href=\"http:\/\/www.manicore.com\/anglais\/documentation_a\/articles_a\/palace_may2001.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">fonte<\/a>], \u00e9 f\u00e1cil entender como os <em>Jetsons<\/em> no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960 podiam sonhar com carros voadores. O consumo de energia aumentava a um ritmo quase t\u00e3o alucinante quanto uma Lei de Moore \u2013 especialmente nos EUA. O progresso energ\u00e9tico estava em curso. O in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960 tamb\u00e9m foi o per\u00edodo de financiamento e desenvolvimento do que se tornaria o SR-71 e em que <strong>John Kennedy<\/strong> prometeu pisar na Lua at\u00e9 o fim da d\u00e9cada. O progresso parecia seguro. Parecia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"palais_graph2\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/palais_graph2.gif\" width=\"500\" height=\"363\" \/><\/p>\n<p>Este segundo gr\u00e1fico \u00e9 menos animador. \u00c9 o consumo comercial de energia <em>por habitante<\/em> de 1860 a 1995. Note que a partir da d\u00e9cada de 1950 o ritmo de crescimento <em>per capita<\/em> \u00e9 ainda mais fenomenal, contudo em meados da d\u00e9cada de 1970 o progresso sofre uma queda e ent\u00e3o estagna\u00e7\u00e3o. Foram as crises do petr\u00f3leo, quando a produ\u00e7\u00e3o nos EUA atingiu seu \u00e1pice. Passou-se a depender cada vez mais de fontes no Oriente M\u00e9dio e outros pa\u00edses que quase imediatamente capitalizaram sua nova import\u00e2ncia criando cart\u00e9is. Logo depois a instabilidade pol\u00edtica de tais fontes s\u00f3 se acentuaria, e entre muitas outras consequ\u00eancias as crises levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o no Brasil do PROALCOOL que hoje leva ao seu carro Flex.<\/p>\n<p>O consumo de energia global continua crescendo vertiginosamente, mas a popula\u00e7\u00e3o aumenta a um passo ainda maior. At\u00e9 o fim deste ano seremos sete bilh\u00f5es de pessoas, dependendo primariamente de combust\u00edveis f\u00f3sseis, enfrentando o dilema dos muitos riscos da energia nuclear e a incerteza de fontes alternativas, sem a revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica de que os <em>Jetsons<\/em> dependem, limitados n\u00e3o pela quantidade de energia que <em>conseguimos<\/em> usar, mas pela que <em>podemos<\/em> usar. O que, no dia-a-dia, \u00e9 o que podemos pagar. Os desafios s\u00e3o ainda maiores enquanto a produ\u00e7\u00e3o mundial de petr\u00f3leo, Oriente M\u00e9dio inclu\u00eddo, pode j\u00e1 ter atingido seu \u00e1pice.<\/p>\n<p>Relembre agora o ano do recorde do SR-71. <strong>1976<\/strong>. Note que o \u00faltimo ser humano pisou na Lua em <strong>1972<\/strong>, com o encerramento antecipado do programa Apollo. Entre as muitas perspectivas que podem ser oferecidas para n\u00e3o termos voltado \u00e0 Lua ou n\u00e3o termos quebrado o recorde do SR-71, uma das mais fundamentais \u00e9 a de encar\u00e1-los como o canto do cisne de uma era em que energia n\u00e3o era um problema.<\/p>\n<p>Em 1964, pod\u00edamos dirigir carro\u00e7as, mas essas carro\u00e7as sob certo ponto de vista eram m\u00e1quinas mais poderosas que as que dirigimos hoje, simplesmente porque consumiam mais energia. Eram muito menos eficientes, mais pesadas, mais barulhentas, mais poluentes. O SR-71 tamb\u00e9m era menos eficiente que os sat\u00e9lites e avi\u00f5es espi\u00f5es n\u00e3o-t<br \/>\nripulados que o substitu\u00edram. N\u00e3o havia mais raz\u00e3o econ\u00f4mica para manter a frota de SR-71s, como n\u00e3o havia para criar uma pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o: ainda que exista um sucessor secreto em atividade hoje, que voe ainda mais r\u00e1pido e seja mais vers\u00e1til que sat\u00e9lites de reconhecimento, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que seja tripulado. Em 2004 a NASA testou <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/NASA_X-43\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o pequeno X-43<\/a>, n\u00e3o-tripulado, que atingiu o recorde de velocidade 12.144km\/h, quase o triplo do SR-71. Em uma certa ironia, o X-43 foi lan\u00e7ado de um B-52, aeronave que deve prestar servi\u00e7o por mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia tem h\u00e1 mais de trezentos anos progredido vertiginosamente em in\u00fameras \u00e1reas do conhecimento, fundamentando avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos estupendos em ciclos de progresso que parecem eternos enquanto duram. Poucos deles t\u00eam sido progressos inexor\u00e1veis, e nenhum deles poder\u00e1 se manter indefinidamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o temos jetpacks para ir ao trabalho, por outro lado hoje podemos trabalhar sem sair de casa. E sem o risco de um acidente radioativo caso deixemos cair caf\u00e9 na mochila.<\/p>\n<p>&#8211; &#8211; &#8211;<\/p>\n<p><strong>Leitura recomendada:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2007\/08\/colonizando-o-universo-com-bombas-nucleares.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Colonizando o Universo com bombas nucleares<\/strong><\/a><\/li>\n<li><strong><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua.php\"><strong>A Humanidade n\u00e3o merece ir \u00e0 Lua<\/strong> (I)<\/a><\/strong>, (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_1.php\">II<\/a>), (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_2.php\">III<\/a>), (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_3.php\">IV<\/a>), (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/02\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_4.php\">V<\/a>), (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/08\/a_humanidade_no_merece_ir_lua_5.php\">VI<\/a>)<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/06\/o_apocalipse_inevitvel_parte_i.php\"><strong>O Apocalipse Inevit\u00e1vel<\/strong> (parte I)<\/a>, (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/06\/o_apocalipse_inevitvel_parte_i_1.php\">II<\/a>), (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/07\/o_apocalipse_inevitvel_parte_i_2.php\">III<\/a>), (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/07\/o_apocalipse_inevitvel_parte_i_3.php\">IV<\/a>), (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/07\/o_apocalipse_inevitvel_parte_v.php\">V<\/a>), (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/07\/o_apocalipse_inevitvel_parte_v_1.php\">VI<\/a>), (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/07\/o_apocalipse_inevitvel_parte_v_2.php\">VII<\/a>), (<a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/07\/o_apocalipse_inevitvel_fim.php\">fim<\/a>)<\/li>\n<li><a href=\"https:\/\/www.cia.gov\/library\/center-for-the-study-of-intelligence\/csi-publications\/books-and-monographs\/a-12\/index.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Archangel: CIA&#8217;s Supersonic A-12 Reconnaissance Aircraft<\/strong><\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/forgetomori.com\/2007\/science\/aliens-and-peak-oil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Aliens and Peak Oil<\/strong><\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p><font size=\"1\">[Imagem no topo: <\/font><a href=\"http:\/\/www.drublair.com\/lasthot.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><font size=\"1\">Drublair.com<\/font><\/a><font size=\"1\">]<\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 objetivamente o avi\u00e3o mais espetacular do mundo. 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