{"id":1902,"date":"2011-01-30T22:05:39","date_gmt":"2011-01-31T01:05:39","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2011\/01\/voc_sabe_que_eu_sei_que_voc_sa\/"},"modified":"2011-01-30T22:05:39","modified_gmt":"2011-01-31T01:05:39","slug":"voc_sabe_que_eu_sei_que_voc_sa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2011\/01\/30\/voc_sabe_que_eu_sei_que_voc_sa\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea sabe que eu sei que voc\u00ea sabe?"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top: 0px;border-right: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"cuban-missile-crisis-kennedy-kruschev\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/cuban-missile-crisis-kennedy-kruschev.jpg\" width=\"500\" height=\"336\" \/><\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cEsses terr\u00e1queos s\u00e3o est\u00fapidos. Isso os torna imprevis\u00edveis\u201d. \u2013 V: A invas\u00e3o (1983)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u201cSuponha que um pai diga a suas crian\u00e7as \u2013 um menino e uma menina \u2013 que n\u00e3o devem se sujar. Elas brincam na rua, e acabam as duas sujando suas testas. As crian\u00e7as n\u00e3o podem ver a lama em suas pr\u00f3prias testas, j\u00e1 que est\u00e1 acima de seus olhos. Mas cada uma delas pode ver a lama na testa da outra. Como elas querem ver uma \u00e0 outra levando castigo, nenhuma diz nada. Por acaso, estas crian\u00e7as tamb\u00e9m s\u00e3o muito inteligentes, de fato, nunca cometem erros em l\u00f3gica ou falham em deduzir algo que pode ser deduzido logicamente. Voc\u00ea pode cham\u00e1-las de prod\u00edgios de l\u00f3gica. Al\u00e9m disso, elas nunca mentem. Por fim, o pai chega e diz: \u2018Pelo menos um de voc\u00eas tem lama na testa\u2019. Ele pergunta \u00e0 garota: \u2018H\u00e1 lama na sua testa?\u2019. Ela responde: \u2018N\u00e3o sei\u2019. O pai ent\u00e3o pergunta ao garoto \u2018E voc\u00ea, h\u00e1 lama na sua testa?\u2019. Ele responde a contragosto: \u2018Sim\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Entender este conto de f\u00e1bulas l\u00f3gico \u00e9 simples. O garoto deduziu que tinha lama em sua testa porque caso n\u00e3o tivesse, sua irm\u00e3 teria visto tal. E como pelo menos um deles estava sujo, ela saberia que seria ela a estar com a testa suja, respondendo ao pai de acordo. Uma vez que ela n\u00e3o sabia se tinha ou n\u00e3o lama na testa, isso s\u00f3 poderia indicar que ela havia visto lama na testa dele. Talvez ela tamb\u00e9m estivesse suja \u2013 como estava \u2013 mas ao dizer que n\u00e3o sabia se era ou n\u00e3o pelo menos um dos irm\u00e3os que estavam sujos, ela permitiu que o irm\u00e3o deduzisse que ele sim estava sujo. Elementar.<\/p>\n<p>O que \u00e9 fascinante aqui \u00e9 algo que voc\u00ea pode nem ter estranhado a princ\u00edpio.<\/p>\n<p>Antes que o pai dissesse aos dois que pelo menos um deles tinha lama na testa, cada uma das crian\u00e7as j\u00e1 sabia disso. Elas haviam visto a lama um na testa do outro. Quando o pai perguntou \u00e0 garota se ela tinha ou n\u00e3o lama na testa, ela respondeu que n\u00e3o sabia. N\u00e3o sabia, n\u00e3o podia responder.<\/p>\n<p>Como ent\u00e3o estas duas informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o adicionaram nada ao que os prod\u00edgios j\u00e1 sabiam permitiram que o garoto deduzisse algo que previamente n\u00e3o podia deduzir?<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cAo dizer a eles que \u2018um de voc\u00eas tem lama na testa\u2019 o pai n\u00e3o apresentou nenhuma informa\u00e7\u00e3o nova, no entanto ele ainda assim alterou o estado do conhecimento: ele fez com que <em>o garoto soubesse que a garota sabia<\/em> que um deles estava sujo. (\u2026) Se ao inv\u00e9s de informar aos dois filhos em voz alta o pai tivesse chamado cada um deles em privado e dito que pelo menos um deles estava sujo, nenhuma dedu\u00e7\u00e3o poderia ser feita. O menino n\u00e3o saberia o que o pai havia cochichado \u00e0 irm\u00e3, assim ele n\u00e3o poderia saber que a garota sabia que pelo menos um deles estava sujo\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Como <strong>Sam Alexander<\/strong>, autor de <a href=\"http:\/\/www.xamuel.com\/muddy-children-puzzle\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">quase todo o texto que voc\u00ea leu at\u00e9 aqui<\/a> nota, esta f\u00e1bula \u201cilustra a sutileza de raciocinar sobre o conhecimento. Dedu\u00e7\u00f5es n\u00e3o-triviais podem exigir n\u00e3o apenas conhecimento de fatos, mas conhecimento sobre o pr\u00f3prio conhecimento\u201d. O aparente paradoxo traz \u00e0 lembran\u00e7a outros casos mais conhecidos, como o problema de Monty Hall.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top: 0px;border-right: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"portascorredordr\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/portascorredordr.jpg\" width=\"500\" height=\"222\" \/><\/p>\n<p>No problema de Monty Hall, ou a Porta dos Desesperados (<a href=\"http:\/\/www.sedentario.org\/colunas\/duvida-razoavel\/porta-dos-desesperados-5853\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">clique para mais<\/a>), entre as muitas formas de entender o resultado contra-intuitivo, uma das mais esclarecedoras \u00e9 perceber que ao abrir uma porta o apresentador est\u00e1 fornecendo informa\u00e7\u00e3o valios\u00edssima. Ao contr\u00e1rio do que faz parecer e do que a maioria das pessoas presume, o apresentador n\u00e3o abrir\u00e1 uma porta aleatoriamente, porque jamais abrir\u00e1 a porta com o pr\u00eamio. Isso arruinaria todo o suspense e acabaria com o jogo.<\/p>\n<p>Ao revelar uma porta, o apresentador est\u00e1 mostrando qual das portas que o apostador n\u00e3o escolheu inicialmente n\u00e3o cont\u00e9m o pr\u00eamio. Se voc\u00ea sabe que o apresentador sabe qual das portas cont\u00e9m o pr\u00eamio, e se sabe que o apresentador sabe que n\u00e3o deve abrir essa porta, suas chances de ganhar passem de meros 1\/3 para os muito mais atraentes 2\/3.<\/p>\n<p>Mais do que uma curiosidade l\u00f3gica, h\u00e1 uma certa beleza po\u00e9tica no fato de que o conhecimento compartilhado permite chegar a conclus\u00f5es que cada um dos participantes, isoladamente, n\u00e3o poderia deduzir. Esta situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 relevante na Teoria de Jogos, e pode ser aplicada. Durante a Guerra Fria, EUA e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica s\u00f3 alcan\u00e7aram maior estabilidade quando ambos os lados chegaram a um acordo t\u00e1cito onde o arsenal b\u00e9lico de um lado seria conhecido pelo outro lado, atrav\u00e9s de imagens de sat\u00e9lite.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top: 0px;border-right: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"airplane-graveyard-2\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/airplane-graveyard-2.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" \/><\/p>\n<p>Isto explica algo como <a href=\"http:\/\/maps.google.com\/maps?f=q&amp;source=s_q&amp;hl=en&amp;geocode=&amp;q=Aircraft+Boneyard&amp;sll=32.149964,-110.839176&amp;sspn=0.034082,0.116386&amp;g=Airplane+graveyard&amp;ie=UTF8&amp;hq=Aircraft+boneyard&amp;hnear=Aircraft+boneyard&amp;ll=32.156794,-110.826216&amp;spn=0.032263,0.083685&amp;t=h&amp;z=14&amp;iwloc=A\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o cemit\u00e9rio de avi\u00f5es nos EUA<\/a>. Cada um queria ver a lama na testa do outro lado, e cada lado devia saber que o outro sabia que os dois possu\u00edam lama. O \u00e1pice desta l\u00f3gica foi a Destrui\u00e7\u00e3o Mutuamente Assegurada. Cada um sabia que o outro sabia que qualquer ataque direto levaria inevitavelmente \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de ambos. Se cada um soubesse disso, a l\u00f3gica dizia, nenhum jamais atacaria e a paz estaria assegurada atrav\u00e9s das mais terr\u00edveis armas.<\/p>\n<p>Mas os terr\u00e1queos s\u00e3o est\u00fapidos, e isso os torna imprevis\u00edveis. Isso n\u00e3o impediu, obviamente, que cada lado tentasse tomar vantagem e manipular o jogo, de forma que na pr\u00e1tica n\u00e3o sabiam realmente se sabiam o que o outro sabia que sabia. Nos per\u00edodos de maior tens\u00e3o, toda a teoria de jogos e toda a fria l\u00f3gica proposicional, epistemologia e muito mais deu lugar ao simples instinto e \u00e0 mera sorte. \u00c9 assustador. O ex-Secret\u00e1rio de&#160; Defesa Robert McNamara, conhecido por introduzir no complexo militar-industrial americano t\u00e9cnicas de administra\u00e7\u00e3o mais \u201ccient\u00edficas\u201d, comentou <a href=\"http:\/\/en.wikiquote.org\/wiki\/The_Fog_of_War\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">em suas mem\u00f3rias<\/a> sobre a Crise dos M\u00edsseis de Cuba:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cEu quero dizer isso, e isso \u00e9 muito importante: no final, n\u00f3s tivemos sorte. Foi sorte que impediu a guerra nuclear. N\u00f3s chegamos a um fio da guerra nuclear no final. Indiv\u00edduos racionais: Kennedy era racional; Kruschev era racional; Castro era racional. Indiv\u00edduos racionais chegaram muito pr\u00f3ximos da destrui\u00e7\u00e3o total de suas sociedades. E esse perigo ainda existe hoje\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Anos depois, <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Stanislav_Petrov\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um desconhecido militar russo<\/a> teve na ponta dos dedos a decis\u00e3o de n\u00e3o iniciar o Apocalipse. Todos os alarmes diziam que os EUA haviam disparado uma s\u00e9rie de m\u00edsse<br \/>\nis que matariam milh\u00f5es de russos. Seria racional que apertasse o bot\u00e3o vermelho. N\u00e3o apertou. Como imaginou, o alarme era falso, o avan\u00e7ado sistema de alerta estava confundido algo t\u00e3o corriqueiro como o Sol com o disparo de m\u00edsseis nucleares.<\/p>\n<p>Agora que eu sei que voc\u00ea sabe o que eu sei sobre o que se sabe neste texto, podemos apreciar melhor que ainda n\u00e3o sabemos bem o que sabemos. Devemos prezar e partilhar o pouco que sabemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEsses terr\u00e1queos s\u00e3o est\u00fapidos. 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