{"id":1908,"date":"2011-02-20T22:48:56","date_gmt":"2011-02-21T01:48:56","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2011\/02\/boaventura_santos_e_a_cincia_p\/"},"modified":"2011-02-20T22:48:56","modified_gmt":"2011-02-21T01:48:56","slug":"boaventura_santos_e_a_cincia_p","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2011\/02\/20\/boaventura_santos_e_a_cincia_p\/","title":{"rendered":"Boaventura Santos e a Ci\u00eancia P\u00f3s-Moderna"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"Crisi-tunity\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/Crisi-tunity.png\" width=\"500\" height=\"251\" \/><\/p>\n<p>Formado por ideogramas milenares, o idioma chin\u00eas possui uma riqueza digna de tal hist\u00f3ria: os ideogramas que formam o termo \u201c<em>crise<\/em>\u201d se constituem daqueles que significam \u201c<em>perigo<\/em>\u201d e \u201c<em>oportunidade<\/em>\u201d. Algo que o soci\u00f3logo <strong>Boaventura de Souza Santos<\/strong>, em seu \u201c<em>Um discurso sobre as ci\u00eancias<\/em>\u201d (1987), poderia apreciar ao relativizar tanto do contexto cultural e sociol\u00f3gico da ci\u00eancia enquanto pretende apontar a crise do \u201c<em>paradigma dominante<\/em>\u201d da ci\u00eancia moderna.<\/p>\n<p>Depois de expor sua vis\u00e3o do que constituem os fundamentos do paradigma vigente at\u00e9 poucas d\u00e9cadas antes de 1980, Santos adentra na suposta crise cient\u00edfica:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cEinstein constitui o primeiro rombo no paradigma da ci\u00eancia moderna \u2026 Como \u00e9 que o observador estabelece a ordem temporal de acontecimentos no espa\u00e7o? \u2026 A fim de determinar a simultaneidade dos acontecimentos distantes \u00e9 necess\u00e1rio conhecer a velocidade; mas para medir a velocidade \u00e9 necess\u00e1rio conhecer a simultaneidade dos acontecimentos. Com um golpe de g\u00eanio, Einstein rompe com este c\u00edrculo, demonstrando que a simultaneidade de acontecimentos distantes n\u00e3o pode ser verificada, pode t\u00e3o s\u00f3 ser definida. \u00c9, portanto, arbitr\u00e1ria e da\u00ed que, como salienta Reichenbach, quando fazemos medi\u00e7\u00f5es n\u00e3o pode haver contradi\u00e7\u00f5es nos resultados uma vez que estes nos devolver\u00e3o a simultaneidade que n\u00f3s introduzimos por defini\u00e7\u00e3o no sistema de medi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Esta \u00e9 uma vers\u00e3o peculiar para a compreens\u00e3o da Teoria da Relatividade, como se fosse um simples \u201cgolpe de g\u00eanio\u201d fundamentado em uma mudan\u00e7a de conven\u00e7\u00f5es. Como se qualquer um antes de Einstein pudesse ter dado este salto filos\u00f3fico. Para minha surpresa, esta vers\u00e3o peculiar \u00e9 mesmo tomada quase textualmente da obra citada do f\u00edsico <strong>Hans Reichenbach<\/strong>, um celebrado divulgador cient\u00edfico, e em especial, das ideias de Einstein, de quem chegou a ouvi-las diretamente. N\u00e3o h\u00e1 erro nela, exceto no ponto em que Boaventura Santos parece entend\u00ea-la, e express\u00e1-la, de forma duvidosa.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;float: none;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;margin-left: auto;border-left-width: 0px;margin-right: auto;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"reichenbachlight\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/reichenbachlight.jpg\" width=\"366\" height=\"117\" \/><\/p>\n<p>Reichenbach ofereceu uma exposi\u00e7\u00e3o e discuss\u00e3o muito mais longa da Relatividade, onde o mal-entendido, se \u00e9 que \u00e9 mal exposto, \u00e9 desfeito, mas Santos parece contente com o engano subentendido. E ele pode ser resumido no fato de que Einstein tornou-se c\u00e9lebre pela Teoria da <strong>Relatividade<\/strong>, e n\u00e3o pela Teoria da <strong>Arbitrariedade<\/strong>. Ainda que Reichenbach, assim como Einstein (ou o contr\u00e1rio seria mais correto), tenham sim ressaltado o car\u00e1ter arbitr\u00e1rio com que se pode definir a simultaneidade de dois eventos, nenhum deles deixou de expor claramente que esta arbitrariedade est\u00e1 vinculada aos quadros de refer\u00eancia adotados, na forma como se realiza a medi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u201cgolpe de g\u00eanio\u201d de Einstein n\u00e3o foi meramente filos\u00f3fico. N\u00e3o foi puramente arbitr\u00e1rio. Fundamentou-se em descobertas emp\u00edricas, ou melhor dizendo, na aus\u00eancia de uma descoberta emp\u00edrica em particular \u2013 a do <em><a href=\"http:\/\/www.projetoockham.org\/historia_eter_4.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00e9ter lumin\u00edfero<\/a><\/em> \u2013 e sua r\u00e1pida aceita\u00e7\u00e3o deveu-se \u00e0 beleza com que explicava resultados emp\u00edricos, como o experimento de <strong>Michelson<\/strong> e <strong>Morley<\/strong>, um dos mais bem-sucedidos experimentos que n\u00e3o deram certo. N\u00e3o apenas a Relatividade s\u00f3 faz sentido e s\u00f3 foi aceita amparada em um conjunto de resultados experimentais, como seu desenvolvimento mais completo, com a Teoria da Relatividade Geral, s\u00f3 seria alcan\u00e7ado incorporando um embasamento matem\u00e1tico que por vezes escapava ao pr\u00f3prio Einstein. Empirismo e matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Continua Santos:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cO car\u00e1ter local das medi\u00e7\u00f5es e, portanto, do rigor do conhecimento que com base nelas se obt\u00e9m, vai inspirar o surgimento da segunda condi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da crise do paradigma dominante, a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios erros aqui. Santos tenta associar a Teoria da Relatividade \u2013 que entende como limitando o rigor do conhecimento a medi\u00e7\u00f5es locais \u2013 com o Princ\u00edpio da Incerteza, mas embora hoje os dois conceitos fa\u00e7am a alegria de fil\u00f3sofos p\u00f3s-modernos, em seu desenvolvimento \u00e9 c\u00e9lebre como uma <em>n\u00e3o<\/em> inspirou a outra. Pelo contr\u00e1rio, Einstein jamais aceitou a incerteza, e sua Teoria da Relatividade, ao contr\u00e1rio do entendimento de Santos, ainda lidaria com a possibilidade te\u00f3rica do determinismo.<\/p>\n<p>Ironicamente, um ponto que ambas ideias de fato revolucion\u00e1rias teriam em comum \u00e9 justamente um que, novamente, vai de encontro \u00e0 vis\u00e3o p\u00f3s-moderna: tanto a Relatividade quanto o Princ\u00edpio da Incerteza questionaram o entendimento de fundamentos da f\u00edsica cl\u00e1ssica atrav\u00e9s de descobertas e demonstra\u00e7\u00f5es emp\u00edricas, reproduz\u00edveis e test\u00e1veis, modeladas com rigor matem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Longe de serem revolu\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, longe de serem constru\u00e7\u00f5es culturais, estas revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas s\u00e3o em si mesmas evid\u00eancia do car\u00e1ter objetivo e emp\u00edrico da ci\u00eancia transcendendo cren\u00e7as pessoais ou coletivas. O GPS de seu carro <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/05\/a_busca_pela_longitude_a_uma_d.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">funciona com a Relatividade<\/a>, com uma precis\u00e3o de metros fornecida por sat\u00e9lites a milhares de quil\u00f4metros por hora. Seu computador \u00e9 fundamentado na mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, efetuando bilh\u00f5es de c\u00e1lculos sem erro atrav\u00e9s de portas l\u00f3gicas com nan\u00f4metros de tamanho.<\/p>\n<p>Isso parece pouco rigor? Esses s\u00e3o mais frutos utilit\u00e1rios e se n\u00e3o absoluta, ao menos efetivamente determin\u00edsticos e explorat\u00f3rios da natureza, produzidos pela \u201ccrise\u201d da ci\u00eancia moderna apontada por Santos, e frutos que ele j\u00e1 podia ver em 1985.<\/p>\n<p>Podemos n\u00e3o viver no Universo determin\u00edstico do <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Laplace%27s_demon\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">dem\u00f4nio de <strong>Laplace<\/strong><\/a>, onde conhecer o presente com absoluta precis\u00e3o significaria conhecer o passado e prever o futuro, mas a cosmologia perscruta a evolu\u00e7\u00e3o do Universo h\u00e1 mais de 13 bilh\u00f5es de anos. Esse parece um fracasso? Talvez seja mais do que Laplace poderia ter concebido, que as leis naturais podem ser ao mesmo tempo probabil\u00edsticas e rigorosas em escalas quase infinitas, algo que at\u00e9 hoje muitos t\u00eam dificuldade em compreender.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"467px-1919_eclipse_positive\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/467px-1919_eclipse_positive.jpg\" width=\"500\" height=\"319\" \/><\/p>\n<p>Como muitos, Santos parece pensar que com Einstein, as Leis de Newton foram demolidas, ou que com o Princ\u00edpio da Incerteza <a href=\"http:\/\/dragaodagaragem.blogspot.com\/2007\/11\/o-guia-ctico-para-assistir-o-segredo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">basta desejar uma bicicleta com suficiente afinco para obt\u00ea-la<\/a>. Em verdade, aqui como em uma gal\u00e1xia em Andr\u00f4meda, ma\u00e7\u00e3s continuar\u00e3o caindo em dire\u00e7\u00e3o ao centro de um planeta esf\u00e9rico. Se existirem ma\u00e7\u00e3s em Andr\u00f4meda, \u00e9 claro. A Relatividade n\u00e3o limita a precis\u00e3o de uma medida<br \/>\nem \u201clocal\u201d e \u201cdistante\u201d, apenas vincula medidas a um quadro de refer\u00eancia, arbitr\u00e1rio, sim, mas obedecendo com rigor abismal a equa\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas descritas por Einstein. Equa\u00e7\u00f5es, por sua vez, que s\u00f3 encontram seus limites preditivos no mundo da f\u00edsica qu\u00e2ntica \u2013 uma que, apesar de possuir car\u00e1ter probabil\u00edstico, permite sim predi\u00e7\u00f5es com um rigor abismal, o mesmo que fundamenta a precis\u00e3o digital de seu computador.<\/p>\n<p>Ao discutir os rombos da suposta \u201ccrise\u201d na ci\u00eancia moderna, Boaventura Santos discorre sobre as revolu\u00e7\u00f5es como se Einstein, Bohr e Heisenberg dessem seus \u201cgolpes de g\u00eanio\u201d, como os que ele, como soci\u00f3logo, pretende fazer ao expor em 1985 o estado da ci\u00eancia atual e especular sobre seu futuro. Mais de vinte anos depois, vemos como a vis\u00e3o de Santos do que era a ci\u00eancia em 1985 era limitada, e suas previs\u00f5es sobre o futuro se mostraram m\u00edopes.<\/p>\n<p>\u00c9 revelador que ele entenda que a:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cteoria de <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Dissipative_system\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estruturas dissipativas<\/a> de Prigogine, ou a <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Synergetics_%28Haken%29\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">teoria sinerg\u00e9tica de Haken<\/a>, \u2026 a teoria da \u2018<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Implicate_order\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ordem implicada<\/a>\u2019 de David Bohm, a teoria de matriz-S de <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Geoffrey_Chew\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Geoffrey Chew<\/a> e a filosofia do \u2018bootstrap\u2019 que lhe subjaz e ainda a teoria do encontro entre a f\u00edsica contempor\u00e2nea e o misticismo oriental de <strong>Fritjof Capra<\/strong>, todas elas de voca\u00e7\u00e3o hol\u00edstica e algumas especificamente orientadas para superar as inconsist\u00eancias entre a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica e a teoria da relatividade de Einstein, todas estas teorias introduzem na mat\u00e9ria os conceitos de historicidade e de processo, de liberdade, de auto-determina\u00e7\u00e3o e at\u00e9 de consci\u00eancia que antes o homem e a mulher tinham reservado para si\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Perceba como Boaventura Santos pensa que Bohm, Chew ou mesmo Fritjof Capra conseguiriam conciliar a Qu\u00e2ntica com Relatividade meramente com uma abordagem filos\u00f3fica diferente! \u00c9 novamente a ideia do \u201cgolpe de g\u00eanio\u201d, e para quem entende que as revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas da f\u00edsica moderna (ou mesmo da matem\u00e1tica) se d\u00e3o de forma meramente cultural, sociol\u00f3gica, isso faz sentido. Para quem anuncia que \u201c<em>o discurso cient\u00edfico aproximar-se-\u00e1 cada vez mais do discurso da cr\u00edtica liter\u00e1ria<\/em>\u201d, isso pode fazer sentido.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"cern_shiva_nataraj\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/cern_shiva_nataraj.jpg\" width=\"500\" height=\"375\" \/><\/p>\n<p>O pequeno detalhe \u00e9 que esta simplesmente n\u00e3o \u00e9 a realidade, e ao discorrer sobre as ci\u00eancias, Boaventura Santos simplesmente exp\u00f5e uma vis\u00e3o fundamentalmente falha do que a ci\u00eancia foi, e \u00e9. Sem surpresa, falha ao prever como ser\u00e1. Seu \u201cgolpe de g\u00eanio\u201d n\u00e3o o tornou duas d\u00e9cadas depois fundador de um novo paradigma cient\u00edfico, apenas o tornou um dos porta-vozes do p\u00f3s-modernismo em l\u00edngua portuguesa, e um que, na opini\u00e3o deste autor, essencialmente se resume a repetir boa parte do pensamento de Fritjof Capra exposto anos antes.<\/p>\n<p>Enquanto Santos anunciava um novo paradigma cient\u00edfico assentado na \u201csensocomuniza\u00e7\u00e3o\u201d, a ci\u00eancia de verdade seguia sendo revolucionada por descobertas emp\u00edricas que foram de encontro a cren\u00e7as difundidas na academia, que se dir\u00e1 ao senso comum. Poucos anos antes, Santos poderia ter mesmo visto como a teoria de <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Continental_drift\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">deriva dos continentes<\/a> passou de ideia absurda a um dos principais fundamentos da geologia, gra\u00e7as a uma acumula\u00e7\u00e3o cada vez maior de evid\u00eancia de m\u00faltiplas fontes. Na mesma d\u00e9cada de 1980, Santos assistiria como a hip\u00f3tese de <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Alvarez_hypothesis\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Luis<\/strong> e seu filho <strong>Walter Alvarez<\/strong><\/a> para a extin\u00e7\u00e3o KT como provocada pelo impacto de um aster\u00f3ide seria gradualmente aceita pela comunidade cient\u00edfica, outra vez de in\u00fameras linhas de evid\u00eancia diferentes.<\/p>\n<p>Santos deve ter assistido mesmo como as ideias de Fritjof Capra pouco afetaram a f\u00edsica de verdade, apenas alimentaram um mercado de vendedores de pseudoci\u00eancia que bebe das ideias da \u201cci\u00eancia p\u00f3s-moderna\u201d para explorar consumidores.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"439753311\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/439753311.jpg\" width=\"500\" height=\"325\" \/><\/p>\n<p>A estes vendedores de pseudoci\u00eancia, explorar e conciliar o senso-comum com a transfer\u00eancia de dinheiro para seus bolsos sim \u00e9 um paradigma de sucesso. Mas este \u00e9 um paradigma muito antigo, anterior mesmo a Bacon, Descartes, ou Hume. Este \u00e9 um paradigma do que n\u00e3o \u00e9 e n\u00e3o deve ser a ci\u00eancia.<\/p>\n<p>O senso-comum \u00e9 inst\u00e1vel e este sim, arbitr\u00e1rio e quase unicamente sujeito a conven\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-culturais. Pode ser algo como a anedota sobre os ideogramas chineses para \u201ccrise\u201d que iniciam este texto, pois <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Chinese_word_for_%22crisis%22\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>ela \u00e9 simplesmente falsa<\/strong><\/a>. Se voc\u00ea acreditou nela, talvez acredite na forma como Santos expressa suas ideias como fatos e pressupostos indiscut\u00edveis. Devem, no entanto, ser muito discutidos. O conflito com o senso comum quando se descobre que ele \u00e9 falso \u00e9 uma quest\u00e3o complexa, mas n\u00e3o \u00e9 promovendo um entendimento deficiente da ci\u00eancia que se ir\u00e1 resolv\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Compare-se o pensamento de Santos com o do fil\u00f3sofo franc\u00eas <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Edgar_Morin\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Edgar Morin<\/strong><\/a>:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cHoje, sabemos que tudo \u00e9 ambivalente. Sabemos que a ci\u00eancia pode produzir benef\u00edcios extraordin\u00e1rios e ao mesmo tempo for\u00e7as de destrui\u00e7\u00e3o, e de manipula\u00e7\u00e3o, que jamais existiram antes. Sabemos que a racionalidade, que \u00e9 nosso instrumento de inteligibilidade mais confi\u00e1vel, pode bloquear-se e tornar-se racionaliza\u00e7\u00e3o, ou seja, um sistema l\u00f3gico, coerente, mas que ignora as coisas concretas\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1 profunda sabedoria, e nenhum linguajar rebuscado ou pseudo-erudito nesta breve vis\u00e3o de mundo, que reconhece o valor da ci\u00eancia e da racionalidade e tamb\u00e9m seus perigos, sem incorrer em exerc\u00edcios de manipula\u00e7\u00e3o de conceitos e outras t\u00e9cnicas que tornam o p\u00f3s-modernismo um castelo t\u00e3o imponente mas t\u00e3o vazio e carente de fundamento. Ao ler Morin, \u00e9 fascinante encontrar nas ideias de um fil\u00f3sofo conceituado descri\u00e7\u00f5es acuradas sobre a forma como se confirmou a teoria do Big Bang atrav\u00e9s da descoberta da radia\u00e7\u00e3o de fundo ou sobre o funcionamento do DNA e a transmiss\u00e3o de caracter\u00edsticas heredit\u00e1rias. Ao contr\u00e1rio de Santos, Morin n\u00e3o subverte seu entendimento destas ideias cient\u00edficas a sua pr\u00f3pria filosofia. E vinte anos depois, as ideias de Morin ainda parecem muito v\u00e1lidas.<\/p>\n<p>Compare-se, por fim, o pensamento de Santos com a vis\u00e3o mais reveladora e mesmo mais curta do que as revolu\u00e7\u00f5es em diversas \u00e1reas representam no contexto do conhecimento cient\u00edfico, em um curto e belo ensaio de <strong>Isaac Asimov<\/strong> \u2013 escrito na mesma \u00e9poca que o livro de Santos. \u00c9 <a href=\"http:\/\/ateus.net\/artigos\/ceticismo\/a-relatividade-do-errado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em><strong>A Relatividade do Errado<\/strong><\/em><\/a>. Claro que n\u00e3o deve ser o in\u00edcio e o fim da reflex\u00e3o sobre o tema, mas se Asimov pode ser um come\u00e7o, Santos a este autor seguramente n\u00e3o \u00e9 nem isso. Tanto que, para uma vis\u00e3o muito mais presciente e<br \/>\nbela sobre o futuro do processo cient\u00edfico e da populariza\u00e7\u00e3o do conhecimento, assista-se a esta entrevista com o mesmo Asimov, feita tamb\u00e9m na mesma \u00e9poca em que Santos parece ignorar completamente a revolu\u00e7\u00e3o das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/p>\n<p>Asimov, longe de ser um soci\u00f3logo, era um bioqu\u00edmico por forma\u00e7\u00e3o, e um celebrado autor de\u2026 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Ao final deste s\u00e9culo, \u00e9 bem prov\u00e1vel que Asimov ainda seja lembrado pelos que pensem em ci\u00eancia. Se n\u00e3o por seres humanos, talvez por <a href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/estadaodehoje\/20110218\/not_imp681099,0.php\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">rob\u00f4s<\/a>.<\/p>\n<p>A cena, imagino, seria o horror a um p\u00f3s-modernista, mas ironia das ironias, \u00e9 prov\u00e1vel que ao final deste s\u00e9culo o p\u00f3s-modernismo tenha passado como a moda que advoga que a ci\u00eancia \u00e9. O que o substituir\u00e1, bem, s\u00f3 os designers de moda podem dizer.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que as ma\u00e7\u00e3s continuar\u00e3o caindo, se ainda existirem ma\u00e7\u00e3s.<\/p>\n<p>&#8211; &#8211; &#8211;<\/p>\n<p>[Tema sugerido pelo <a href=\"http:\/\/www.scienceblogs.com.br\/bessa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Ci\u00eancia \u00e0 Bessa<\/strong><\/a>, obrigado!]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Formado por ideogramas milenares, o idioma chin\u00eas possui uma riqueza digna de tal hist\u00f3ria: os ideogramas que formam o termo \u201ccrise\u201d se constituem daqueles que significam \u201cperigo\u201d e \u201coportunidade\u201d. Algo que o soci\u00f3logo Boaventura de Souza Santos, em seu \u201cUm discurso sobre as ci\u00eancias\u201d (1987), poderia apreciar ao relativizar tanto do contexto cultural e sociol\u00f3gico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":467,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[8,23],"tags":[],"class_list":["post-1908","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciencia","category-ideias"],"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1908","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/467"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1908"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1908\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1908"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1908"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1908"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}