{"id":1916,"date":"2011-08-07T01:51:07","date_gmt":"2011-08-07T04:51:07","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2011\/08\/a_misria_em_uma_tela_sensvel_a\/"},"modified":"2011-08-07T01:51:07","modified_gmt":"2011-08-07T04:51:07","slug":"a_misria_em_uma_tela_sensvel_a","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2011\/08\/07\/a_misria_em_uma_tela_sensvel_a\/","title":{"rendered":"A Mis\u00e9ria em uma Tela Sens\u00edvel ao Toque"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"s_f10_RTR2PAQ2\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/s_f10_RTR2PAQ2.jpg\" width=\"500\" height=\"321\" \/><\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cUm funcion\u00e1rio de ajuda humanit\u00e1ria usando um iPad para fotografar a carca\u00e7a em putrefa\u00e7\u00e3o de uma vaca em Wajir, pr\u00f3ximo da fronteira entre o Qu\u00eania e a Som\u00e1lia, em 23 de julho de 2011. Desde que a seca tomou conta do <strike>Cabo<\/strike> Chifre da \u00c1frica, e especialmente desde que a fome foi declarada em partes da Som\u00e1lia, a ind\u00fastria internacional de ajuda tem visitado campos de refugiados e vilarejos remotos em avi\u00f5es ostentando s\u00edmbolos e marcas e linhas de picapes com tra\u00e7\u00e3o nas quatro rodas. Este circo de m\u00eddia humanit\u00e1rio e diplom\u00e1tico \u00e9 necess\u00e1rio toda vez que a fome atinge as pessoas na \u00c1frica, dizem os analistas, porque os governos \u2013 tanto africanos quanto estrangeiros \u2013 raramente respondem com a urg\u00eancia necess\u00e1ria em cat\u00e1strofes iminentes. Combine isso com a explica\u00e7\u00e3o comumente simplista das causas da fome, e um n\u00famero crescente de cr\u00edticos da ajuda dizem que partes da \u00c1frica est\u00e3o condenadas e um ciclo sem fim de alertas ignorados, apelos \u00e0 m\u00eddia e alimenta\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da ONU \u2013 ao inv\u00e9s de uma transi\u00e7\u00e3o para auto-sufici\u00eancia duradoura\u201d. [Reuters\/Barry Malone\/<a href=\"http:\/\/www.theatlantic.com\/infocus\/2011\/07\/famine-in-east-africa\/100115\/#img10\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">The Atlantic<\/a>]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O toque na tela de um <em>iPad<\/em> \u00e9 detectado quando entramos em contato direto com a fina e transparente camada condutora em sua superf\u00edcie. Nosso corpo tamb\u00e9m \u00e9 um condutor de eletricidade, e em um momento nos tornamos parte integrante do sistema el\u00e9trico do dispositivo, que pode ent\u00e3o processar exatamente em que regi\u00e3o da tela este contato foi feito. Com o software apropriado, <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Capacitive_sensing\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">telas capacitivas<\/a> podem produzir uma intera\u00e7\u00e3o precisa e instant\u00e2nea quase m\u00e1gica.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 no entanto nenhuma resposta t\u00e1til ao toque. Pressionar uma tecla pode nos parecer mais emblematicamente tecnol\u00f3gico, mas cada tecla pressionada \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica que ainda mant\u00e9m o usu\u00e1rio isolado da m\u00e1quina. Um iPad exige que voc\u00ea estabele\u00e7a contato el\u00e9trico direto com o dispositivo, motivo pelo qual n\u00e3o se pode us\u00e1-lo com luvas.<\/p>\n<p>O que isso tem a ver com a fome na \u00c1frica? Acredito que seja mais um nexo a refletir sobre os contrastes capturados pela imagem de um <em>aid worker<\/em> usado um <em>iPad<\/em> para fotografar uma carca\u00e7a. <a href=\"http:\/\/www.theatlantic.com\/infocus\/2011\/07\/famine-in-east-africa\/100115\/#img10\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A s\u00e9rie completa de imagens no <em>Atlantic<\/em><\/a> \u00e9 aterradora. E gostaria de indicar alguns outros nexos que devem ser relevantes a qualquer considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos mais importantes \u00e9 que, apesar do alarmismo, catastrofismo e pessimismo que costumam apelar t\u00e3o facilmente \u00e0s nossas emo\u00e7\u00f5es, nas \u00faltimas d\u00e9cadas o n\u00famero de famintos no mundo esteve caindo constantemente, tanto em n\u00fameros absolutos quanto relativos:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.fao.org\/hunger\/hunger-graphics\/en\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;float: none;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;margin-left: auto;border-left-width: 0px;margin-right: auto;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"Number_of_hungry_2010\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/08\/Number_of_hungry_2010.jpg\" width=\"500\" height=\"476\" \/><\/a><\/p>\n<p>Enquanto boa parte do s\u00e9culo 20 foi passada em conflitos pelo sistema revolucion\u00e1rio que solucionaria todos os nossos problemas \u2013 conflitos que, supostamente pelo bem maior da humanidade, vitimaram em si mesmos centenas de milh\u00f5es \u2013 n\u00f3s realmente progredimos em um dos aspectos mais elementares, fornecendo as necessidades b\u00e1sicas de alimenta\u00e7\u00e3o a um n\u00famero incr\u00edvel e ainda crescente de pessoas.<\/p>\n<p>A sustentabilidade do crescimento, bem como da diminui\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria s\u00e3o sem d\u00favida quest\u00f5es essenciais para que este progresso continue, mas qualquer um que conteste que o aumento populacional combinado com a diminui\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria n\u00e3o s\u00e3o evid\u00eancia de progresso, e n\u00e3o esteja no ato de se suicidar de imediato, \u00e9 no m\u00ednimo um hip\u00f3crita.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos uma s\u00e9rie de fatores, incluindo justamente o aumento cont\u00ednuo na popula\u00e7\u00e3o mundial, que nos pr\u00f3ximos meses deve atingir a marca de 7 bilh\u00f5es, significa que os desafios aumentam e medidas mais en\u00e9rgicas de um n\u00edvel diferente s\u00e3o necess\u00e1rias n\u00e3o s\u00f3 para impedir que a mis\u00e9ria aumente, como para continuar rumo a sua erradica\u00e7\u00e3o. Esse discurso e principalmente esses termos (\u201cmis\u00e9ria\u201d, \u201cfome\u201d, \u201cerradica\u00e7\u00e3o\u201d) devem soar como algo bem ouvido na pol\u00edtica brasileira nos \u00faltimos anos, e esse \u00e9 em verdade um excelente sinal.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogs.worldbank.org\/growth\/brazil-fights-hunger-illiteracy\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses mais bem sucedidos no combate \u00e0 mis\u00e9ria<\/a>. Estabilidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica permitiram programas sociais de resultados reconhecidos internacionalmente.<\/p>\n<p>A mis\u00e9ria na \u00c1frica enfrenta justamente a aus\u00eancia destes fundamentos, e gostaria de destacar a terceira parte da s\u00e9rie do documentarista da BBC, <strong>Adam Curtis<\/strong>. Na <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/All_Watched_Over_by_Machines_of_Loving_Grace_(television_documentary_series)#The_Monkey_In_The_Machine_and_the_Machine_in_the_Monkey\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">parte final<\/a> de <a href=\"http:\/\/www.archive.org\/details\/AdamCurtis-AllWatchedOverByMachinesOfLovingGrace\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>All Watched Over by Machines of Loving Grace<\/em><\/a>, Curtis aborda a participa\u00e7\u00e3o desastrosa da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental no genoc\u00eddio na Ruanda.<\/p>\n<\/p>\n<p>Como a domina\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia favoreceu o mito das \u201cra\u00e7as\u201d <em>Hutus<\/em> e <em>Tutsis<\/em>, e como mesmo quando a independ\u00eancia foi concedida ao pa\u00eds, um liberalismo bem-intencionado incentivou a vingan\u00e7a da classe oprimida, em uma mistura de pretensa justi\u00e7a compensat\u00f3ria e pseudoci\u00eancia tanto gen\u00e9tica quanto hist\u00f3rica que ao final apenas alimentaria o \u00f3dio. E, finalmente, quando o genoc\u00eddio j\u00e1 estava em curso, mesmo os campos de refugiados e a ajuda humanit\u00e1ria alavancaram os conflitos, enquanto as v\u00edtimas tamb\u00e9m inclu\u00edam algozes e a ajuda humanit\u00e1ria se viu constantemente em dilemas morais de um mundo bem real.<\/p>\n<p>Tudo isso enquanto a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, o conflito foi noticiado como uma guerra tribal em meio \u00e0 mis\u00e9ria, omitindo toda a participa\u00e7\u00e3o do mundo desenvolvido, seja na opress\u00e3o direta, seja mesmo nas tentativas fracassadas de ajuda.<\/p>\n<p>Curtis encerra sua s\u00e9rie refletindo o que aconteceu com \u201c<em>o sonho ocidental de transformar o mundo para melhor<\/em>\u201d, a vis\u00e3o rom\u00e2ntica e idealista que deu lugar a ideias como a do gene ego\u00edsta, de seres humanos como simples m\u00e1quinas para propagar genes e comportamentos mais complexos como o altru\u00edsmo emergindo como resultado literal de equa\u00e7\u00f5es modelando o jogo evolutivo:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cAs consequ\u00eancias horr\u00edveis dos massacres na Ruanda se desenrolavam. Consequ\u00eancias criadas n\u00e3o apenas pelo imperialismo e gan\u00e2ncia ocidentais, mas tamb\u00e9m pelos melhores e mais nobres ideais liberais. Porque foram liberais, na administra\u00e7\u00e3o belga, que primeiro encorajaram Hutus a se rebelar contra as elites Tutsi. E foram os campos de ajuda humanit\u00e1ria, criados no in\u00edcio dos massacres, que complicaram o conflito e ajudaram a espalhar a viol\u00eancia ao Congo. (\u2026) Sabemos que foram nossas a\u00e7\u00f5es que ajudaram a causar os horrores no Congo. Mas n\u00e3o temos ideia do que fazer a respeito. Ent\u00e3o ao inv\u00e9s, abra\u00e7amos uma filosofia fatalista de que somos meras m\u00e1quinas de calcular para tanto nos expiar de culpa quanto explicar nosso fracasso pol\u00edtico em mudar o mundo\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1 que se notar, unindo estes nexos, que enquanto o massacre na Ruanda tinha lugar, a mis\u00e9ria no mundo como um todo ca\u00eda em ritmo acelerado. Contudo, sem contrariar Curtis, pode-se notar que os fundamentos que permitiram este avan\u00e7o foram estabelecidos d\u00e9cadas antes, desde sistemas pol\u00edticos e econ\u00f4micos at\u00e9 revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas na produ\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n<p>No momento em que precisamos de novas ferramentas para responder \u00e0s necessidades mais b\u00e1sicas de todos aqueles que compartilham conosco tudo aquilo que podemos sentir, mas que podem sofrer muito mais do que jamais iremos sofrer, o idealismo e a vontade de mudar o mundo se tornam cada vez mais necess\u00e1rios. E devem contar com a perspectiva hist\u00f3rica que pode ajudar a evitar os excessos do passado.<\/p>\n<p>Ser parte de uma m\u00e1quina ao tocar a tela de um iPad pode ser um pensamento inc\u00f4modo, e seria f\u00e1cil e apelativo encerrar este texto simplesmente associando a cr\u00edtica de Curtis ao fatalismo do ser humano como m\u00e1quina ao iPad e a imagem que inicia este texto. No entanto, n\u00e3o sabemos toda a hist\u00f3ria por tr\u00e1s da imagem. Ser\u00e1 este funcion\u00e1rio de fato uma pessoa que jamais tira seu terno? N\u00e3o ter\u00e1 jamais tocado um faminto, resumindo-se a tocar a tela de seu gadget? Afinal, estaria ele contribuindo mais para amenizar o sofrimento alheio que voc\u00ea que l\u00ea este texto, ou eu que escrevo estas linhas?<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos, e \u00e0 parte a curiosidade jornal\u00edstica, de fato n\u00e3o importa tanto. \u00c9 apenas uma pessoa. N\u00e3o h\u00e1 a princ\u00edpio nada errado em usar um iPad em meio \u00e0 fome na \u00c1frica. N\u00e3o h\u00e1 a princ\u00edpio nada errado em ser momentaneamente parte do circuito el\u00e9trico de uma m\u00e1quina. O certo e o errado n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples, e h\u00e1 muito de certo&#160; &#8212; e errado &#8212; que cada de um de n\u00f3s pode fazer se lembrarmos de mudar o mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cUm funcion\u00e1rio de ajuda humanit\u00e1ria usando um iPad para fotografar a carca\u00e7a em putrefa\u00e7\u00e3o de uma vaca em Wajir, pr\u00f3ximo da fronteira entre o Qu\u00eania e a Som\u00e1lia, em 23 de julho de 2011. 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