{"id":3150,"date":"2011-11-13T11:39:59","date_gmt":"2011-11-13T14:39:59","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2011\/11\/o-arranha-cu-e-o-caminho-de-coc\/"},"modified":"2011-11-13T11:39:59","modified_gmt":"2011-11-13T14:39:59","slug":"o-arranha-cu-e-o-caminho-de-coc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2011\/11\/13\/o-arranha-cu-e-o-caminho-de-coc\/","title":{"rendered":"O arranha-c\u00e9u e o caminh\u00e3o de coc\u00f4"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>Menos de uma d\u00e9cada depois que <strong>John F. Kennedy<\/strong> anunciou que ir\u00edamos \u00e0 Lua e far\u00edamos outras coisas \u201c<em>n\u00e3o porque s\u00e3o f\u00e1ceis, mas porque s\u00e3o dif\u00edceis<\/em>\u201d, <strong>Neil Armstrong<\/strong> deu seu pequeno passo e seu grande salto para a Humanidade.<\/p>\n<p>Em apenas 10 anos, imagens a\u00e9reas registram o progresso espetacular de Dubai neste v\u00eddeo criado para promover o TEDxDubai 2011. Sobre a areia do deserto onde no s\u00e9culo 19 mal viviam pouco mais de 1.200 habitantes, hoje floresce uma cidade moderna rumo a duas milh\u00f5es de pessoas em torno dos mais altos arranha-c\u00e9us do mundo.<\/p>\n<p>Moderna, sim, mas assustadoramente moderna: <strong>Kate Ascher<\/strong>, autora de um livro sobre os arranha-c\u00e9us de Dubai, contou em uma entrevista \u00e0 NPR:<\/p>\n<blockquote>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-right-width: 0px;margin: 0px 0px 0px 5px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;float: right;border-top-width: 0px;border-bottom-width: 0px;border-left-width: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"burjtrucks\" align=\"right\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/11\/burjtrucks.jpg\" width=\"250\" height=\"554\">\u201cTERRY GROSS: Ent\u00e3o voc\u00ea escreveu que em Dubai eles n\u00e3o t\u00eam uma infra-estutura de saneamento que suporte arranha-c\u00e9us como esse. Ent\u00e3o o que eles fazem com o esgoto?<\/p>\n<p>KATE ASCHER: Alguns pr\u00e9dios por l\u00e1 podem acessar o sistema municipal, mas muitos deles em verdade usam caminh\u00f5es para levar o esgoto dos pr\u00e9dios individuais e ent\u00e3o esperam em fila para jog\u00e1-lo na usina de tratamento. Ent\u00e3o \u00e9 um sistema bem primitivo.<\/p>\n<p>GROSS: Bem, esses caminh\u00f5es podem esperar horas e horas na fila.<\/p>\n<p>ASCHER: \u00c9 verdade. Disseram-me que podem esperar at\u00e9 24 horas antes que cheguem ao final. Agora, h\u00e1 um sistema municipal que est\u00e1 sendo desenvolvido e presumo que ir\u00e3o conectar todos esses pr\u00e9dios altos em algum ponto no futuro, mas eles certamente n\u00e3o est\u00e3o sozinhos. Na \u00cdndia muitos pr\u00e9dios s\u00e3o respons\u00e1veis por fornecer seu pr\u00f3prio sistema de \u00e1gua e remo\u00e7\u00e3o de esgoto. Ent\u00e3o \u00e9 realmente \u2013 somos muito afortunados neste pa\u00eds [EUA] de que podemos contar com o fato de nos conectarmos a um sistema urbano que possa lidar com qualquer esgoto que um pr\u00e9dio produza. Esse n\u00e3o \u00e9 o caso por todo o resto do mundo.<\/p>\n<p>GROSS: Bem, ele realmente ilustra um dos paradoxos da vida moderna, que temos essas estruturas que alcan\u00e7am o c\u00e9u e ent\u00e3o em um lugar como Dubai voc\u00ea tem uma fila de 24 horas de caminh\u00f5es esperando para jogar for o esgoto desses pr\u00e9dios.<\/p>\n<p>ASCHER: Isso. \u00c9 preciso lembrar que um lugar como Dubai realmente emergiu nos \u00faltimos 50 anos. Era uma sonolenta cidade bedu\u00edna h\u00e1 meio s\u00e9culo. E o que voc\u00ea faz quando traz os mais sofisticados arquitetos e engenheiros, voc\u00ea pode literalmente construir qualquer coisa, incluindo um pr\u00e9dio de 140 ou 150 andares. Mas projetar uma rede municipal de tratamento de esgoto \u00e9 de algumas formas mais complexo. Certamente requer mais dinheiro e tempo para ser feito, ent\u00e3o um pulou \u00e0 frente do outro.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o no Brasil est\u00e1 muito mais pr\u00f3xima de Dubai do que dos EUA, onde <a href=\"http:\/\/www.ibge.gov.br\/home\/presidencia\/noticias\/noticia_visualiza.php?id_noticia=1998&amp;id_pagina=1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">mais da metade do pa\u00eds n\u00e3o possui saneamento b\u00e1sico<\/a> e mesmo nas maiores metr\u00f3poles urbanas v\u00eaem-se luxuosos empreendimentos milion\u00e1rios sendo constru\u00eddos sem um tratamento adequado de seu esgoto.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o surgiu h\u00e1 50 anos, e sim h\u00e1 500 anos, e os motivos para este paradoxo s\u00e3o outro ponto em comum com Dubai: a desigualdade social e a disponibilidade de m\u00e3o-de-obra quase escrava.<\/p>\n<p>Somos j\u00e1 h\u00e1 praticamente uma d\u00e9cada l\u00edderes mundiais na reciclagem de alum\u00ednio, com taxas se aproximando de 100%. Um feito fabuloso se fosse resultado da conscientiza\u00e7\u00e3o popular sobre a redu\u00e7\u00e3o do impacto ambiental e um sofisticado sistema de sele\u00e7\u00e3o de coleta de lixo.<\/p>\n<p>Mas nosso recorde de reciclagem \u00e9 resultado da conscientiza\u00e7\u00e3o da camada mais desfavorecida da popula\u00e7\u00e3o de que revirar o lixo em busca de latas de alum\u00ednio jogadas no meio de lixo org\u00e2nico, vidro e mesmo em sarjetas \u00e9 uma das \u00fanicas formas dispon\u00edveis de subsist\u00eancia. Uma multid\u00e3o de catadores da latinhas que todos vemos ao andar pelas ruas responde pelo nosso recorde.<\/p>\n<p>O futuro moderno onde vivemos \u00e9 aquele onde temos arranha-c\u00e9us quase quilom\u00e9tricos que dependem de filas quilom\u00e9tricas de caminh\u00f5es cheios de coc\u00f4, dirigidos por motoristas de coc\u00f4 pagos para ficar quase um dia inteiro esperando sua vez de despejar o coc\u00f4 de pessoas mais ricas. Onde celebramos o recorde de reciclagem de alum\u00ednio, gra\u00e7as a uma multid\u00e3o de catadores dispostos a revirar todos os lixos da cidade para coletar as preciosas latas que jogamos fora.<\/p>\n<p>Deve estar claro que o recorde de arranha-c\u00e9u mais alto do mundo ou o de taxa de reciclagem de alum\u00ednio n\u00e3o s\u00e3o indicadores muito confi\u00e1veis de desenvolvimento, de fato podem ser exatamente o oposto. E enquanto celebramos o t\u00edmido progresso econ\u00f4mico de nosso pa\u00eds e seu posicionamento entre as maiores economias do mundo, \u00e9 bom lembrar que estes s\u00e3o apenas outros indicadores que vistos mais de perto podem revelar um caminho muito mais longo pela frente. [via <a href=\"http:\/\/boingboing.net\/2011\/11\/08\/what-happens-when-you-flush-a-toilet-in-the-worlds-tallest-building.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">BoingBoing<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Menos de uma d\u00e9cada depois que John F. Kennedy anunciou que ir\u00edamos \u00e0 Lua e far\u00edamos outras coisas \u201cn\u00e3o porque s\u00e3o f\u00e1ceis, mas porque s\u00e3o dif\u00edceis\u201d, Neil Armstrong deu seu pequeno passo e seu grande salto para a Humanidade. 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