{"id":3175,"date":"2011-12-18T00:21:01","date_gmt":"2011-12-18T03:21:01","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2011\/12\/atesmo-halsenflugel\/"},"modified":"2011-12-18T00:21:01","modified_gmt":"2011-12-18T03:21:01","slug":"atesmo-halsenflugel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2011\/12\/18\/atesmo-halsenflugel\/","title":{"rendered":"Ate\u00edsmo Halsenflugel"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"padding-left: 0px;padding-right: 0px;padding-top: 0px;border: 0px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2011\/12\/Zwartkeellijsterm.jpg\" alt=\"Zwartkeellijsterm\" width=\"500\" height=\"406\" border=\"0\" \/><\/p>\n<blockquote><p>\u201cSobre essa hist\u00f3ria de nomes e palavras, vou contar a voc\u00eas outra hist\u00f3ria. [Quando eu era crian\u00e7a] costum\u00e1vamos ir para as Catskill Mountains nas f\u00e9rias. \u2026 Est\u00e1vamos brincando nos campos e esse menino disse para mim: \u2018<em>V\u00ea aquele p\u00e1ssaro l\u00e1 no galho? Qual \u00e9 o nome dele?<\/em>\u2019. Eu disse, \u2018<em>N\u00e3o tenho a menor ideia<\/em>\u2019. Ele disse: \u2018<em>\u00c9 um tordo de papo marrom. Seu pai n\u00e3o lhe ensina muito sobre ci\u00eancia<\/em>\u2019. Eu ri comigo mesmo, porque meu pai j\u00e1 tinha me ensinado que [o nome] n\u00e3o me diz nada sobre o p\u00e1ssaro. Ele me ensinou \u2018<em>V\u00ea aquele p\u00e1ssaro? \u00c9 um tordo de papo-marrom, mas na Alemanha \u00e9 chamado um halsenflugel, e em chin\u00eas o chamam de chung ling e mesmo que voc\u00ea saiba todos esses nomes, voc\u00ea ainda n\u00e3o sabe nada sobre o p\u00e1ssaro \u2013 voc\u00ea s\u00f3 sabe algo sobre as pessoas, como elas o chamam. Agora, o tordo canta e ensina seus filhotes a voar, e voa muitos quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia durante o ver\u00e3o e ningu\u00e9m sabe como ele encontra seu caminho<\/em>\u2019. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre o nome de algo e o que acontece\u201d.<br \/>\n\u2013 <strong>Richard Feynman<\/strong>, \u201c<a href=\"http:\/\/www.fotuva.org\/feynman\/what_is_science.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O que \u00e9 ci\u00eancia?<\/a>\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Feynman abominava a filosofia e os fil\u00f3sofos, defendendo que o progresso cient\u00edfico, o conhecimento concreto sobre o mundo real que nos cerca s\u00f3 foi poss\u00edvel <em>a despeito<\/em> da filosofia. Ele efetivamente defendeu uma \u201cfilosofia de ignor\u00e2ncia\u201d, embora n\u00e3o louvasse, claro, a ignor\u00e2ncia em si mesma, e sim o reconhecimento de nossa ignor\u00e2ncia e a necessidade da d\u00favida, contraposta a uma esp\u00e9cie de escolasticismo filos\u00f3fico que pretende extrair verdades absolutas a partir da tortura de defini\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O papel obscurantista que o escolasticismo desempenhou n\u00e3o foi devido \u00e0 filosofia em si, h\u00e1 que se notar, e o ate\u00edsmo n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia. Mas o ponto de Feynman \u00e9 importante ao considerar a <a href=\"http:\/\/bulevoador.haaan.com\/2011\/12\/31058\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">cr\u00edtica carregada de <strong>Eli Vieira<\/strong><\/a> \u00e0queles que considerem o ate\u00edsmo como a \u201c<em>aus\u00eancia de cren\u00e7a em deus<\/em>\u201d. Segundo Vieira, esta seria uma \u201cgafe conceitual\u201d grave contr\u00e1ria \u00e0 filosofia, que j\u00e1 teria rejeitado essa ideia h\u00e1 muito.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica estaria fundamentada na filosofia anal\u00edtica aplicada por <strong>Gregory Gaboardi<\/strong>. Em \u201c<a href=\"http:\/\/bulevoador.haaan.com\/2011\/10\/27817\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Por que o ate\u00edsmo \u00e9 uma cren\u00e7a<\/a>\u201d, citando Dennett, Ryle, Searle e outros fil\u00f3sofos desta escola, Gaboardi defende que pensar que o ate\u00edsmo seja \u201caus\u00eancia de cren\u00e7a\u201d ou \u201cdescren\u00e7a\u201d seria um \u201cgrande erro\u201d, assumindo grandes propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3>\u201cO computador crente\u201d<\/h3>\n<p>A filosofia anal\u00edtica busca abordar quest\u00f5es decompondo-as em senten\u00e7as menores. \u201cat\u00f4micas\u201d, que possam ser consideradas de forma mais clara, comumente atrav\u00e9s da l\u00f3gica formal. \u00c9 assim que <strong>Gregory Gaboardi<\/strong> ao defender \u201c<a href=\"http:\/\/bulevoador.haaan.com\/2011\/10\/27817\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Por que o ate\u00edsmo \u00e9 uma cren\u00e7a<\/a>\u201d, j\u00e1 inicia sua s\u00e9rie decompondo argumentos que refutariam sua posi\u00e7\u00e3o e mostrando o que seriam suas fal\u00e1cias, suas contradi\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s, apresenta a <a href=\"http:\/\/philosophy.uwaterloo.ca\/MindDict\/intentionalstance.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teoria dos Sistemas Intencionais<\/a> (TSI) de <strong>Daniel Dennett<\/strong>. Ele ainda n\u00e3o concluiu sua s\u00e9rie de textos, mas n\u00e3o \u00e9 surpresa que o ate\u00edsmo seja considerado necessariamente uma cren\u00e7a, pois o \u00e9 ao final, ou desde o in\u00edcio, por defini\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A TSI lida com inten\u00e7\u00f5es, com <em>cren\u00e7as<\/em> mantidas por agentes racionais, a fim de entender e prever seu comportamento. O detalhe \u00e9 que como o faz a partir do mesmo comportamento e como o objetivo de tal estrat\u00e9gia desde o in\u00edcio \u00e9 apenas compreender e prever seu comportamento \u2013 sempre o comportamento \u2013 o pr\u00f3prio Dennett cita como exemplo de aplica\u00e7\u00e3o dos sistemas intencionais nada menos que um computador com um programa de xadrez. \u00c9 \u00fatil consider\u00e1-lo como um agente racional, com um sistema intencional com cren\u00e7as, para entender e prever seu comportamento.<\/p>\n<p>Cren\u00e7as, n\u00e3o s\u00f3 na TSI, como na filosofia, s\u00e3o um estado mental, e na TSI em particular a defini\u00e7\u00e3o \u00e9 tornada ainda mais abstrata porque n\u00e3o importa se o objeto, seja uma pessoa ou computador, <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Qualia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u201crealmente\u201d mant\u00e9m algo como \u201ccren\u00e7as\u201d<\/a> no sentido mais popular da palavra. Basta observar seu comportamento e atribuir cren\u00e7as a ele a partir de seu comportamento passado para melhor compreender e predizer seu comportamento. Ou pelo menos essa \u00e9 a filosofia defendida por Dennett.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se Gaboardi defender\u00e1 ao final que n\u00e3o importa o que um ateu diga a respeito de suas pr\u00f3prias cren\u00e7as, e sim apenas seu comportamento para consider\u00e1-lo como um agente racional com a cren\u00e7a de que deus n\u00e3o existe.<\/p>\n<h3>Filosofia \u00fcber alles<\/h3>\n<p>Seja como for, a \u201cgafe conceitual\u201d, o \u201cgrande erro\u201d, seriam apenas quest\u00f5es conceituais focadas nos nomes dos p\u00e1ssaros ao inv\u00e9s de em como voam ou criam seus filhotes.<\/p>\n<p>Ao dizer que considerar o ate\u00edsmo necessariamente uma cren\u00e7a porque filosoficamente qualquer estado mental sobre uma proposi\u00e7\u00e3o seria uma cren\u00e7a e o uso comum, que pode considerar o termo sin\u00f4nimo de f\u00e9, entre tantos outros significados, \u00e9 que seria frouxo e inadequado, pretende-se que a filosofia seja a norma lingu\u00edstica sobrepondo-se \u00e0 linguagem natural.<\/p>\n<p>Talvez surpreenda, mas esta posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica n\u00e3o \u00e9 consenso nem mesmo na filosofia. Mesmo entre os que a defendem boa parte acaba reconhecendo <a href=\"http:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/wittgenstein\/#Lat\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a dificuldade de transpor a linguagem comum para o campo filos\u00f3fico<\/a> e mesmo na filosofia anal\u00edtica em sua busca por formalismo e clareza, na figura <a href=\"http:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/ryle\/#OrdLan\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">do pr\u00f3prio <strong>Gilbert Ryle<\/strong><\/a>, mentor de Dennett, reconhecem-se as dificuldades e limita\u00e7\u00f5es dessa tarefa. H\u00e1 mesmo uma escola filos\u00f3fica, <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ordinary_language_philosophy\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a filosofia da linguagem comum<\/a>, defendendo como alguns problemas filos\u00f3ficos seriam problemas conceituais da filosofia ao distorcer ou esquecer o que eles significam na linguagem comum!<\/p>\n<p>Ao definir cren\u00e7a como um estado mental sobre uma proposi\u00e7\u00e3o, pode-se derivar da\u00ed que o ate\u00edsmo seja uma cren\u00e7a sobre a exist\u00eancia de deuses, isto \u00e9, um estado mental sobre a proposi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de deuses. Que poderia ser mesmo nulo, ou simplesmente <a href=\"http:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/belief\/#2.2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">impl\u00edcito<\/a>, no que tange afirmar ou negar essa exist\u00eancia. Neste sentido, o ate\u00edsmo como \u201ccren\u00e7a sobre a exist\u00eancia de deuses\u201d pode ser equivalente \u00e0 \u201caus\u00eancia de cren\u00e7a na exist\u00eancia de deuses\u201d em seu uso mais diverso na linguagem natural.<\/p>\n<p>E como podem ser equivalentes \u2013 aqui est\u00e1 exatamente o que Feynman abominava, com raz\u00e3o, na filosofia \u2013 a defini\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica estaria sendo promovida veementemente em desfavor do uso comum, para nenhum efeito exceto revelar mais sobre como as pessoas definem e interpretam cren\u00e7a e ate\u00edsmo do que no que de fato acreditam ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo para os que considerem que a filosofia deva sim ser promovida como norma lingu\u00edstica, \u00e9 preciso notar que <a href=\"http:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/materialism-eliminative\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">h\u00e1 correntes filos\u00f3ficas que mant\u00eam que o pr\u00f3prio conceito de cren\u00e7a e estados mentais n\u00e3o existe<\/a>. E que o pr\u00f3prio Dennett adere a uma delas, da\u00ed porque ao rejeitar o conceito de <em>qualia<\/em> trata a cren\u00e7a como um estado mental interpretado a partir do comportamento de um agente, e n\u00e3o necessariamente algo que ele \u201crealmente\u201d experimente.<\/p>\n<h3>\u201cTodos n\u00e3o-crentes cr\u00eaem\u201d<\/h3>\n<p>A filosofia anal\u00edtica foi fundada entre outros pelo trabalho de <strong>Bertrand Russell<\/strong>. Sua \u00eanfase na clareza de conceitos da l\u00f3gica formal foi levado ao extremo da pureza no <em><a href=\"http:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/principia-mathematica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Principia Mathematica<\/a><\/em>. Se a linguagem comum \u00e9 repleta de ambiguidades e contradi\u00e7\u00f5es, a \u201c<em>matem\u00e1tica pura deriva de premissas puramente l\u00f3gicas e usa apenas conceitos defin\u00edveis em termos l\u00f3gicos<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio do projeto logicista, contudo, Russell se deparou com o que ficou conhecido como <a href=\"http:\/\/plato.stanford.edu\/entries\/russell-paradox\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">paradoxo de Russell<\/a>. O conjunto de todos conjuntos que n\u00e3o cont\u00eam a si mesmos \u00e9 um paradoxo: ele n\u00e3o pode conter a si mesmo por defini\u00e7\u00e3o, mas se n\u00e3o contiver, a mesma defini\u00e7\u00e3o diz que ele deve conter a si mesmo.<\/p>\n<p>A raiz do paradoxo est\u00e1 na auto-refer\u00eancia, e Russell tentou coloc\u00e1-la de lado defendendo que o c\u00edrculo vicioso de declara\u00e7\u00f5es fazendo refer\u00eancias a si mesmas n\u00e3o teria sentido, seria um uso frouxo da linguagem que a formaliza\u00e7\u00e3o poderia aniquilar.<\/p>\n<p>Se o problema era a linguagem comum, como defendeu Russell, <strong>Kurt G\u00f6del<\/strong> demonstrou que \u00e9 poss\u00edvel codificar todas senten\u00e7as bem formadas de um sistema formal como <a href=\"http:\/\/diary.carolyn.org\/godel2.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">n\u00fameros de G\u00f6del<\/a>. Essa ideia fundamenta um dos maiores avan\u00e7os filos\u00f3ficos e cient\u00edficos do s\u00e9culo passado. As senten\u00e7as s\u00e3o literalmente traduzidas em n\u00fameros e vice-versa. E n\u00fameros naturais s\u00e3o justamente a representa\u00e7\u00e3o da matem\u00e1tica pura em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s ambiguidades da linguagem; cada afirma\u00e7\u00e3o ou f\u00f3rmula transformada em um n\u00famero \u00fanico.<\/p>\n<p>Para seu horror G\u00f6del descobriu no entanto uma prova de que o projeto de Russell era imposs\u00edvel. Ele notou que se pode construir uma f\u00f3rmula como \u201c<em>O n\u00famero x n\u00e3o pode ser provado<\/em>\u201d. E que em alguns casos, n\u00e3o todos mas em apenas alguns, esse n\u00famero seria justamente o n\u00famero de G\u00f6del representando essa f\u00f3rmula. A auto-refer\u00eancia paradoxal estava l\u00e1 mesmo nesta codifica\u00e7\u00e3o mais pura de uma linguagem formal.<\/p>\n<p>A auto-refer\u00eancia que Russell tentou extirpar da l\u00f3gica atribuindo-a \u00e0 imprecis\u00e3o da linguagem estava l\u00e1 mesmo em seu <em>Principia<\/em>. Como notou G\u00f6del, as proposi\u00e7\u00f5es paradoxais que descobriu:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cn\u00e3o envolvem circularidade falaciosa, uma vez que apenas afirmam que uma certa f\u00f3rmula bem-definida \u2026 n\u00e3o pode ser provada. Apenas subsequentemente (e por assim dizer por acaso) descobre-se que essa f\u00f3rmula \u00e9 exatamente aquela pela qual a proposi\u00e7\u00e3o \u00e9 expressa\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Em seus <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/2010\/01\/pinquio_deus_e_a_incompletude\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Teoremas de Incompletude<\/a>, G\u00f6del demonstrou que n\u00e3o s\u00f3 o <em>Principia<\/em> estava incompleto, como qualquer sistema formal capaz de expressar algo t\u00e3o simples quanto a aritm\u00e9tica elementar n\u00e3o pode ser ao mesmo tempo consistente e completo.<\/p>\n<p>O <em>Principia<\/em> era consistente, isto \u00e9, a partir de premissas puramente l\u00f3gicas era sim poss\u00edvel chegar a declara\u00e7\u00f5es defin\u00edveis em termos l\u00f3gicos como verdadeiras ou falsas. Mas ele n\u00e3o era completo: haveria declara\u00e7\u00f5es paradoxais que n\u00e3o poderiam ser definidas como verdadeiras ou falsas sem que fossem adicionadas novas premissas. E isso jamais teria fim.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 apenas a linguagem comum, mesmo sistemas axiom\u00e1ticos rigorosos como o <em>Principia<\/em> de Russell ou a aritm\u00e9tica de Peano s\u00e3o incompletos. A l\u00f3gica foi t\u00e3o longe que demonstrou seus pr\u00f3prios limites.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o significa que a l\u00f3gica n\u00e3o tenha valor, muito pelo contr\u00e1rio, ou que nenhum sistema formal sofisticado possa ser consistente ou completo \u2013 apenas n\u00e3o o ser\u00e3o ambos simultaneamente. Mas se nem todas as afirma\u00e7\u00f5es da matem\u00e1tica podem ser decididas sem que se considerem infinitos axiomas, \u00e9 muito duvidoso que a filosofia anal\u00edtica tenha chances melhores. Nem mesmo fil\u00f3sofos anal\u00edticos parecem pretend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u00c9 especialmente curioso que a discuss\u00e3o aqui se centra em considerar a \u201c<em>aus\u00eancia de cren\u00e7a<\/em>\u201d da linguagem comum como uma cren\u00e7a. H\u00e1 uma auto-refer\u00eancia e uma contradi\u00e7\u00e3o aparentes, que podem ser resolvidas especificando o escopo e objeto a que cada cren\u00e7a se refere. No que \u00e9 todavia algo que ainda assim soa como a teoria dos tipos de Russell. Ser\u00e1 mesmo? N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Apenas espero que este longo texto tenha adicionado algo positivo \u00e0 quest\u00e3o, apresentando n\u00e3o s\u00f3 uma cr\u00edtica dura e seca, como tamb\u00e9m divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e mesmo filos\u00f3fica partindo de um n\u00e3o-cientista e n\u00e3o-fil\u00f3sofo de como essas quest\u00f5es sejam ou n\u00e3o relevantes em um passeio pela floresta observando p\u00e1ssaros ou n\u00e3o acreditando em deus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSobre essa hist\u00f3ria de nomes e palavras, vou contar a voc\u00eas outra hist\u00f3ria. [Quando eu era crian\u00e7a] costum\u00e1vamos ir para as Catskill Mountains nas f\u00e9rias. \u2026 Est\u00e1vamos brincando nos campos e esse menino disse para mim: \u2018V\u00ea aquele p\u00e1ssaro l\u00e1 no galho? Qual \u00e9 o nome dele?\u2019. Eu disse, \u2018N\u00e3o tenho a menor ideia\u2019. 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