{"id":3203,"date":"2012-01-07T21:08:20","date_gmt":"2012-01-08T00:08:20","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/?p=3203"},"modified":"2012-01-07T21:08:20","modified_gmt":"2012-01-08T00:08:20","slug":"100-anos-da-revoluo-de-alfred-wegener","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2012\/01\/07\/100-anos-da-revoluo-de-alfred-wegener\/","title":{"rendered":"100 Anos da Revolu\u00e7\u00e3o de Alfred Wegener"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;border-top: 0px;border-right: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"Wegener_Pelzmuetze_\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2012\/01\/Wegener_Pelzmuetze_.jpg\" width=\"550\" height=\"736\"><\/p>\n<p>H\u00e1 um s\u00e9culo, em 6 de janeiro de 1912 frente \u00e0 Sociedade Geol\u00f3gica em Frankfurt, um meteorologista alem\u00e3o se atreveu a propor a ideia maluca de que os continentes estariam em movimento. A teoria pisava nos fundamentos de v\u00e1rios campos cient\u00edficos, da geologia \u00e0 paleontologia, e os maiores luminares de suas \u00e1reas foram quase un\u00e2nimes em desconsiderar o alem\u00e3o como um maluco. Associa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas organizaram simp\u00f3sios contra a ideia absurda, e mais de tr\u00eas d\u00e9cadas depois um outro alem\u00e3o, um tal de <strong>Albert Einstein<\/strong>, tamb\u00e9m manifestou publicamente sua desaprova\u00e7\u00e3o \u00e0s maluquices do meteorologista.<\/p>\n<p>Hoje a teoria da deriva continental de <strong>Alfred Wegener<\/strong>, meteorologista e explorador, \u00e9 universalmente aceita como uma das teorias mais importantes do s\u00e9culo passado, afetando fundamentalmente nossa compreens\u00e3o em diversas \u00e1reas da ci\u00eancia, da geologia \u00e0 paleontologia. Podemos mesmo medir em tempo real a separa\u00e7\u00e3o dos continentes, que se movimentam como parte das placas tect\u00f4nicas arrastadas pela atividade geot\u00e9rmica do planeta \u2013 o mecanismo que fundamentaria a teoria de Wegener, componente que levou finalmente \u00e0 sua aceita\u00e7\u00e3o t\u00e3o tarde quanto as d\u00e9cadas de 1960 a 1980.<\/p>\n<p>\u201cNo Congresso Internacional em Moscou em 1984, era interessante notar que os russos pareciam ter aceito que o leito dos oceanos se separava, mas n\u00e3o que os continentes estivessem \u00e0 deriva\u201d, lembra <strong>Andrew Miall<\/strong>, professor de geologia da Universidade de Toronto. \u201cComo eles conseguiam [conciliar essas duas cren\u00e7as] eu n\u00e3o fa\u00e7o ideia!\u201d, completa, ilustrando o tortuoso caminho da ideia rid\u00edcula \u00e0 ortodoxia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;float: none;margin-left: auto;border-top: 0px;margin-right: auto;border-right: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"Wegener-DuToit\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2012\/01\/Wegener-DuToit.jpg\" width=\"378\" height=\"529\"><\/p>\n<p>Hoje parece \u00f3bvio que os continentes devam se mover, como a costa brasileira se encaixa quase perfeitamente \u00e0 costa oeste da \u00c1frica, e como uma avalanche de outras evid\u00eancias demonstram \u2013 logo acima, uma das ilustra\u00e7\u00f5es publicadas por Wegener destacando que a conex\u00e3o entre a Am\u00e9rica do Sul e a \u00c1frica vai al\u00e9m da mera coincid\u00eancia das linhas costeiras.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca de Wegener, contudo, o que parecia \u00f3bvio \u00e9 algo que hoje pode parecer rid\u00edculo. Uma das teorias mais aceitas ent\u00e3o para explicar grandes forma\u00e7\u00f5es montanhosas era a de que <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Geophysical_global_cooling\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o planeta estaria se contraindo devido ao seu resfriamento<\/a>, e cordilheiras seriam algo como as rugosidades de um maracuj\u00e1 secando. Absurdo? Talvez, mas a resposta ainda mais curiosa \u00e9 que, apesar de n\u00e3o se aplicar \u00e0 Terra, esse processo geof\u00edsico sim pode explicar forma\u00e7\u00f5es no planeta Merc\u00fario e mesmo em nossa Lua. Nosso senso comum, mesmo o senso comum de boa parte da comunidade acad\u00eamica pode ser por vezes um juiz pouco apropriado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;padding-left: 0px;padding-right: 0px;float: none;margin-left: auto;border-top: 0px;margin-right: auto;border-right: 0px;padding-top: 0px\" border=\"0\" alt=\"300px-Antonio_Snider-Pellegrini_Opening_of_the_Atlantic\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2012\/01\/300px-Antonio_Snider-Pellegrini_Opening_of_the_Atlantic.jpg\" width=\"300\" height=\"176\"><\/p>\n<p>Neste centen\u00e1rio, a forma como as ideias de Wegener foram rejeitadas \u00e9 explicada principalmente devido \u00e0 aus\u00eancia de um mecanismo que explicasse a deriva dos continentes que ele propunha, o que \u00e9 bem verdade. Contudo, esta tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 toda a hist\u00f3ria. Uma das teorias mais revolucion\u00e1rias do s\u00e9culo anterior ao de Wegener foi uma certa Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o das Esp\u00e9cies de <strong>Charles Darwin<\/strong>, e para ela tamb\u00e9m n\u00e3o havia de in\u00edcio um mecanismo estabelecido para explicar o conceito fundamental de hereditariedade. Por que a evolu\u00e7\u00e3o foi ainda assim aceita, enquanto a deriva continental foi rejeitada?<\/p>\n<p>A resposta est\u00e1 no aspecto sociol\u00f3gico da ci\u00eancia, enquanto Darwin esteve especialmente bem posicionado no <em>establishment<\/em> cient\u00edfico da \u00e9poca para defender sua teoria, ao passo que Wegener era em grande parte um <em>outsider<\/em> nas principais ci\u00eancias que revolucionaria \u2013 notadamente, a geologia. Darwin tamb\u00e9m era um escritor fabuloso, e assim como Einstein sua obra seminal \u00e9 acess\u00edvel mesmo ao leitor leigo. Ainda que Wegener defendesse sua ideia com cautela e prud\u00eancia, ainda que tenha dedicado sua vida a coletar mais evid\u00eancias e reconhecer as limita\u00e7\u00f5es de suas ideias, Wegener simplesmente n\u00e3o estava t\u00e3o bem posicionado quanto Darwin, tampouco \u2013 por que n\u00e3o \u2013 teve tanta <em>sorte<\/em> para que suas ideias fossem aceitas em seu tempo.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que tanto Darwin quanto Wegener possu\u00edam f\u00e9 em suas teorias. Hoje aprendemos sobre as evid\u00eancias que levaram Darwin e Wegener a propor suas ideias, mas mais raro \u00e9 aprender que \u00e0 \u00e9poca tais ideias tinham n\u00e3o s\u00f3 lacunas como uma s\u00e9rie de evid\u00eancias que pareciam contrari\u00e1-las, ou ao menos favorecer teorias concorrentes. A ci\u00eancia praticada no mundo real \u00e9 complexa e se constr\u00f3i n\u00e3o apenas pela raz\u00e3o, mas tamb\u00e9m pela pol\u00eamica palavra chamada f\u00e9. Respondi sobre o tema no blog <a href=\"http:\/\/textosparareflexao.blogspot.com\/2012\/01\/que-e-fe.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Textos para Reflex\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>Em meio ao delicado equil\u00edbrio entre f\u00e9 e raz\u00e3o, \u00e9 not\u00e1vel que em \u201c<em>apenas<\/em>\u201d duas gera\u00e7\u00f5es, e com a acumula\u00e7\u00e3o de mais e mais evid\u00eancias, mesmo a in\u00e9rcia sociol\u00f3gica da ci\u00eancia tenha sido vencida. No mais tardar pela simples troca de gera\u00e7\u00f5es, como notou <strong>Max Planck<\/strong>, as novas ideias foram novamente discutidas e ent\u00e3o aceitas.<\/p>\n<p>Wegener jaz hoje na Groenl\u00e2ndia, no local onde sucumbiu \u00e0 exaust\u00e3o em meio \u00e0 neve, em uma expedi\u00e7\u00e3o em busca de mais evid\u00eancias em 1930. Como notou o <em><a href=\"http:\/\/www.spiegel.de\/wissenschaft\/natur\/0,1518,807228,00.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Spiegel<\/a><\/em>, mesmo em seu leito de descanso Wegener se afastou meio metro da Europa desde ent\u00e3o. Para ele, mover-se em seu t\u00famulo \u00e9 ser vindicado pela realidade e ser hoje reconhecido como um bravo vision\u00e1rio da ci\u00eancia. [veja mais em <a href=\"http:\/\/amazings.es\/2012\/01\/06\/sobre-alfred-wegener-en-el-centenario-de-la-teoria-de-la-deriva-continental\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Amazing.es<\/a>, <a href=\"http:\/\/tylerirving.ca\/?p=361\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Canadensis<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um s\u00e9culo, em 6 de janeiro de 1912 frente \u00e0 Sociedade Geol\u00f3gica em Frankfurt, um meteorologista alem\u00e3o se atreveu a propor a ideia maluca de que os continentes estariam em movimento. A teoria pisava nos fundamentos de v\u00e1rios campos cient\u00edficos, da geologia \u00e0 paleontologia, e os maiores luminares de suas \u00e1reas foram quase un\u00e2nimes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":467,"featured_media":3205,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[21,23],"tags":[53,73,76,105],"class_list":["post-3203","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historia","category-ideias","tag-ciencia","tag-geologia","tag-historia","tag-personalidades"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2012\/01\/Wegener_Pelzmuetze_1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3203","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/467"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3203"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3203\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3205"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3203"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3203"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3203"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}