{"id":3357,"date":"2012-10-21T21:39:29","date_gmt":"2012-10-22T00:39:29","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/?p=3357"},"modified":"2012-10-21T21:39:29","modified_gmt":"2012-10-22T00:39:29","slug":"carros-e-o-custo-brasil-em-testes-de-coliso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2012\/10\/21\/carros-e-o-custo-brasil-em-testes-de-coliso\/","title":{"rendered":"Carros e o Custo Brasil em Testes de Colis\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a \u00e9 frequentemente uma ilus\u00e3o. Um carro antigo, uma verdadeira banheira de mais de uma tonelada, com um peso que pode ser sentido n\u00e3o apenas pelo motorista mas pelos passageiros pode parecer um ve\u00edculo s\u00f3lido que destruir\u00e1 carros modernos que mais parecem ovos. Mas no teste de colis\u00e3o acima entre um Chevrolet 1959 <em>Bel Air<\/em> e um Chevrolet 2009 <em>Malibu<\/em>, cinco d\u00e9cadas de avan\u00e7os em seguran\u00e7a ficam muito claros.<\/p>\n<p>A fragilidade de carros modernos em verdade embute uma s\u00e9rie de tecnologias, como \u00e1reas que <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Crumple_zone\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">se deformam intencionalmente<\/a>, absorvendo a energia do impacto, preservando ao m\u00e1ximo os passageiros. A tecnologia foi inventada pelo engenheiro da Mercedes-Benz, <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/B%C3%A9la_Bar%C3%A9nyi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>B\u00e9la Bar\u00e9nyi<\/strong><\/a>, e aplicada aos carros da fabricante a partir da d\u00e9cada de 1950. Os alem\u00e3es j\u00e1 faziam teste de colis\u00e3o h\u00e1 d\u00e9cadas:<\/p>\n<p>Nos EUA a seguran\u00e7a de carros s\u00f3 se tornou um tema de reivindica\u00e7\u00e3o popular, vencendo os interesses das grandes fabricantes, na d\u00e9cada de 1960, principalmente ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de \u201c<em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Unsafe_at_Any_Speed\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Inseguro a Qualquer Velocidade<\/a><\/em>\u201d (\u201cUnsafe at Any Speed\u201d, 1965), de <strong>Ralph Nader<\/strong>. Parte do mote de \u201c<em>Clube da Luta<\/em>\u201d, desde o conto original at\u00e9 o filme, \u00e9 em parte uma refer\u00eancia ao livro de Nader:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cSe o novo carro fabricado pela minha companhia sai de Chicago em dire\u00e7\u00e3o ao oeste a noventa quil\u00f4metros por hora, e o diferencial traseiro trava, o carro bate e pega fogo com todo mundo dentro, minha empresa deve iniciar um recall? Pegue o n\u00famero total de ve\u00edculos na \u00e1rea (A) e multiplique pelo \u00edndice prov\u00e1vel de defeitos (B), depois multiplique o resultado pelo custo m\u00e9dio de um acordo extrajudicial (C). A vezes B vezes C \u00e9 igual a X. Isso \u00e9 o que vai nos custar se n\u00e3o iniciarmos j\u00e1 o recall. Se X for maior do que custar\u00e1 para recolher o carro, faremos o recall e ningu\u00e9m vai se machucar. Se X for menor do que custar\u00e1 para recolher o carro, ent\u00e3o n\u00e3o faremos o recall\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em seu livro, Nader exp\u00f5e como companhias aplicaram exatamente esta l\u00f3gica financeira em diversos casos documentados. Mais impressionante \u00e9 que mais de uma d\u00e9cada depois, em 1977, uma das maiores fabricantes ainda se envolveria com um caso que \u00e9 provavelmente o que inspirou diretamente o mote em <em>Clube da Luta.<\/em> Um famoso memorando, o <a href=\"http:\/\/www.motherjones.com\/politics\/1977\/09\/pinto-madness\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">memorando Pinto<\/a> (o modelo de carro se chamava <em><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ford_Pinto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pinto<\/a><\/em>), fazia uma an\u00e1lise de custo-benef\u00edcio entre um conserto de U$11 aplicado a todos os carros do modelo contra os custos de fazer acordos judiciais com todas as v\u00edtimas. Os acidentes envolviam um tanque de combust\u00edvel que por falha de projeto tendia a pegar fogo. Isso n\u00e3o foi fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo ano, mais de um milh\u00e3o de pessoas morrem em acidentes de tr\u00e2nsito pelo mundo. \u00c9 a principal causa de morte por ferimentos em crian\u00e7as na faixa entre 10 e 19 anos \u2013 com 260.000 v\u00edtimas fatais, e nada menos que 10 milh\u00f5es de feridos. No Brasil, <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ifp3L0xYmF4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pagamos valores alt\u00edssimos por modelos gera\u00e7\u00f5es atrasados em rela\u00e7\u00e3o aos vendidos no exterior<\/a> \u2013 e esse atraso n\u00e3o se traduz apenas em um visual menos moderno ou itens de conforto menos sofisticados, mas tamb\u00e9m em recursos de seguran\u00e7a mais atrasados.<\/p>\n<p>Pessoas morrem em nome de maiores lucros para grandes fabricantes \u00e0s quais an\u00e1lises de custo-benef\u00edcio s\u00e3o, na aus\u00eancia de a\u00e7\u00e3o por parte de seus consumidores, a palavra final. E n\u00e3o \u00e9 preciso esperar cinco d\u00e9cadas para ver o progresso em seguran\u00e7a automotiva: veja uma colis\u00e3o frontal entre uma minivan da d\u00e9cada de 1990 e uma da d\u00e9cada de 2000.<\/p>\n<p>Mesmo uma d\u00e9cada j\u00e1 pode trazer diferen\u00e7as imensas na seguran\u00e7a aos passageiros. J\u00e1 \u00e9 preocupante que quem possa pagar sempre pelo \u00faltimo modelo tenha sempre maior seguran\u00e7a ao dirigir \u2013 enquanto o governo n\u00e3o instituir e for\u00e7ar fabricantes a padr\u00f5es cada vez mais elevados de seguran\u00e7a. Agora, \u00e9 revoltante que com os valores que pagamos por ve\u00edculos no Brasil, inclusive por ve\u00edculos usados, poder\u00edamos ter os mais avan\u00e7ados recursos de seguran\u00e7a no planeta.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s, temos uma frota antiga onde modelos novos s\u00e3o vendidos a pre\u00e7os exorbitantes, o que faz com que mesmo modelos antigos e usados sejam revendidos tamb\u00e9m a pre\u00e7os absurdos, equivalentes ou mesmo superiores aos mais avan\u00e7ados ve\u00edculos no exterior.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o afeta apenas o seu bolso. Como testes de colis\u00e3o entre modelos antigos e novos demonstram bem, pessoas morrem diariamente no Brasil em ve\u00edculos ultrapassados pelos quais pagaram valores altos. Pessoas que poderiam estar vivas se tiv\u00e9ssemos a seguran\u00e7a pela qual pagamos. Em algum lugar, uma an\u00e1lise de custo-benef\u00edcio mostra que enquanto brasileiros continuarem pagando esses pre\u00e7os por esses carros, n\u00e3o h\u00e1 porque evitar mais mortes. [via <a href=\"http:\/\/www.core77.com\/blog\/transportation\/old_cars_crashing_into_new_cars_which_is_safer_23660.asp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">core77<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a \u00e9 frequentemente uma ilus\u00e3o. Um carro antigo, uma verdadeira banheira de mais de uma tonelada, com um peso que pode ser sentido n\u00e3o apenas pelo motorista mas pelos passageiros pode parecer um ve\u00edculo s\u00f3lido que destruir\u00e1 carros modernos que mais parecem ovos. 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