{"id":3390,"date":"2013-03-18T23:58:26","date_gmt":"2013-03-19T02:58:26","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/100nexos\/?p=3390"},"modified":"2013-03-18T23:58:26","modified_gmt":"2013-03-19T02:58:26","slug":"o-tao-do-google","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/2013\/03\/18\/o-tao-do-google\/","title":{"rendered":"O Tao do Google"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<p>Em 1984 uma companhia de computadores que era a menina dos olhos de investidores, de produtos revolucion\u00e1rios mas com resultados concretos ainda longe de serem t\u00e3o vistosos lan\u00e7ou o novamente revolucion\u00e1rio computador pessoal <em>Macintosh<\/em> em um comercial que tamb\u00e9m se tornou ic\u00f4nico, dirigido por <strong>Ridley Scott<\/strong> e veiculado durante o <em>Super Bowl<\/em>. Uma hero\u00edna com o logo do Macintosh salva a humanidade da conformidade representada pelo \u201cGrande Irm\u00e3o\u201d, que discursava:<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>\u201c<strong>Hoje, celebramos o primeiro anivers\u00e1rio glorioso das Diretivas de Purifica\u00e7\u00e3o de Informa\u00e7\u00e3o. Criamos, pela primeira vez na hist\u00f3ria, um jardim de ideologia pura \u2013 onde cada trabalhador pode florescer, seguro das ervas daninhas que transmitem verdades contradit\u00f3rias. Nossa Unifica\u00e7\u00e3o de Pensamentos \u00e9 uma arma mais poderosa que qualquer frota ou ex\u00e9rcito na Terra. Somos um s\u00f3 povo, com uma vontade, uma determina\u00e7\u00e3o, uma causa. Nossos inimigos v\u00e3o tagarelar at\u00e9 a morte, e n\u00f3s iremos enterr\u00e1-los em sua pr\u00f3pria confus\u00e3o. N\u00f3s iremos prevalecer!<\/strong>\u201d<\/em>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ao que a hero\u00edna lan\u00e7a uma marreta libertadora e destr\u00f3i a enorme tele-tela, deixando os espectadores estupefatos com a explos\u00e3o. \u201c<em>Em 24 de janeiro, Apple Computer lan\u00e7ar\u00e1 o Macintosh. E voc\u00ea ver\u00e1 por que [o ano de] 1984 n\u00e3o ser\u00e1 como 1984 [de George Orwell]<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Quase 30 anos depois, a <em>Apple Computer, Inc.<\/em> j\u00e1 n\u00e3o fabrica mais apenas computadores, mudando seu nome apenas para <em>Apple Inc.<\/em>, e \u00e9 a companhia com maior valor de mercado no mundo, superando gigantes petrol\u00edferas e mesmo concorrentes da ind\u00fastria de tecnologia de informa\u00e7\u00e3o como Microsoft e IBM \u2013 esta \u00faltima o alvo original do comercial de 1984. Suas reservas de capital s\u00e3o maiores do que o PIB de v\u00e1rios pa\u00edses. \u00c9 uma ironia fina aquela que interpreta que se h\u00e1 hoje um Grande Irm\u00e3o \u201cpurificando\u201d informa\u00e7\u00e3o, criando um jardim de aplicativos puros onde cada usu\u00e1rio possa florescer seguro das ervas daninhas que transmitem interfaces contradit\u00f3rias, \u00e9 a pr\u00f3pria Apple, que com sua Unifica\u00e7\u00e3o de Pensamentos transformou sua marca na propriedade intelectual das mais valiosas, e poderosas, do planeta. O <em>Grande Irm\u00e3o<\/em> carism\u00e1tico em seus Keynotes para um p\u00fablico babando pela \u00faltima novidade era ningu\u00e9m menos que o pr\u00f3prio <strong>Steve Jobs<\/strong>.<\/p>\n<p>Esse c\u00famulo da ironia se deu em pouco mais de uma gera\u00e7\u00e3o, em uma hist\u00f3ria que cont\u00e9m meandros fractais \u2013 reviravoltas sobre reviravoltas. Mas este \u00e9 um coment\u00e1rio sobre o Google Inc., que precisou come\u00e7ar pela Apple porque nenhuma outra empresa de tecnologia que busque vender tamb\u00e9m um verniz de ideologia \u00e9 t\u00e3o ic\u00f4nica quanto aquela fundada por Jobs. Ou pelo menos, t\u00e3o valiosa quanto a Apple Inc. \u00e9 hoje.<\/p>\n<p align=\"center\">\n<p>Se a Apple vendeu-se como uma empresa vision\u00e1ria de produtos \u00e0 frente de seu tempo, o Google passou boa parte de seu tempo promovendo o lema informal menos pretensioso \u201c<em>don\u2019t be evil<\/em>\u201d, ou \u201c<em>n\u00e3o seja malvado<\/em>\u201d. Embora design nunca tenha sido seu ponto forte, o Google se destacou pela tecnologia, o que \u00e9 uma grande vantagem quando se \u00e9 uma empresa de tecnologia. Enquanto \u00e0 \u00e9poca outras grandes corpora\u00e7\u00f5es moviam enormes fundos e conglomerados de m\u00eddia para capitalizar um ecossistema que buscava sempre prender os visitantes dentro de \u201c<em>jardins de ideologia pura<\/em>\u201d, de propriedade desta ou daquela corpora\u00e7\u00e3o, o Google apostava na efici\u00eancia de seu buscador como ponto de in\u00edcio e norte para todos internautas.<\/p>\n<p>N\u00e3o era necess\u00e1rio prender o visitante em uma rede infind\u00e1vel de sites de sua propriedade, pelo contr\u00e1rio, quanto mais r\u00e1pido um visitante <em>sa\u00edsse<\/em> de seu buscador encontrando o que procurava, mais prov\u00e1vel era que ele <em>retornasse<\/em> depois ao seu buscador quando pensasse ir a outro lugar. Como uma esp\u00e9cie de <em>koan<\/em> zen budista, para fazer o visitante retornar, fa\u00e7a-o ir embora. Tente prend\u00ea-lo, e ele ir\u00e1 fugir. E \u00e0 medida que o volume de informa\u00e7\u00f5es na rede crescia geometricamente, a tecnologia do Google mostrou-se em anos decisivos a mais capaz de oferecer resultados relevantes ao usu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em 2011 em um testemunho no senado americano, <strong>Eric Schmidt<\/strong>, ent\u00e3o chairman do Google, concordou que o <em>Google<\/em> det\u00e9m hoje o monop\u00f3lio na \u00e1rea de mecanismos de busca. Pouco mais de uma d\u00e9cada depois de sua funda\u00e7\u00e3o, em menos de uma gera\u00e7\u00e3o, uma startup baseada em ideias revolucion\u00e1rias de tecnologia venceu todos os recursos investidos por gigantes de m\u00eddia e se tornou ela mesma mais valiosa que o maior conglomerado tradicional de m\u00eddia, a Disney.<\/p>\n<p>E como voc\u00ea pode n\u00e3o ser \u201cmalvado\u201d se det\u00e9m o monop\u00f3lio da \u00e1rea mais importante da Internet e \u00e9 uma das empresas mais valiosas do mundo? \u00c9 simplesmente imposs\u00edvel. Vender-se como o <em>underdog<\/em>, aquele competidor pequeno mas valente desafiando o gigante tir\u00e2nico, n\u00e3o funciona quando voc\u00ea mesmo se torna o gigante. Voc\u00ea tamb\u00e9m se torna automaticamente o tirano.<\/p>\n<p>Mal o Google consolidou seu monop\u00f3lio dos mecanismos de busca, uma forma nova de uso da rede emergiu \u2013 as redes sociais. O Facebook como rede social \u00e9 desde o in\u00edcio um \u201cjardim de ideologia pura\u201d de propriedade de <strong>Mark Zuckerberg<\/strong>, fechado aos olhos indexadores do Google, e um ao qual os visitantes n\u00e3o precisam se lembrar de ir ao Google para gerar, consumir ou encontrar conte\u00fado: basta perguntarem aos amigos que tamb\u00e9m fazem parte da rede social. \u00c9 uma forma fundamentalmente diferente de utilizar a Internet, e uma que n\u00e3o passa pela ideologia original do jardim aberto do Google.<\/p>\n<p>O que os grandes conglomerados de m\u00eddia n\u00e3o conseguiram concretizar \u00e0 for\u00e7a no primeiro boom da Internet na virada do mil\u00eanio, a tecnologia das redes sociais tornou hoje n\u00e3o s\u00f3 poss\u00edvel, como transformou em realidade. Com um crescimento org\u00e2nico e viralizado, onde todos entram porque outros j\u00e1 entraram, e sem vender nem mesmo um verniz de ideologia, o Facebook se consolidou como o maior \u201cjardim de ideologia pura\u201d j\u00e1 criado. Um local onde cada mudan\u00e7a na forma como Zuckerberg apresenta sua timeline afeta instantaneamente a maneira com que milh\u00f5es de pessoas consumir\u00e3o informa\u00e7\u00e3o. Discutir o impacto que a introdu\u00e7\u00e3o de hashtags ter\u00e1 no ecossistema do Facebook \u00e9 um indicador claro da pureza deste jardim onde n\u00e3o h\u00e1 ervas daninhas que n\u00e3o sejam podadas.<\/p>\n<p>Se a possibilidade de usar outros sites em apenas um clique era um argumento usado por Schmidt para o fato de que o monop\u00f3lio do Google n\u00e3o era prejudicial ao consumidor, quando esta possibilidade se mostrou uma amea\u00e7a concreta, o Google passou a exercer sua tirania. Todos usu\u00e1rios de qualquer propriedade do Google, agora parte de um jardim de ideologia, precisam aderir ao Google+. A amea\u00e7a do Facebook \u00e9 t\u00e3o s\u00e9ria \u00e0 vis\u00e3o original do Google que hoje est\u00e1 claro que esta vis\u00e3o original foi simplesmente abandonada. Hoje, o objetivo do Google \u00e9 o mesmo que o do Facebook, Apple, IBM, Microsoft, do IngSoc e do Grande Irm\u00e3o. \u00c9 o mesmo que o da outrora gigante AOL. \u00c9 prender voc\u00ea em um jardim de ideologia pura de sua propriedade, do qual voc\u00ea n\u00e3o deve sair, onde todos seus pensamentos possam ser capitalizados e vendidos. Um perfil, um login, uma rede social, \u00fanica, para todo o planeta, \u00e9 o sonho perseguido por todas estas gigantes flexionando bilh\u00f5es capitalizados no mercado.<\/p>\n<p align=\"center\">\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-bottom: 0px;border-left: 0px;float: none;margin-left: auto;border-top: 0px;margin-right: auto;border-right: 0px\" title=\"tumblr_m0z13cSbnr1qlztl9o1_400\" border=\"0\" alt=\"tumblr_m0z13cSbnr1qlztl9o1_400\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/100nexos\/wp-content\/uploads\/sites\/219\/2013\/03\/tumblr_m0z13cSbnr1qlztl9o1_400.jpg\" width=\"397\" height=\"298\"><\/p>\n<\/p>\n<p>O objetivo nada secreto de toda corpora\u00e7\u00e3o \u00e9 o lucro, n\u00e3o deveria haver nenhuma grande novidade nisto. Se por um breve per\u00edodo o Google promoveu uma filosofia aparentemente diferente, \u00e9 porque na peculiar situa\u00e7\u00e3o que existia, a filosofia contr\u00e1ria prometia maiores lucros no m\u00e9dio e longo prazo. \u201c<em>N\u00f3s acreditamos firmemente que no longo prazo, seremos melhor servidos \u2013 como acionistas e de todas outras formas \u2013 por uma companhia que faz coisas boas para o mundo mesmo que deixemos de lado alguns ganhos de curto prazo<\/em>\u201d, declarava o IPO do Google no mais pr\u00f3ximo de um manifesto \u201cdon\u2019t be evil\u201d a que se chegou. <\/p>\n<p>Funcionou, dez anos depois o Google trouxe enormes retornos a seus acionistas. A constata\u00e7\u00e3o triste \u00e9 que hoje, todos os ganhos do Google, inclu\u00eddo, devem ser de curto prazo.<\/p>\n<p>Se a hist\u00f3ria de reviravoltas de empresas de tecnologia \u00e9 um par\u00e2metro, por\u00e9m, \u00e9 muito prov\u00e1vel que as empresas mais valiosas e poderosas do mundo daqui a uma gera\u00e7\u00e3o ainda nem existem, e enquanto empresas com centenas de bilh\u00f5es em capitaliza\u00e7\u00e3o movem seus ex\u00e9rcitos em estrat\u00e9gias para criar jardins de ideologia pura, uma nova empresa focada em tecnologia ainda por surgir pode sequer depender de um clique para ser acessada.<\/p>\n<p>Google, eu gostaria que fosse voc\u00ea, mas de toda forma, obrigado pelos peixes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1984 uma companhia de computadores que era a menina dos olhos de investidores, de produtos revolucion\u00e1rios mas com resultados concretos ainda longe de serem t\u00e3o vistosos lan\u00e7ou o novamente revolucion\u00e1rio computador pessoal Macintosh em um comercial que tamb\u00e9m se tornou ic\u00f4nico, dirigido por Ridley Scott e veiculado durante o Super Bowl. 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