{"id":1341,"date":"2012-01-09T17:28:31","date_gmt":"2012-01-09T20:28:31","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/amigodemontaigne\/?p=1341"},"modified":"2012-01-09T17:28:31","modified_gmt":"2012-01-09T20:28:31","slug":"daniel-piza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/amigodemontaigne\/2012\/01\/09\/daniel-piza\/","title":{"rendered":"Daniel Piza"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/amigodemontaigne\/2012\/01\/daniel-piza\/piza-2\/\" rel=\"attachment wp-att-1343\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1343\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/amigodemontaigne\/wp-content\/uploads\/sites\/206\/2012\/01\/piza1.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/amigodemontaigne\/wp-content\/uploads\/sites\/206\/2012\/01\/piza1.jpg 200w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/amigodemontaigne\/wp-content\/uploads\/sites\/206\/2012\/01\/piza1-133x200.jpg 133w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O ano de 2011 poderia ter acabado melhor.\u00a0A morte de Daniel Piza, em 30 de dezembro, me deixou muito mal.\u00a0Preferi o distanciamento de alguns dias antes de escrever qualquer coisa. \u00c0s vezes, arroubos emotivos nos traem.\u00a0Piza n\u00e3o foi s\u00f3 um jornalista cultural. Tal qual\u00a0Paulo Francis, de quem se dizia herdeiro intelectual, Piza foi um jornalista autoral.\u00a0H\u00e1 uma grande diferen\u00e7a a\u00ed.\u00a0O jornalismo cultural pressup\u00f5e um of\u00edcio t\u00e9cnico que necessita de um profissional bem informado\u00a0com bom tr\u00e2nsito nos meios e eventos culturais. O jornalismo autoral, por sua vez,\u00a0depende essencialmente das opini\u00f5es emitidas pelo jornalista\u00a0 que observa e estuda fatos e fen\u00f4menos culturais. Esse \u00e9 o principal motivo que faz muito dif\u00edcil a substitui\u00e7\u00e3o de Piza por algum outro colega jornalista.<\/p>\n<p>\u00a0Piza iniciou\u00a0a sua carreira muito precocemente, desde sempre demonstrando\u00a0um olhar agudo, multifacetado,\u00a0original.\u00a0Fez leituras que moldaram o seu jeito de escrever e pensar.\u00a0Citam Euclides da Cunha, Machado de Assis e Guimar\u00e3es Rosa, mas negligenciam Caio Prado J\u00fanior, Raymundo\u00a0Faoro, Celso Furtado, Antonio Candido, Gilberto Freyre, para citar alguns que me lembro aqui.\u00a0N\u00e3o citarei todos os cl\u00e1ssicos, mas\u00a0leu (e releu) Montaigne, Shakespeare e Bacon. Em anos recentes, fez leitura cr\u00edtica original\u00a0de &#8220;O outono da Idade M\u00e9dia&#8221;, de Johan Huizinga, edi\u00e7\u00e3o\u00a0lan\u00e7ada pela Cosac Naify em 2010.\u00a0Era vers\u00e1til e inteligente.\u00a0Enxergou\u00a0como poucos a beleza pl\u00e1stica das obras de Anish Kapoor, e, felizmente,\u00a0 deixou-a registrada em ensaio monumental.<\/p>\n<p>Escreveu 17 livros em sua curta trajet\u00f3ria.\u00a0Foi v\u00edtima de sua pr\u00f3pria\u00a0reputa\u00e7\u00e3o, pois a revis\u00e3o da biografia de Machado de Assis (<a href=\"http:\/\/www.livrariacultura.com.br\/scripts\/resenha\/resenha.asp?nitem=1149048&amp;sid=0155201398118638205181374&amp;k5=37663FDA&amp;uid=\">Machado de Assis &#8211; um g\u00eanio brasileiro, Imprensa Oficial, 415 p\u00e1ginas<\/a>) foi sabidamente negligenciada, pois afinal de contas\u00a0o autor era &#8220;o&#8221; Piza. Engra\u00e7ado ler na imprensa detratores seus apontando os erros\u00a0da biografia e reduzindo\u00a0o Piza a esse livro. Ser\u00e1 que essas pessoas que se julgam t\u00e3o inteligentes, t\u00e3o sabidas e t\u00e3o cultas n\u00e3o sabem que existem reedi\u00e7\u00f5es revisadas? No caso de Piza, n\u00e3o as teremos, infelizmente, mas j\u00e1 havia um projeto\u00a0para reedi\u00e7\u00e3o da obra, que n\u00e3o por acaso se encontra esgotada.<\/p>\n<p>Outro lugar comum\u00a0que pude encontrar em alguns necrol\u00f3gios foi a lembran\u00e7a de Piza como um jornalista de direita. Nada mais ris\u00edvel.\u00a0A esquerda bo\u00e7al brasileira, que, infelizmente, \u00e9 a maioria, pensa corporativamente. N\u00e3o h\u00e1 pensamento individual, autoral. Carecemos de um Antonio Gramsci, de um Hobsbawn. Da\u00ed o espanto diante de um jornalista capaz de ter opini\u00e3o contr\u00e1ria aos governantes &#8220;de esquerda&#8221; (chamar o PT,\u00a0Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Cia.de &#8220;esquerda&#8221;\u00a0\u00e9\u00a0fazer corar de raiva os verdadeiros esquerdistas). A mesma esquerda bo\u00e7al que criticou e atacou um Piza\u00a0indefeso foi incapaz de registrar que esse mesmo Piza criticou o governo de Alckmin, a inoper\u00e2ncia de Serra, a pueril falta de posicionamento da oposi\u00e7\u00e3o; que esse mesmo Piza elogiou as medidas econ\u00f4micas e pol\u00edticas anunciadas pela Sra. Dilma no in\u00edcio de seu mandato; que esse mesmo Piza criticou os desmandos de Jos\u00e9 Sarney. Piza sempre se posicionou a favor da democracia e defendeu uma sociedade mais justa, com menos desigualdades e maiores oportunidades. Deixava claro em suas colunas o mal estar que lhe provocava a iniquidade brasileira. Mas isso s\u00f3 sabe quem tinha o prazer de ler e de usufruir de seus textos.O domingo est\u00e1 mais pobre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>P.S.: Piza, voc\u00ea acredita que al\u00e9m das barbaridades que escreveram a seu respeito\u00a0tamb\u00e9m\u00a0riram por um pretenso desconhecimento seu, que teria\u00a0dito que Jesus Cristo morreu enforcado? Bom, Piza, caso n\u00e3o saiba, Cristo morreu crucificado &#8211; informa\u00e7\u00e3o muito\u00a0pouco conhecida e de dom\u00ednio por somente alguns raros indiv\u00edduos ilustrados. <em>Ridendo castigat mores<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 2011 poderia ter acabado melhor.\u00a0A morte de Daniel Piza, em 30 de dezembro, me deixou muito mal.\u00a0Preferi o distanciamento de alguns dias antes de escrever qualquer coisa. \u00c0s vezes, arroubos emotivos nos traem.\u00a0Piza n\u00e3o foi s\u00f3 um jornalista cultural. 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