Prometeu e um conto sobre a tecnologia

Um pouco de mitologia para refletir sobre o desenvolvimento tecnológico

Conta uma história da mitologia grega que Prometeu roubou o fogo dos deuses e deu de presente aos homens juntamente com a razão e o ensinamento das artes. Assim, o homem aprendeu a construir casas, trabalhar a madeira, explorar oceanos e extrair metais da terra. O homem também criou o alfabeto, a lógica matemática e a comunicação à distância. O conhecimento foi tanto que chegou o dia em que a humanidade não conseguiu mais sobreviver sem a tecnologia.

Voltando no tempo, encontramos Hesíodo, que nos versos 510 a 516 da Teogonia, narrou a trajetória de Prometeu.

Os versos contam que a primeira falta de Prometeu para com Zeus, e em favor dos homens, foi quando dividiu um boi em duas partes, dando uma ao senhor do Olimpo e a outra aos mortais. Na primeira parte estavam as carnes e as vísceras, cobertas com couro. Na segunda, apenas ossos, cobertos com banha animal. Zeus, atraído pela banha, escolheu a segunda. Irritado por ter sido enganado, seu rancor e cólera tomaram-lhe os pensamentos e o coração. Não gostara de ganhar ossos enquanto os humanos ficaram com a carne. Por isso, Zeus castigou a humanidade, negando aos homens a força do fogo infatigável (Na mitogologia grega, o fogo representava a inteligência e sabedoria)

Contrariado e insatisfeito, Prometeu, comete sua afronta definitiva: rouba o fogo e reanima a inteligência do homem, que passara a se assemelhar aos fantasmas dos sonhos depois da ira de Zeus.

O titã apresentou aos mortais as portas dos astros. Deu ao homem a composição das letras, o segrego da memória, a graça e a beleza das artes, a técnica de domesticar animais selvagens, a habilidade de erguer moradias com madeira e tijolos. Prometeu deu aos homens a sabedoria das ciências e a praticidade das técnicas. Prometeu agraciou o homem com a tecnologia em suas mais amplas aplicabilidades.

Não obstante, Zeus não gostou da atitude do titã e preparou uma armadilha. Ordenou que ao filho de Hera, o deus coxo e ferreiro Hefesto, moldar uma mulher ideal e fascinante que ganhou dons de presente dos deuses com o intuito de torna-la irresistível. Foi batizada por Hermes como Pandora, (pan = todos, dora = presente). Recebeu de Afrodite o poder de sedução, de Atena a arte da tecelagem e de Hermes as artimanhas. E assim, cada deus concedeu a Pandora um atributo. Por fim, ela foi dada de presente ao atrapalhado Epimeteu, que aceitou ingenuamente, não atendendo aos apelos do seu irmão, Prometeu.

Com o casamento, consolidou-se a vingança de Zeus. Dentro de uma jarra (Existem variações sobre o mito da Caixa de Pandora. Interpretações e traduções distintas da apresentada aqui. Vale fazer uma busca pela internet para conhecer essas histórias. De toda forma, e de maneira bastante simplificada, o mito sempre trata da curiosidade como sendo a causa de diversos males que assolam o mundo) levada como presente nupcial para Epimeteu e Pandora, estava a toda a ira do Olimpo. Quando Pandora, por curiosidade abriu a jarra, assustou-se, fechando-a rapidamente. Mas já era tarde. Escaparam do recipiente todas as desgraças e calamidades do mundo, restando na jarra trancafiada apenas a esperança.

Prometeu foi castigado, sendo preso pelas inquebráveis correntes de Hefesto no meio de uma coluna, e uma águia de longas asas foi enviada por Zeus para devorar-lhe o fígado imortal. Ao fim de cada dia chegava a escuridão que Prometeu ansiava. Somente à noite, seu fígado voltava a crescer e o sofrimento diminuía um pouco. Teria permanecido nesse castigo por toda a eternidade se não fosse a intervenção de Hércules, que matou a águia com a permissão de Zeus.

A história é breve, mas nos faz pensar. Prometeu não só deu aos homens a sabedoria e a capacidade de se desenvolver; a humanidade, junto com o avanço científico e tecnológico, conheceu também a ira de Zeus. Os maiores medos e desgraças nos foram relegados pela cólera de um deus vingativo. Por um lado, a sociedade se desenvolveu. O homem concebeu, inventou, planejou e construiu. E depois de uma longa jornada, tornou-se detentor de avanços até pouco inimagináveis. Galgou degraus e sonhou alcançar os desígnios divinos. Por outro lado, brincando de divindade, o homem concebeu artefatos que contam com o poder de destruição dos demônios.

E por isso, algumas questões surgem à mente. Não terá sido em vão o castigo sofrido por Prometeu por nos dar o fogo? Não seria pouco seu sofrimento? Teria Zeus a consciência de que o titã presentou uma espécie ainda não tão madura? Será que temos o direito de brincar com a vida e a morte? Será que realmente pagamos o preço da brincadeira e da cólera dos deuses? Ou o presente nos foi dado na medida certa e apenas utilizamos parte dele? Será que a sabedoria do fogo ainda não foi desenvolvida? Aproveitamos o presente da forma correta?

Muitas são as perguntas que podemos fazer. Mas independente da forma como interpretamos o mito aqui exposto, podemos chegar à conclusão primária que o trabalho ainda não está completo. Conseguimos progredir materialmente, intelectualmente, mas ainda restam avanços morais. Novos mundos ainda podem ser explorados, mas também  faltam explorar os mundos que povoam nosso entorno. O conforto material e o progresso científico precisam ser complementados com a prática de valores fundamentais que prezam o respeito mútuo acima de tudo. O progresso tecnológico precisa seguir seu curso, mas o bem estar coletivo não pode ser ignorado. Prometeu acreditou no potencial da humanidade. Precisamos acreditar também.

E, de toda forma, não podemos esquecer que a esperança ainda está na jarra…

 

Fontes cosultadas:

DÓCLUS, M. O mito de Prometeu e Epimeteu segundo Ésquilo, Hesíodo e Platão.

HESÍODO. Teogonia: | origem dos deuses. Trad. J. A. A. Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1991.

HESÍODO. Teogonia: Os trabalhos e dias. Trad. Ana Elias Pinheiro & José Ribeiro Ferreira. Lisboa: Imprensa Nacional, 2005.

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Sou Estéfano. Físico, doutor em Educação, Ciência e Tecnologia. Atualmente sou professor da UFSCar e pesquisador do LANTEC da UNICAMP. Neste blog, vou contar um pouco de histórias da tecnologia e da ciência.

8 Comentários

  1. O problema é que se criou uma noção de que tecnologia ou avanço tecnológico, por si só, são sinônimos de aumento de qualidade de vida. Devemos lembrar que essa qualidade de vida se baseia numa série de fatores não materiais, mas culturais e sociais e psicológicas, coisas que a tecnologia não afeta diretamente. Claro que Marx diria o contrário, mas tenho minhas dúvidas. Mas uma coisa é fato, enquanto a ciência e a tecnologia forem subprodutos da lógica capitalista, continuaremos a ter os mesmo problemas econômico-sociais de sempre.

    • André, existem pontos de vista que tratam do pessimismo e do otimismo tecnológico. Pontos de vista relacionados com essas questões são bastante controversos, já que não polarizar a análise não nos leva a refletir sobre o alcance geral da tecnologia. Ainda vou escrever sobre esses dois pontos de vista também. O problema é conciliar o tempo. Mas agora, voltando das férias, vou tentar colocar as ideias em ordem.

  2. André, eu não sei se o problema é o capitalismo, acho que é muito mais uma questão de mentalidade. Se pensarmos em uma tecnologia e ciência mais democráticas, que é o caso de tecnologias sociais, por exemplo, podemos usar o desenvolvimento gerado pelo capitalismo à favor de todos os homens.
    Stéfano, muito bom seus textos, eu gosto de pensar em outro deus que é relacionado a tecnologia: hefesto. Este, por sinal, o único deus grego que possuía uma deficiência física. Talvez um sinal do que a tecnologia pode fazer aos seus herdeiros, e que ficou clara na utilização, por exemplo, da bomba atômica.
    Assim, realmente em questões de avanços morais fica a pergunta: como construir sobre as bases perenes da pós-modernidade?

    • Obrigado Luiz Adriano. Gostei da ideia de associar a tecnologia a Hefesto. Vale a reflexão pra tentar escrever algo na mesma linha. Em breve, vou viajar um pouquinho mais falando sobre tecnologia e Sísifo, tentando pensar um pouco sobre trabalhos repetitivos. Além disso, seu questionamento final faz pensar bastante. Como construir sobre as bases perenes da pós-modernidade?

  3. É interessante pensar essas questões, e talvez o conto de Prometeu possa nos dar muito mais a pensar do que podemos supor. Quando penso no avanço tecnológico da humanidade e sua falta de ética, penso que o sentido essencial contido no mito e que infelizmente não pode ser investigado é que o presente do fogo simboliza a consciência humana. Não aos moldes da psicologia subjetivista do fim do século XIX, mas num sentido existencial onde a fórmula eu-outro-mundo possui uma congruência e indissocialidade que dificulta a análise no sentido tradicional. Talvez essa condição de ser-ciente é o que possibilitou que nos coloquemos frente ao mundo de maneira tal que modificamos não apenas seu estado ôntico, mas também ontológico. E essa é a pegada. As alterações ontológicas provocadas na humanidade com o desenvolvimento tecnológico, sobretudo nas definições sobre o conhecimento, é que nos mantém nesse estado despreocupado em relação a esse próprio desenvolvimento. Temos nos tornado nossos próprios algozes e sequer consideramos que por mais que o pensamento tenha permitido ao homem se tornar um ser sofisticado, ainda é graças à Terra que comemos. Muito boa a sua provocação Estéfano!

  4. Muito interessante, de fato, a provocação! A simbologia de Prometeu e os seus avatares, tão antiga e tão atual, é sem dúvida objeto de interminável reflexão. Acredito que o fato dele roubar o fogo dos deuses e entregar aos homens pode sim ser relacionado com a descoberta da técnica e o “avanço” vertiginoso da tecnologia. Mas – o que dizer sobre o castigo horroroso perpetuado ao titã? A penitência de Prometeu advém talvez por ele ter entregado aos homens algo para o qual eles não estavam preparados. De um modo semelhante, quicá, Deus expulsa a humanidade do paraíso por ter comido o fruto proibido. Eis o paradoxo do “progresso” tecnológico: como alguém disse acima, ele é uma faca de dois gumes – basta observar os acontecimentos do Século XX. Em outras palavras: parece que ainda temos muito caminho a percorrer para merecer esse presente! Pessoalmente, tenho fortes dúvidas sobre se algum dia seremos capazes de merecê-lo; contudo, também acredito que não temos alternativa senão trabalhar para tornar-nos minimamente dignos dele. Ética, cultura, valores, auto-conhecimento e auto-controle… talvez o verdadeiro progresso tenha a ver essencialmente com isso.

  5. Olá Estéfano, adorei o texto. A cada linha, ficava mais curiosa para saber o desfecho da história…
    Muito legal a ideia de utilizar um mito para promover essa relexão sobre o desenvolvimento tecnológico.
    Parabéns!

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