Vamos falar sério sobre a Wikipedia

wikipedia

download (1)“E nada de usar coisas da Wikipedia, hein? Se eu achar alguma coisa de lá no trabalho de vocês, é ZERO!”. Quantas vezes, reticentemente, escutei professores falando isso para seus alunos… e muitas vezes me peguei refletindo sobre como foi cristalizado esse preconceito sobre um dos projetos de repositório de conhecimento mais interessantes da internet.

Consigo entender a origem dessa ideia preguiçosa, mas não quer dizer que concorde com a existência da velha “paralisia mental”, que precede todo preconceito ou ideia que se estabelece no senso comum. Isso se deve à impressão estabelecida em seus primórdios, já que o começo do projeto deixou muito a desejar em termos de fidelidade de informações, e a versão Terra Brasilis da Wiki ainda está muito aquém do ideal, se compararmos com a versão em inglês. Mas, veja bem, são 15 anos de trabalho coletivo, anônimo e voluntário, e, de seu início pra cá, a qualidade só tem aumentado. Claro que essa qualidade varia de verbete pra verbete, mas já pode ser comparada às melhores enciclopédias existentes (veja artigo da Nature sobre isso). Portanto, grande parte do professorado se acomodou confortavelmente nessa concepção de que iniciar uma pesquisa pela Wikipedia é começar com o pé esquerdo (disclaimer: nada contra os canhotos, ok?).

Pra início de conversa, recomendo que você leia os termos de controle de qualidade da Wiki e também as informações sobre sua confiabilidade. Leia, reflita e, no link sobre confiabilidade, role até o final da tela… lá você verá que são “apenas” 240 citações ou referências que embasam seu conteúdo e seus argumentos.

Dito isso, creio que fechamos o assunto confiabilidade e, assim, damos um pequeno passo no sentido de eliminar esse preconceito inútil. A Wikipedia é ponto de partida de pesquisa tão bom quanto qualquer outra enciclopédia renomada, com a diferença de ser gratuita e produzida pelo coletivo e, para o educador, isto deve fazer toda a diferença. No final das contas, é pra isso que as enciclopédias servem, apenas como ponto de partida, como primeiro contato, como uma forma de “saber do que se trata”. Quando não se conhece ou se conhece pouco sobre um assunto, nada melhor que um verbete introdutório e uma lista de referências em que podemos nos aprofundar mais.

imagesMas, neste caso, podemos ir além e agora chego no ponto principal do que gostaria discutir… Acho um “tiro no pé” os professores afastarem seus alunos da Wikipedia, alegando simplesmente que ela possui qualidade duvidosa de informações (o que já vimos que é uma inverdade). Eles deveriam instigar seus alunos a aprimorá-la!!!! “Mas…como assim? Desenvolver competências voluntárias, colaborativas, solidárias e executar trabalhos anônimos na internet para o bem coletivo é perda de tempo, e tempo é dinheiro!” Pois é, mas é assim que a enciclopédia foi e é construída: pelas mãos de milhões de voluntários. Mas como isso funciona?

Se você leu o link acima sobre a qualidade da Wiki, já sabe a resposta. Mas como você provavelmente teve preguiça de ler em inglês ou deixou pra depois, vou resumir. A natureza de todo projeto que tem “Wiki” em seu nome prevê e permite trabalho coletivo e o constante controle da qualidade de seus artigos, possibilitando a todos participarem no aprimoramento dos conteúdos e no projeto como um todo. Se alguém, por exemplo, acha algum erro ao ler algo na Wikipedia, é possível fazer a alteração imediatamente – existe uma opção de “editar” acima de cada verbete. Olha que interessante: apesar de você pensar “Ah, mas assim você abre a porta para vermes, trolls, goblins, duendes e ogros se refestelarem nos campos verdejantes do conhecimento”, devo informar que a imensa maioria que edita a Wikipedia trabalha com responsabilidade, para o “bem comum da humanidade” – coisa que esperamos cada vez mais encontrar em nossa cultura tupiniquim ultimamente tão autocentrada, não é mesmo? Mas… errar é humano e persistir no erro é ser mais humano ainda; por isso, o dano causado por essas “laranjas podres” requer constante atenção. Aí é que entra o esquema de controle de qualidade da Wiki.

Grande parte dos esforços dos voluntários da Wikipedia se dá para solucionar questões nesse aspecto. Existe um elaborado sistema habilitado na plataforma para lidar com vândalos, visigodos e afins, na intenção de defender a nossa Urbs Sacra. Uma vez que um novo material (ou alteração) é adicionado, uma multidão de voluntários organizados por especialidades, em vários departamentos, verificam diversas vezes se o conteúdo está dentro dos padrões de qualidade estabelecidos pelo projeto (conteúdo enciclopédico, neutro e verificável). Existem também robôs ativos que fazem correções automáticas, desde as mais simples, como de erros de ortografia, até de sabotagens escancaradas, como depredação ou deturpação de conteúdos. (vide caso recente sobre o que fizeram com o verbete de Paulo Freire)

wikiMas voltemos ao ponto que interessa. Já que estamos defronte a uma plataforma de conhecimento que já está disponível em 250 línguas, que já publicou mais de 5 milhões de artigos (900 mil em português) e que tem seu conteúdo construído por uma comunidade de anônimos, por que os professores não ajudam agregando seus alunos e, além disso, ensinando a eles uma lição para toda a vida? Um trabalho feito por muitas mãos, independentemente de nacionalidade, idade, gênero, ideologia, etc., pode ensinar que cada um pode contribuir com seu pequeno tijolo para a construção dessa torre sem fim, já que o conhecimento aparentemente é infinito(por favor, não vamos entrar em metafísica aqui). Assim aprendemos que um trabalho feito pelo coletivo, para o coletivo, é muito mais satisfatório, educativo, importante e inclusivo que as formas privadas a que estamos acostumados e, muitas vezes, achamos ser a única maneira de se fazer as coisas neste mundo. Trata-se de uma ferramenta extremamente valiosa a ser usada pelos professores, pois envolve aspectos importantíssimos na formação de um cidadão: busca pelo conhecimento, trabalho em equipe e geração de conhecimento.

Portanto, professor, participe e agregue seus alunos ao projeto! Todos temos muito a dar e muito a receber.


Fatos “Post Scriptum” ou o velho “Você Sabia?” ou “Não acrescenta nada, mas é divertido”

– Sexo é o artigo mais popular da Wikipedia, em todas as línguas menos francês e espanhol(bom saber que eles são mais bem resolvidos que grande parte do globo…)
– Em momentos de clima ruim, chuvas e tempestades,  produção de conteúdo na Wiki aumenta consideravelmente
– Não contém anúncios
– Não existe censura aos conteúdos, apenas guidelines, como: enciclopédico, neutro e verificável
– Apenas 31% dos leitores são mulheres
– 69% editam para corrigir erros
– 73% participam do projeto por acreditar no “conhecimento livre”
– A página mais editada da Wiki é a que fala de George W. Bush(e continua sendo editada, pois é um mistério insolúvel)
– O projeto é hospedado e financiado por organizações sem fins lucrativos, como a Wikimedia Foundation, que também administra projetos similares, como Wiktionary e Wikibooks
– É um dos dez sites mais acessados da internet
– Conheça os mapas gráficos dos acessos da Wikipedia
– Não, isso não é uma propaganda da Wikipedia, nem eu trabalho lá. Apenas apoio todo trabalho colaborativo que envolva conhecimento.

 

Sobre a Wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia

Fatos: http://www.dailyinfographic.com/blog/15-interesting-facts-about-wikipedia

http://www.ibtimes.co.uk/wikipedia-day-15-interesting-facts-you-didnt-know-about-online-encyclopedia-1538018

http://thechive.com/2016/01/15/facts-about-wikipedia-for-its-15th-birthday-11-photos/

Controle de Qualidade: https://en.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Quality_control

Confiabilidade: https://en.wikipedia.org/wiki/Reliability_of_Wikipedia

Nature: http://www.nature.com/nature/journal/v438/n7070/full/438900a.html

Outras fontes: http://www.livescience.com/32950-how-accurate-is-wikipedia.html

http://www.pewresearch.org/fact-tank/2016/01/14/wikipedia-at-15/

http://painelacademico.uol.com.br/painel-academico/7111-artigo-sobre-paulo-freire-e-alterado-por-rede-do-governo-federal-e-critica-pedagogo

Sobre André Garcia 8 Artigos
Formado em Sociologia, Mestre em Ciência Política, Especialista em Jornalismo Científico e Doutor em Educação, Profissional da Comunicação e Administrador do Blog Ring.

16 Comentários

  1. Isso mesmo, André! Gostaria de ressaltar a produção colaborativa, tão pouco estimulada pelos professores, além, é lógico, da produção pela wikipedia de um “open knowledge”, isto é, um conhecimento aberto.
    Mas vou retomar o passado para refletir sobre o futuro: provavelmente esses mesmos professores, quando ainda na escola, pegavam o tema “imposto” pelo professor e iam atrás de uma enciclopédia de papel e copiavam o que encontravam numa folha de papel almaço a ser entregue para o querido professor.
    Portanto, numa época de acesso restrito à informação, a cópia, pelo menos quando feita “a mão”, não era só permitida como incentivada! Se os alunos de hoje fazem “praticamente” o mesmo, podem ser rotulados de preguiçosos e plagiadores.
    Antes podia, agora não! Então, por uma questão de coerência, não seria justo proibir que os professores usem os corretores ortgográficos de seus editores de textos? Enfim, porque os professores podem usar os benefícios tecnológicos e seus pupilos não?
    Enfim, percebe como o uso da tecnologia perpassa posições tradicionais do processo de ensino e aprendizagem, seja para a produção e utilização de um conhecimento aberto como para toda a estrutura funcional da escola?
    De qualquer forma, os seres humanos sempre tiveram e sempre terão medo do desconhecido. E, por mais presente na atualidade, a tecnologia é uma inovação que nos faz confrontar com áreas desconhecidas de nosso próprio conhecimento. Será que algum dia a Humanidade perderá esse medo atávico? Será que realmente devemos perder esse medo?

    • Isso em partes mas existe uma pegadinha aí. No caso da copia de enciclopédias ou materiais publicados em papel, para se fazer uma cópia é preciso, pelo menos, ler o conteúdo que “você está passando a limpo” no seu trabalho, vamos dizer assim. No caso da tecnologia, basta o CTRL+C e CTRL+V, não é preciso nem ler. Se antes era ruim, porque não existia contribuição de conteúdo do aluno, pelo menos havia a leitura, agora nem isso (no caso de cópias). Mas existem meios de contornar isso como, por exemplo, permitir o CTRL+C e V mas exigir um comentário ou análise do aluno sobre o conteúdo replicado. Mas existe a velha zona de conforto em se experimentar ou pensar novas técnicas utilizando as novas tecnologias, com certeza. Abs e obrigado pelo comentário!

  2. Meu caro Amigo, a Wikipedia é uma construção coletiva, como você mesmo disse. Aberta para correções, o que a torna mais confiável. O que precisamos é corrigir o que não está certo e valorizar aquilo que é bom. No meio acadêmico é muito criticada, talvez porque muitos não gostam do seu formato. Mas eu também não gosto de um monte de coisas e continuo respeitando. O fato de gostar ou não gostar não deveria ser ponto de partida para julgamentos de qualidade. A Wikipedia tem seus valores e suas qualidades. Também tem muito o que ser aprimorada. Mas está a caminho. E já é dona de muita informação boa e de qualidade.

  3. Excelentes colocações, como todo projeto coletivo tem suas vantagens e desvantagens, mas só o fato de ser uma construção aberta merece nossa atenção e até mesmo envolvimento.

  4. Adorei o texto, confesso que me surpreendia com o “preconceito” ao Wikipédia, para mim é muito útil em assuntos que não sei nem como começar ou quando preciso ajudar meus filhos com a lição de casa.
    Ano passado houve um incentivo da plataforma aos bibliotecários brasileiros em encontrar erros e inserir informações faltantes nos artigos. Dessa forma muitos erros foram corrigidos.

  5. Milhares de vezes foi uma pesquisa na Wikipédia que me forneceu palavras-chave para conceitos que eu pude pesquisar posteriormente em artigos científicos, manuais etc. Mas eu só pude procurá-los nessas outras fontes justamente por essa porta de entrada da Wikipédia. O conhecimento é verificável; cada informação apresentada na Wikipédia pode ser verificada, não devendo ser julgada como não confiável sem que tenha sido lida.

    • É isso aí Marcel, para mim é o mesmo! O fato de existir esse repositório de fácil acesso e gratuito, que nos possibilita essa “porta de entrada” é louvável por si só. Agregue a isso a possibilidade de construir coletivamente este conteúdo e temos uma fórmula interessante de disponibilização livre do conhecimento.

  6. Concordo plenamente. Talvez a Wikipedia seja inclusive uma das manifestações mais meritórias e reais da chamada “globalização”. Se alguma globalização é possível – seria ela outra coisa senão a realização de uma coletividade humana planetária? E é algo mais humano, humano no sentido do termo mais amplo e irrestrito, do que o conhecimento (ou pelo menos a luta pelo conhecimento) e a cultura? A construção global conjunta de uma enciclopédia é uma empresa que os grandes humanistas do passado seguramente aplaudiriam com admiração. Sempre haverão os retrógrados, é inevitável, e também os delinquentes malintencionados. É evidente, ademais, que a Wikipedia dificilmente chegue a superar em precisão e rigorosidade as obras de referência tradicionais (eis a defessa da Britânica, um tanto pedante mas pertinente). Em todo caso, seja mais ou menos boa, o fato é que a Wikipedia está ali, incorporada aos engrenagens culturais de maneira orgânica e provavelmente irreversível.

    Erica: Você disse que ano passado houve um incentivo da plataforma aos bibliotecários para encontrar erros e inserir informações faltantes. Sabe se a iniciativa continua? Trabalho em uma biblioteca no interior. Agradeço se tiver maiores informações ou se puder compartilhar diretamente o link.

    André: parabéns pelo artigo! Achei o seu estilo estimulante e o assunto sumamente importante. Pena que o acesso à nature é restrito!

    • Muito obrigado pelos comentários Natália. O que mais me atraiu no projeto é o fato de poder ser construído a muitas mãos, o que eu acredito que deveria ser o próximo passo para as organizações sociais, na contramão do individualismo exacerbado e desagregador que temos percebido neste seculo e no passado. No meu ver, é apenas um “treino” para formas superiores de produção social, seja ela conhecimento ou bens ou o quer que seja. De certa forma, a cultura (quando não é imposta via engenharia social) é produzida desta forma, mas mais organicamente e sem um método aparente. Que sirva como modelo para reflexão.

      • Muito interessante o conceito de “formas superiores de produção social”. O que causa uma certa vertigem é observar que graças ao formato “wiki” e “open” parece se desenhar uma espécie de “coletividade intelectual”: como se a humanidade fosse “uma só mente” trabalhando, para além das individualidades pensantes. Tem alguma bibliografia a respeito dessa ideia? Quanto ao “treino” necessário para que a situação não desande: é uma tarefa imensa, mas concordo que é a melhor, quiçá a única, alternativa. E estamos trabalhando para isso. Ânimo!

        • Oi Natália,
          Grande parte das obras medievais e anteriores não possuíam autoria definida ou verdadeira. Muitos autores não colocavam seus nomes ou até colocavam nomes de personalidades importantes que tinham relação com aquele conteúdo. A relação com individualidade era outra. Me parece que este fenômeno se repete nos fenômenos wiki e semelhantes. O trabalho individual não é destacado, mas sim o resultado final e os membros participantes usam “alias” e não suas verdadeiras identidades-é o oposto do que acontece nas redes sociais, espelho que reflete nossa realidade social extremamente individualista e egotista. Sobre essa forma de produção social, tem um verbete na Wiki que mostra isso: https://en.wikipedia.org/wiki/Commons-based_peer_production

  7. É, André. Temos um caminho longo contra hábitos adquiridos, tais como esse de falar mal da Wikipedia. Concordo com você que um trabalho pode ser iniciado com as informações que se encontram ali. Aliás, sem medo de ser julgada, eu sou uma das que inicia assuntos novos com uma olhadinha nela.
    Para além de criticarmos a confiabilidade da plataforma, penso que os professores deveriam se preocupar bastante com o famoso CTRL C, CTRL V e enfatizar que pesquisa não deve ser feita em somente uma fonte.
    Pode parecer lugar comum para quem está habituado com a prática; porém, a leitura de várias fontes, iniciando pela Wikipedia, caso queira, deve ser salientada pelo professor porque muitas vezes o aluno não internalizou ainda seu roteiro de pesquisa. Cada um desenvolve o seu; porém, alguns passos são fundamentais para que a pesquisa seja de qualidade e confiável. Um plano de aula sobre metodologia que usasse os critérios da metodologia da WIKI para falar sobre metodologia de pesquisa para alunos de todas as séries e idades (com as devidas adequações) poderia ser uma forma descontruir construindo.
    Fiquei muito feliz em encontrar essa sua postagem aqui. Vida longa e gregária a Wikipedia!!!!!

    • Olá Andressa, obrigado pelo comentário.
      Concordo plenamente. E a ideia de criar wikis para disciplinas é uma excelente metodologia de colocar em prática o trabalho coletivo e a pesquisa diversificada. São repositórios que, além de ensinar conteúdo e competências, ficam para outras turmas aproveitarem e até mesmo serem compartilhados com o público em geral.

3 Trackbacks / Pingbacks

  1. Vamos falar sério sobre a Wikipedia - Blogs Científicos - UNICAMP
  2. Por um bom conceito de tecnologia - LANTEC
  3. Tecnologia em Sala-de-Aula – Cidadania & Cultura

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*