A Ciência do Aprendizado

Este post pretende, e nada além disso, trazer à baila os resultados de um relatório realizado nos Estados Unidos, mais especificamente pelo Deans for Impact – uma organização norte-americana sem fins lucrativos que tem como objetivo preparar professores no sentido de aprimorar o processo de ensino-aprendizagem. Esta organização utiliza dados do ensino baseado em evidências, que tem fundamento nas ciências cognitivas.

É interessante trazer esses resultados, tanto para fins de publicização, como para iniciar um debate crítico e construtivo sobre o assunto. Nada encontrei em língua portuguesa que falasse do documento, portanto creio que seja útil, de alguma maneira, trazer para o nosso vernáculo esses resultados, suscitando assim alguns momentos de reflexão.

Antes de mais nada, o grupo de pesquisadores deixa claro que, em sua visão, “o professor é a grande instância de decisão dentro de uma disciplina, já que ele, a princípio, conhece os alunos e também o conteúdo”. Baseado nesse conhecimento, ele deve tomar as decisões sobre as práticas em sala de aula. No entanto, eles acreditam que a “arte do ensino” deve ser baseada fortemente nas “ciências do ensino”, para que os professores possam alinhar suas decisões com os resultados científicos apresentados no documento, ou seja, na compreensão de como se dá o processo de aprendizagem pelo indivíduo.

Portanto, o objetivo do estudo foi identificar “como os estudantes aprendem” e, no decorrer do texto, seis pontos importantes são destacados. Vamos a eles:

1 – Estudantes aprendem novas ideias e conceitos ao relacioná-los com algo conhecido anteriormente, para depois transferi-los para sua memória de longo prazo.

Isso demonstra a importância da construção prévia do conhecimento. Recomenda-se, então, que o professor garanta ao aluno o conhecimento pré-requisito, se deseja que a aprendizagem ocorra a contento. Avaliações diagnósticas e de processo servem para ajudar o docente a detectar lacunas e necessidades de seus estudantes.

2- Estudantes fixam melhor as informações quando são oferecidas muitas oportunidades de exercícios práticos, em que elas são recuperadas da memória de longo prazo, em momentos nos quais exista reflexão e trabalho sobre essas informações.

Recomenda-se aqui atividades, mesmo que repetidas, que sejam deliberadas, significativas, que possam cimentar o aprendizado e também facilitar aos alunos rememorar conceitos no futuro, permitindo a eles lidarem com problemas cada vez mais complexos. Para ajudar os estudantes a focar no significado do conteúdo, indica-se tarefas que requerem explanação (por exemplo, sobre causa e efeito) ou a aplicação de significado ao conteúdo (por exemplo, com uso de recursos mnemônicos). 

3 – Habilidades para pensamento crítico e solução de problemas são desenvolvidos através de feedback (retorno ou retroalimentação) e dependem fortemente do conhecimento prévio e do conhecimento adquirido na vida escolar.

Um currículo sequencial e interligado pode ajudar o aluno a construir seu conhecimento escolar, permitindo aos estudantes resolver problemas cada vez mais complexos. Professores podem ajudar a desenvolver essas habilidades ao oferecerem aos seus alunos o retorno de suas atividades de forma clara, específica e focada na tarefa em questão e no aprimoramento realizado, em vez de focar no estudante e sua performance. 

4 – A fim de que os estudantes transfiram suas habilidades aprendidas para novas situações, eles precisam compreender profundamente tanto a estrutura do problema como o contexto.

Por exemplo, antes de exercer o pensamento crítico sobre uma situação, é preciso que o estudante conheça profundamente seus aspectos. Quanto mais conhecimento o aluno tiver sobre um problema específico, mais fácil será para ele reconhecer os aspectos importantes sobre esse problema, e como resolvê-lo.

5 – A motivação dos estudantes depende de uma série de fatores sociais e psicológicos.

Numa situação ideal, os estudantes ficam motivados e engajados com o conteúdo de uma disciplina quando estão fascinados por ela. Motivação é um fenômeno complexo e depende, dentre outras coisas,  que o aluno se sinta parte da turma ou do curso, e de que seus esforços sejam recompensados, ou que tenham algum valor para si. Cabe ao professor integrar os indivíduos, trazê-los para o ambiente da matéria e fazer com que eles se sintam confortáveis, pertencentes àquele lugar e capazes de superar os desafios apresentados.

6 – Concepções errôneas sobre o aprendizado, muitas delas dominantes na área da educação, não devem determinar como o currículo é desenhado ou como as aulas são ministradas.

Muito frequentemente, professores tentam (ou são obrigados a) modificar seu modo de dar aula por causa de estilos de aprendizagem dos estudantes, para favorecer o aprendizado do lado direito ou esquerdo do cérebro, ou porque o conteúdo é inapropriado para causar certos desenvolvimentos cognitivos.  Ainda que esses conceitos pareçam bastante familiares, nem todos concordam com sua precisão ou efetividade. Recomenda-se aqui que os professores procurem seguir pesquisas comprovadas em evidência, em vez de seguir teorias polêmicas ou com pouco consenso dentro da área acadêmica. 

Como aprendemos – resumo esquemático*

Algumas considerações

Trouxemos, muito resumidamente, algo que foi elaborado e sintetizado através de dezenas de pesquisas na área das ciências cognitivas e, portanto, vale a pena dar uma olhada nas referências apresentadas no documento original. O trabalho foi elaborado pelo Deans for Impact em colaboração com o pesquisador Daniel Willingham, um cientista cognitivo da Universidade de Virgínia e revisado por um comitê composto por professores, educadores, cientistas cognitivos, etc.


Mas… e a tecnologia?

Agora, respondendo a pergunta do porquê colocamos um texto sobre ciência cognitiva num blog que fala de Educação e Tecnologia e, em nenhum momento, falamos sobre tecnologia.

Antes de mais nada, fica a dica:

Nenhuma tecnologia serve ao professor se ele não compreende como se dá o processo de ensino e aprendizagem, trata-se de um conhecimento fundamental para a formação docente e deve vir antes de qualquer outro que tenha relação com metodologias de ensino ou tecnologias aplicadas à educação.

Além disso, acreditamos que dá para tentar adicionar alguns itens aos princípios apresentados por essa pesquisa, ainda mais porque outros estudos já mostram que o uso constante de tecnologias pelas novas gerações já causa impactos no funcionamento de seus cérebros…. Mas essa discussão fica para o próximo post.

E você, o que achou desses princípios?


Fonte: The Science of Learning*

Revisão: Elaine Canisela

Sobre André Garcia 8 Artigos
Formado em Sociologia, Mestre em Ciência Política, Especialista em Jornalismo Científico e Doutor em Educação, Profissional da Comunicação e Administrador do Blog Ring.

4 Comentários

  1. Parabéns André pelo post! Além de muito bonito e informativo, está fácil de ler. Não sou da área de educação, mas estou envolvido com a formação de jovens médicos no HC da UNICAMP. O que muitos docentes tem reclamado é que a nova geração, que cresceu já com acesso a internet desde a adolescência, não consegue manter o foco. Eles perdem o interesse muito rápido. E aí, algum conselho?

    • Olá Alessandro! Obrigado por passar por aqui!
      Além dos pontos citados aqui, que já dão algumas dicas importantes, é recomendável mudar a dinâmica da aula. Nossa geração se formou ou foi formada para suportar longos períodos sentada, assistindo longas aulas do tipo “palestra”. Lembre-se que fomos acostumados a uma dinâmica de recepção de informação mais lenta e mais focada. Não existiam múltiplas mídias ou tecnologias concorrendo pela nossa atenção. Sendo assim, o espaço e o tempo eram outros, o espaço era único e o tempo, menos acelerado.
      Sabendo que as novas gerações cresceram num cenário múltiplo e frenético, fica difícil para o professor ocupar este espaço.
      Por isso que tem se recomendado muito a utilização de métodos de aprendizagem significativa e ativa para poder manter o aluno interessado na matéria.
      Nessas metodologias o papel do professor muda de “transmissor do conhecimento” para “orientador para a busca do conhecimento”. E estas metodologias são potencializadas quando aplicadas utilizando-se da tecnologia.

    • Com certeza, Takata!

      Esse artigo aborda as técnicas de aprendizado mais efetivas utilizadas por estudantes. Um estudo pragmático, mas bastante útil para demonstrar quais práticas individuais dos alunos resulta numa melhor compreensão e fixação do conteúdo. Não conhecia o material, mas vou utilizar em futuras postagens. Obrigado pela dica!

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