A internet mudou nossa forma de pensar

Atualmente, somos testemunhas de um novo tipo de evolução, estimulada pelas novas tecnologias. Pelo menos, é isso que afirma Michael Harris, em seu livro “The end of Absence” (O fim da ausência, em tradução livre, pois a obra ainda não tem versão em português).

O autor levanta questões sobre os possíveis impactos, comportamentais e neurológicos, da nossa contínua conexão digital e pergunta “o que poderia acontecer se não tivermos mais nenhum momento de ausência?”. A intensidade de uso, frequência e dependência já atinge altos níveis junto à população mundial, como mostra essa reportagem da TAB-UOL. Talvez tenhamos chegado num ponto onde é quase impossível viver desconectado (quando uso esse termo, uso no seu sentido técnico e material = com acesso contínuo à rede).

Um dos problemas levantados pelo autor, neste livro que já ganhou diversos prêmios, é o fato de que ninguém mais vai saber o que é estar sozinho, com suas reflexões ou momentos de introspecção. Em todos os instantes, o indivíduo se encontrará próximo a um dispositivo ligado à rede. Isso significa viver num estado contínuo de atenção parcial. Para Harris, as consequências podem ser funestas, já que isso implica desde a falta de tempo para se lembrar de memórias, a mudança de processos cerebrais, até a escassez de condições propícias para um processo criativo. Isso tudo só seria possível num momento de ausência (absence) – já que são nessas situações que podemos entrar em estados plenos de introspecção, reflexão, análise, síntese, autocrítica e criação, sem interrupções ou distrações.

De modo impressionista, podemos perceber isso se observarmos, ao nosso redor, o quanto se tornou comum e aceito a constante visualização dos smartphones, em momentos de interação social e até mesmo em situações perigosas como ao dirigir um automóvel (sem falar no surgimento de uma nova categoria de risco, que são os “caminhantes distraídos” – já começando a ser uma preocupação de saúde pública).  Existe uma angústia geral em relação ao uso dos portáteis, à falta de bateria, ao tempo de espera das respostas, à falta de sinal de wi-fi. Uma ansiedade que veio com a multiplicidade de recursos e a facilidade de acesso. Criamos um mundo acelerado demais para nossa mente suportar, sem que haja efeitos colaterais.


A que ponto chegamos: “Digital Deadwalkers” – uma campanha de conscientização da Academia Americana de Cirurgiões Ortopedistas

Outro ponto levantado pelo autor é a questão da  automatização das decisões humanas, suportada pelos gadgets e seus aplicativos. Cada vez mais estamos passando as decisões para as máquinas, que nos assessoram sobre qual comida escolher, qual produto consumir, de qual atividade cultural participar, com quais grupos se relacionar e até qual indivíduo consumir namorar. As facilidades, a tendência em aderir à zona de conforto, a “lei do caminho de menor resistência” levam Harris a deduzir que, com a oferta de tecnologias (gadgets e apps) e com a comodidade e nossa passividade como consumidor, nosso cérebro progressivamente se torna “viciado” em estar conectado. Dessa forma, ele considera que a opção voluntária pela ausência ou desconexão se torne cada vez mais difícil e rara.

É importante a compreensão dessa posição do autor em relação às tecnologias, já que agora, depois duma longa introdução, quero discutir algo que nos interessa: em que isso afeta os processos de ensino e aprendizagem?

Para o autor, uma forma de pensar menos frenética, lenta e ponderada está em vias de extinção. Apesar do cérebro humano ser o mesmo desde nossos primeiros ancestrais, há 40.000 anos, a cada geração que passa as conexões se dão de forma diferente, já que as experiências são únicas a cada época (sem falar em termos de região, cultura, personalidade, etc). Em nosso cérebro, os bilhões de neurônios são conectados entre si por trilhões de sinapses e deles vem nossa capacidade de memória, avaliação crítica de conceitos e reflexão. Nosso cérebro é tão plástico que possui a capacidade de se reconfigurar para funcionar melhor no ambiente que lhe é dado. A repetição de estímulos produz um fortalecimento em circuitos neurais, enquanto sua falta causa enfraquecimento (daí vêm os famosos exercícios de palavras-cruzadas, caça-palavras e sudoku recomendados pelos geriatras).

Para sustentar suas afirmações, Harris usa os estudos de Gary Small (UCLA – EUA), que pesquisou a neuroplasticidade cerebral e apresentou a primeira evidência em 2008 de que nossos cérebros são reorganizados pelo uso da internet.

Uma das conclusões do estudo é que existe um grande potencial para o uso da tecnologia para estímulo cerebral em idosos, se a aplicação for adequada. A outra é a verificação de que esse estímulo pode ter efeitos perniciosos, dependendo da faixa etária e intensidade. A complicação inerente no processo é que, se por um lado os jovens se encontram cada vez mais capacitados a lidar com o mundo digital, devido à exposição, por outro lado isso significa uma perda em relação à capacidade de lidar com o mundo real, que possui respostas mais lentas, menos homogeneizadas e mais “tediosas”.

No livro The Shallows, Nicholas Carr também aborda esse assunto e desenvolve o argumento para demonstrar que a internet nos transforma em seres mais capazes do pensamento superficial, em detrimento do pensamento profundo (o que é diretamente relacionado ao aprendizado superficial e profundo). Depois de muito tempo à frente de nossos computadores ou portáteis, aprendemos a absorver mais informação, mas menos eficientemente: pulamos a metade de baixo dos parágrafos e mudamos o foco constantemente. “Quanto maior e melhor o software, menor e pior o usuário”, conclui (tradução livre).

Isso nos leva ao ponto crucial de todo este texto, que é a preocupação com as crianças e novas gerações, já que são com elas que nós, educadores, devemos lidar diariamente.

Em 2012, a Universidade de Elon, em parceria com a “Pew Internet and American Life Project” lançou um relatório que compilava as respostas de 1,021 analistas, críticos, experts, professores e administradores sobre sua caracterização dos “nativos digitais” (millennials).  A síntese dos resultados demonstra que as novas gerações tratam a internet como sendo seus “cérebros externos”, além de apresentar a capacidade de decisão rápida — mesmo que sejam superficiais e com a característica da ânsia por recompensa imediata. A conclusão geral do relatório vai no sentido de reconhecer que os jovens desenvolvem habilidades conformantes com a nova realidade digital, como a capacidade de multitarefa e rapidez de decisões e ações, mas aponta para o perigo da grande incapacidade de manter o foco em atividades de longa duração, possuir pouca paciência e dificuldade para refletir profunda e longamente sobre assuntos complexos. Sem falar nos estudos que também apontam para a diminuição da empatia com o uso excessivo da comunicação digital.

Por fim, Harris conclui sua obra dizendo que estamos nos tornando escravos das ferramentas que nós mesmos criamos, produzindo dependências e necessidades que, quando não satisfeitas, produzem alto grau de frustração e ansiedade. Vejo que, realmente, o uso excessivo das tecnologias está gerando problemas para os educadores (pais e professores): o vício do uso, a ansiedade, a impaciência e a perda gradual de habilidades importantes, como a reflexão profunda, a empatia, a capacidade de suportar a ausência e a falta, a introspecção, etc.  Tais fatores fazem com que o método tradicional de ensino não funcione mais. Longas aulas expositivas, contando com um aluno passivo sentado em sua carteira não se adequam a essa nova realidade.

Para tanto, novas metodologias ativas vêm sendo desenvolvidas e testadas, em conjunção com tecnologias digitais específicas, para que o educador possa se aproximar dessa nova realidade. Os professores ainda procuram recuperar o atraso em relação a essa nova lógica e a essa “nova conformação cerebral”. Muitos ainda nem percebem que isso aconteceu e está acontecendo, tendo uma impressão apenas de que seus alunos não têm mais foco ou não prestam mais atenção em sala de aula. Mas a realidade está aí e temos que nos requalificar e nos adaptar.

Related imageCreio, diferentemente de Harris, que esse não é o fim da reflexão, da introspecção e do pensamento profundo, mas sim uma transição. Estamos vivendo o “boom” da democratização do acesso e justamente por isso é excessivo, pois é uma novidade tecnológica e ainda estamos na fase de consumo frenético e ansioso da infinita possibilidade da internet. Talvez tenha acontecido algo parecido quando surgiu a televisão, o rádio… Mas, como toda moda ou movimento de massas, ela passa, e, provavelmente, chegaremos num momento de equilíbrio, onde escolheremos, sem dificuldades ou ansiedade, quando estar e quando não estar conectados. É uma questão de tempo. Ainda é muito cedo para decidirmos se iniciamos o apocalipse zumbi ou não….

Revisado por: Elaine Canisela


Leitura complementar: “Porque não paramos de olhar para nossas telas”

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Sobre André Garcia 8 Artigos
Formado em Sociologia, Mestre em Ciência Política, Especialista em Jornalismo Científico e Doutor em Educação, Profissional da Comunicação e Administrador do Blog Ring.

6 Comentários

  1. Caro André, obrigado por compartilhar tais estudos. Gostaria de concordar e acreditar em suas últimas colocações, mas estou inclinado a pensar que não se trata de modismo, assim como a tv não foi. Ela, a seu tempo, foi instrumento poderoso de alienação, como ainda é para milhões que não tem acesso à internet. Incontestável o poder dela e dos poderosos do setor televisivo na condução de nosso país.
    Mas, apesar do tom pessimista, sem dúvida se apresenta um enorme desafio a nós, educadores: como e quanto se atualizar e adequar nossas antigas metodologias às digitais.
    Mais uma vez obrigado pelo compartilhamento!
    Abraço!
    Leopoldo

    • Pois é Leopoldo…. é difícil manter a positividade quando se enxerga uma tendência de piora… mas precisamos acreditar no melhor e trabalhar por ele. Sou inclinado a ter uma visão pessimista também, ainda mais quando vemos que a alienação não depende tanto da disponibilização de informações e das tecnologias, mas sim do seu mau uso. Veja, no caso da televisão, sempre tivemos programas de alto nível e bom conteúdo (TV Cultura, p.ex.), mas sempre se consumiu mais novela e futebol. Com a internet acontece a mesma coisa, temos um acesso tremendo a todo tipo de qualidade de informação e onde os acessos são maiores? Então a questão é mais de hábitos de consumo,educação, formação intelectual e vícios de acesso do que problemas com a tecnologia ou liberdade de acesso à informação. Como resolver isso? Creio eu pela educação.

  2. Muito interessante considerar o fenômeno não desde o ponto de vista das relações interpessoais mas desde o do indivíduo e da poluição da sua solidão. No geral, fala-se sobre o empobrecimento dos laços afetivos e sua banalização (vide Bauman), mas o fato de que a ansiedade virtual afete a realidade subjetiva é igualmente alarmante. Se com a TV demos um passo na alienação, pareceria que com as novas tecnologias da comunicação estamos indo ainda além. Não podemos negar que a superficialidade, a falta de concentração e compromisso, o anonimato, o voyeurismo, etc., e inclusive uma nova configuração do nosso cérebro e da nossa natureza (caso a haja), som traços terríveis da cultura contemporânea.
    Mas não podemos ser derrotistas. Como educadores e atores sociais devemos – porque podemos- aproveitar o potencial da realidade emergente e fazer o esforço por manter sob controle minimamente a nova condição na qual nos toca viver. Se não nos autodestruirmos no meio termo, talvez esta nova condição venha a significar um novo salto evolutivo.

    • Oi Natalia, obrigado pelo comentário!
      Creio que tratam-se de escolhas, algumas conscientes mas, grande parte, inconscientes, já que a maioria apenas segue o fluxo de comportamento padrão. Não se questiona o por que e quando, apenas se faz. Se houvesse esse questionamento por parte dos indivíduos, provavelmente o uso das tecnologias se daria de forma moderada e seria apenas mais um instrumento, dentre outros, para facilitar nossos afazeres. O problema é que tornou-se parte intrínseca do dia-a-dia, modificando hábitos, costumes e, muitas vezes, causando o sofrimento, ou seja, o efeito contrário ao desejado. Então podemos ver que, o ponto crucial da questão é a autonomia do indivíduo em relação ao que o cerca. Creio que nem todos somos atores sociais no sentido de emancipação e liberdade, acho o termo vago e irreal. Poucos agem, muitos imitam.

  3. Grandes desafios temos nessa fase de transição onde “boom” descolado de reflexão é que dá o tom e o ritmo do uso da tecnologias nesses dias… Que tenhamos sucesso para o apocalipse zumbi não seja necessário!!! Hehe

    PS: particularmente curti demais a proposta de escrita desse post!

  4. Parabéns pelo post! Muito elucidativo! Essa discussão deve ser levada para as escolas e professores e também ser discutido junto com pais e alunos.

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