Um começo de crítica à EaD no Ensino Superior Brasileiro

O Brasil tem experimentado um crescimento vertiginoso nas matrículas dos cursos de ensino superior a distância. Mas não podemos apenas olhar esse crescimento com um otimismo ingênuo, com o pensamento de que as TDICs afinal estão sendo devidamente incorporadas nos processos de ensino e aprendizagem; tampouco devemos supor que as potencialidades de metodologias de EaD estão sendo aproveitadas. Na verdade, precisamos olhar esse fenômeno com calma e reflexão, para não dizer com um olhar crítico.

Como este assunto é muito abrangente, eu apenas pretendo iniciar tal discussão neste post. Bem, vamos lá, então!

O crescimento e a expansão da EaD neste contexto

Antes de falarmos especificamente sobre EaD no ensino superior, precisamos falar do âmbito maior a ela, ou seja, do ensino superior brasileiro. Nesse caso, é importante ressaltar que tivemos um número crescente nos acessos à graduação, sobretudo durante os anos de governo Lula (lembrando que neste blog não temos interesse ou intenção alguma em falar sobre política, por mais que tivéssemos muito mais acessos se falássemos disso, hehe).

Durante o período do governo petista, duas frentes de ensino superior ganharam força: o ensino superior público, a partir dos institutos federais (que foram abertos em sua maioria na região Nordeste do País), e o ensino superior privado (programas como Prouni e FIES alavancaram o acesso às universidades particulares).

É óbvio que esse processo de expansão tem seus custos. Por exemplo, os institutos federais, nesse momento de corte de gastos públicos, passam por uma profunda crise financeira, ou seja, houve um rápido crescimento, o que, sem uma estrutura de suporte, prejudica diretamente a qualidade do ensino nessas instituições (claro que existem outras variáveis para explicar os problemas experimentados pelos institutos federais, e claro que nem tudo se resume a problemas; muita coisa boa acontece!). Já nas faculdades particulares, os problemas são outros. Talvez um deles seja a baixa titulação dos professores, afinal, até aquela ocasião, tínhamos mais vagas para mestres e doutores do que tínhamos de mestres e doutores.

Sendo assim, umas das estratégias adotadas pelas universidades particulares para potencializar a sua captação de alunos foi adotar cursos na modalidade 100% a distância (EaD). Para termos uma ideia melhor desse crescimento, segue:

Alguns dos motivos para esse crescimento exponencial serão abordados brevemente, no decorrer de post; mas, caso os argumentos dados não sejam suficientes, lembre-se de que esse é apenas um post de muitos. Então calma, e vamos em frente.

(Ah, se você quiser saber mais sobre o “boom” do crescimento da EaD, clique aqui!)

Alguns problemas

Talvez alguns dos problemas na forma com que a EaD no ensino superior brasileiro é utilizada se dão por conta do propósito por parte das instituições de ensino e por conta da expectativa dos próprios alunos. Vamos por partes:

  1. Uma proposta de massificação

Primeiramente, temos de diferenciar a metodologia recomendada pelos teóricos para ensino superior de MOOCs. Enquanto estes têm o propósito pedagógico de oferecer um conteúdo de forma massificada, em nada esta metodologia é adequada para cursos 100% a distância. (Para começar a saber mais sobre MOOCs, recomendo a leitura de um outro post deste blog, clicando aqui!)

Desse modo, entendendo a diferença entre os MOOCs e as metodologias utilizadas comumente na modalidade 100% a distancia de cursos superiores, a pergunta que fica é a seguinte: por que utilizamos uma metodologia que visa à massificação da educação em vez de uma metodologia adequada? A resposta está no propósito da EaD neste contexto, ou seja, a EaD tem por objetivo (ou preocupação principal) captar o maior número possível de novos alunos, e isso a partir de um custo financeiro cada vez menor.

Assim, ao se abrir mão de uma metodologia adequada para cursos EaD na modalidade 100% a distância, abre-se mão da qualidade do ensino.

  1. A “sucatização” do professor

Uma consequência direta desse processo de massificação é a “sucatização” do papel do professor. Nos casos extremos, a figura do professor é removida do processo de ensino e aprendizagem proposto, sobrevivendo no máximo um “espantalho” do professor na teleaula. Ou ainda, em outros casos, o professor é renomeado como tutor, e isso, muitas vezes, não tem relação com questões teóricas e papéis, mas apenas com redução de custo.

  1. Uma proposta equivocada em seu conceito pedagógico

Assim, o fato é que a maioria dos cursos oferecidos na modalidade a distância em nosso país não utilizam metodologias propostas pelos grandes teóricos da EaD. Ou seja, substitui-se o devido conceito e a proposta pedagógica da EaD por uma que visa a apenas lucros maiores, em detrimento da qualidade do ensino.

Para finalizarmos essa conversa por enquanto…

Bem, mesmo sendo um post curto (muito simples, inclusive), é fácil percebermos que a forma com que utilizamos a EaD no ensino superior brasileiro é muito problemática. Também fica claro que o objetivo da EaD não tem relação com qualidade de ensino (e nem acesso ao ensino, apesar disso ter acontecido), mas simplesmente tem por meta o aumento de lucro.

No entanto, não pensem que a EaD não pode ser bem utilizada e ter resultados excelentes em termos de qualidade de ensino. Pelo contrário! Mas isso é assunto para outra postagem.

Revisado por: Elaine Canisela

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Sobre Ricardo Augusto da Silva 11 Artigos
Muito prazer, sou o Ricardo aluno do mestrado no programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Unicamp, onde pesquiso dentro do eixo Educação & Tecnologia. Também faço parte do Grupo de Pesquisa do LANTEC.

2 Comentários

  1. Olá. Muito bom encontrar seu blog. Estou fazendo doutorado em Educação com o tema da EaD nas comunidades ribeirinhas do Amazonas. Realmente há um abismo enorme entre o discurso e a prática de EaD, principalmente em regiões onde sequer existe sinal de internet.

    • É nosso prazer tê-lo aqui! Seja bem vindo e sinta-se à vontade: participe de nossas discussões sempre que puder.

      Nosso objetivo é justamente ampliar a troca de conhecimentos por meio do blog. E as opiniões, além de bem vindas, sempre contribuem para a reflexão!

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