Sêneca, Vygotsky e a importância de espaços de convivência

Quem dá aula sabe: como professores, queremos que os alunos, mais do que absorver conteúdos, desenvolvam determinadas competências, como proatividade, capacidade de trabalhar em grupo, entre outras. Com isso, surge a seguinte questão:  “Qual a importância dos espaços de ensino, sejam eles físicos ou virtuais, em tal desenvolvimento?”. Para começar a responder a essa pergunta, vamos articular um pouco de Sêneca com Vygotsky, e expandir a ideia de espaços de ensino para espaços de convivência.

Então, vamos lá! Mas vamos por partes.

Sêneca e suas cartas a Lucius

Sêneca é um filósofo grego da Antiguidade Clássica que residiu em Roma. Durante sua vida, ele produziu inúmeros textos, todos em latim. Dentre essas produções, temos 102 cartas trocadas com seu amigo Lucius. A seguir, o trecho de uma delas, a sexta carta:

“Sendo assim, mandarei os mesmos livros para você, para que você não gaste muito da sua atenção enquanto acompanha aqui e ali o que irá lhe servir, colocarei anotações, para que, prosseguindo no seu caminho, se aproxime daquilo que estou provando/experimentando e contemplando/admirando. Contudo, lhe será mais útil uma voz viva e a convivência que um discurso; convém que você venha aqui, primeiramente porque os seres humanos confiam mais nos olhos que nos ouvidos/no que veem do que no que ouvem; em segundo lugar porque longo é o caminho por preceitos e breve e eficaz por exemplos.

Cleantes não teria se pronunciado sobre Zenão se somente tivesse ouvido: esteve presente na vida dele, examinou a fundo os seus segredos, observou-o, se viveria pelo seu próprio sistema [de ensino]. Platão e Aristóteles e a multidão de sábios, todos os que iriam em direções diferentes, extraíram de Sócrates mais dos costumes/hábitos que das palavras; foi o companheirismo/a amizade e não a escola de Epicuro que fez de Metrodoro, Hermarco e Polieno grandes homens. E não o convido/não insto para isso somente para que aproveite mas para que seja de proveito/para que se beneficie mas para que beneficie [também]; pois muito nos transformamos um ao outro.”

Em várias dessas 102 cartas, Sêneca está incentivando Lucius não apenas a adquirir determinados conteúdos ou informações, mas certos hábitos, certas posturas. Para isso, Sêneca tem como estratégia muito mais do que indicar bons materiais didáticos [não que ele não o faça; na verdade, ao final de todas essas cartas, Sêneca deixava uma frase de algum filósofo como uma recomendação e um incentivo à leitura, indicando, inclusive, determinadas obras] ou ainda apresentar um conjunto de informações de forma clara e instrutiva [como aliás é comum nessas cartas]: a estratégia seria um relacionamento horizontal com Lucius, e o trecho em questão mostra exatamente isso, uma vez que Sêneca o convida para conviver com ele. E mais: o que Sêneca está apontando nesse trecho é que essa estratégia e sua eficácia não têm origem nele mesmo, mas elas remetem a outros grandes filósofos [quanto a esses filósofos e suas prática pedagógicas conversaremos mais para frente em outros posts].

Outro ponto interessante nesse trecho é a afirmação de Sêneca de que o convívio seria proveitoso não apenas para Lucius, mas também para Sêneca [para aqueles que gostam de Paulo Freire e de sua proposta dialógica, na qual tanto professor quanto aluno aprendem e são transformados mutuamente durante o processo de ensino, provavelmente verão conexões entre eles. Mas esse assunto também ficará para um próximo post].

Vygotsky e a escola

Vygotsky, entretanto, já é mais que conhecido para quem é da área da educação. Dentre suas diversas contribuições, está sua percepção do ser humano como alguém localizado histórica e socialmente, e que, portanto, é em parte fruto das interações dele com o meio e com seus pares. Ou seja, basicamente, podemos dizer que, para Vygotsky, o conceito de interação tem duas vertentes: a interação com o meio (qualquer coisa da realidade) e a interação com os outros (pessoas do seu contexto).

Partindo dessa segunda vertente do conceito de interação de Vygotsky, a ideia da escola passa a não ser apenas um lugar onde o conteúdo é oferecido para os alunos, mas ela também é reconhecida como um espaço de interações entre os alunos e professores. Portanto, é necessário reconhecer que as interações que ocorrem dentro da escola são importantes quando falamos do que está sendo ensinado (não apenas em termos de conteúdo). Vygotsky, a partir disso, trabalha duas ideias: o professor como mediador e a escola como um espaço onde ocorre a mediação pedagógica.

Problematizando um pouco

Por mais que essas ideias apresentadas brevemente aqui tenham definições distintas umas das outras, é possível articulá-las entre si, ou seja, podemos pensar a escola não apenas como um espaço de interação e onde ocorre a mediação pedagógica, mas também como um espaço de convivência, no qual todas as interações são importantes e cujos aprendizados vão além dos conteúdos.

Mas o fato de que não convivemos apenas na escola e com a ideia de aprendizado de Sêneca, de que não aprendemos apenas conteúdos, mas hábitos, posturas, atitudes, etc., tem que despertar em nós algumas questões:

1. Se como professores temos a noção clara de que queremos que nossos alunos aprendam mais que simplesmente o conteúdo, precisamos entender o que é esse “mais” que queremos que eles aprendam.

2. Se entendemos a escola, física ou virtual, como um espaço de mediação pedagógica ou como um local de convivência, onde ocorrem aprendizagens que vão além de conteúdos, resta-nos pensar quais são as características próprias de cada um desses espaços, suas diferenças (até mesmo se essas diferenças existem ou não), para podermos saber os limites (se é que eles existem) dessa aprendizagem que não se trata apenas de conteúdos.

3. Por último, temos que pensar nos limites (mais uma vez, se é que eles existem) que o professor tem com o aluno dentro dos espaços de convivência, sejam eles físicos ou virtuais.

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Sobre Ricardo Augusto da Silva 11 Artigos
Muito prazer, sou o Ricardo aluno do mestrado no programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Unicamp, onde pesquiso dentro do eixo Educação & Tecnologia. Também faço parte do Grupo de Pesquisa do LANTEC.

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