Aprendizagem ativa é mais antiga do que você imagina…

É interessante notar como o termo “Aprendizagem Ativa” se tornou uma pedra angular nas discussões hodiernas sobre educação. Talvez pela impressão geral de que, progressivamente, tem se tornado difícil educar um público cada vez mais imerso em um ambiente digital, assíncrono e multitarefa. Educar não é somente auxiliar no processo de aquisição do conhecimento por parte do aluno, mas também desenvolver valores e habilidades. Isso tudo faz parte do mesmo pacote e, no meu ver, os resultados são indissociáveis. Neste quadro geral, surge como alternativa ao ensino “tradicional”, vertical, linear e passivo – uma saída possível e sua nêmesis.

Enquanto professores, temos de atrair o interesse do aluno por meio de métodos onde a participação ativa é essencial. Ao despertar o interesse, torna-se possível demolir zonas de conforto para que a aprendizagem se torne realmente significativa. Assim, a aprendizagem não é mais enciclopédica ou fruto de memorização a ser posteriormente esquecida. Ela passa a fazer sentido na interpretação do mundo ao redor de cada um. Tal concepção é necessariamente construída de forma colaborativa por toda a sociedade a partir da cultura. Em tal contexto, percebe-se a importância do desenvolvimento de valores e habilidades na educação. Além disso, ressalta-se a importância da formação de cidadãos conscientes e não meros reprodutores de conceitos, nem sempre adequadamente compreendidos. O conhecimento precisa ser integrado para não se restringir a ser apenas o resultado em provas para “passar de ano”.

Uma possível definição para aprendizagem ativa

O termo “aprendizagem ativa” começou a ser utilizado pelo professor inglês R. W. Revans (1907–2003) na década de 1930. Fazendo um breve apanhado das definições do termo, podemos definir a aprendizagem ativa como todo tipo de atividade que vai além do mero “escutar”, isto é, ler, escrever, discutir ou trabalhar na resolução de problemas. Ativa porque a audição, principalmente quando considerada a tradicional transmissão do conhecimento por meio de aulas expositivas, é uma atividade que “pouco” exige mentalmente dos alunos. Além disso, é difícil saber se a atenção do aprendiz estaria voltada ou não para aquilo que está sendo ouvido.

Conforme o tradicional e discutível Bloom (1956), a aprendizagem ativa deve engajar os estudantes em atividades reflexivas de ordem superior. Mas quais são as atividades reflexivas de ordem superior? São aquelas que exigem a elaboração do pensamento: análise, síntese e avaliação. Seria uma constante reflexão sobre a prática, sobre a adequação à realidade do que estiver sendo aprendido. Dentre tantas outras definições com variações e detalhamentos, ir além do escutar é basicamente uma definição ampla e facilmente aceita.

Estudos atuais sobre aprendizagem ativa

Existe uma série de estudos discutindo sobre as evidências da eficácia da aprendizagem ativa. A literatura mostra que, em geral, existem ganhos diferenciados de acordo com seus métodos, aplicações e formas. Portanto, a utilização desses métodos requer reflexão, devendo ser utilizados com muito critério. Vejam o artigo de Michael (2006), com uma visão positiva, ou o de Prince (2004), mais moderado.

Clique na imagem para artigo completo de Freeman et al (2014)

A aprendizagem ativa e seus diversos métodos (veja 101 exemplos aqui) são uma mistura de práticas novas e antigas. Ainda que nossos professores não usassem abertamente este termo ou nem tivessem consciência de que estavam aplicando a aprendizagem ativa, se fizermos um retrospecto sobre as atividades educativas que realizamos durante todo nosso processo de formação, formal ou não, perceberemos que, em diversos momentos, muitas atividades se enquadram em algum dos exemplos citados na literatura: trabalhos em grupo, trabalhos de pesquisa, seminários, jograis, etc.

Entretanto, temos que tomar cuidado com o discurso de que houve um tempo de trevas no processo de ensino e aprendizagem e só agora estamos enxergando uma luz no fundo da caverna que permite deixá-la por meio de um método revolucionário. Apenas criou-se um movimento sobre práticas docentes que passaram a enfatizar o papel do estudante no processo de aprendizagem. Para quem estiver interessado, recomendo a leitura de a aula expositiva ou o ensino ativo. Mas, ao contrapor a aprendizagem ativa à metodologia tida como tradicional, estaríamos realmente tratando de um método revolucionário?

A influência grega na aprendizagem significativa

Para exemplificar de que não se trata de uma ideia nova, podemos retornar ao tempo de Platão (427 A.C.). Em relação à aprendizagem, o filósofo (no diálogo Mênon) usava o termo ANAMNESE associado à insight, reminiscência ou recordação. Para ele, “a alma viu e conheceu toda a realidade, a realidade do outro mundo e a realidade deste mundo”. Assim, para conhecer, a alma precisa extrair de si mesma a verdade que já possui desde sempre. E esse “extrair de si mesma” é “recordar” (anamnese). Segundo tal conceito, ensinar seria fazer com que o aluno extraia de si o conhecimento imortalizado em sua alma. Platão usa este recurso para defender sua tese de que valores morais e algumas noções existem a priori. Mas deixemos essa complicada discussão sobre a origem do conhecimento com os filósofos, já que nosso interesse aqui é outro.

O que realmente queremos discutir não é a possibilidade da existência de uma alma imortal ou se o conhecimento se encontra eternamente, latente, em nosso ser, mas como o filósofo desenvolve o método de “resgate” do conhecimento: a dialética. O propósito da dialética, em última instância, é substituir uma opinião não elaborada pelo conhecimento verdadeiro, através de insights noéticos. Nos textos de Platão sobre Sócrates, a dialética é comumente associada a uma forma sistemática de perguntas e respostas. Esse é o famoso ‘método socrático’ ou elenchus.

Dialética x Erística

A dialética aqui, enquanto um tipo de diálogo, deve ser contrastada com a erística. Podemos dizer que a erística é um jogo de soma zero (o meu ganho é proporcional à sua perda). Já a dialética, ao contrário, é um jogo onde todos os lados ganham. Na erística, os lados são adversários; na dialética, parceiros. Os participantes, durante o processo dialético, experimentam a felicidade da camaradagem e cumplicidade. Esta relação amigável promove a descoberta, já na animosidade erística ocorre o oposto. Em tempos de polarização das ideias, fica mais fácil perceber o método usado pelas pessoas pra debaterem, certo? Uma técnica dialética é incentivar que cada parte, alternadamente, defenda e critique ambos lados de um assunto em discussão. Os princípios da dialética também podem ser aplicados a “deliberações” internas, promovendo a reavaliação dos próprios conceitos pelo indivíduo.

É recomendável que se leia alguns dos diálogos de Sócrates para entender melhor a dialética e sua aplicação . Afinal, a compreensão pode ficar restrita, ou mesmo difícil de se entender, se diante apenas da definição. Indicamos principalmente a leitura do Mênon que, além de mostrar o diálogo socrático, discute a questão do ensino de valores.

Conclusão

Uma vez compreendida a dialética como método de ensino (veja aqui um excelente trabalho discutindo sua aplicação na educação), percebe-se o quanto ela é uma forma de aprendizagem ativa, já que todos os participantes do diálogo devem se esforçar para refletir sobre o objeto, para a construção do conhecimento comum. Parte-se do senso comum sobre o objeto em questão e, utilizando análises, conhecimentos anteriores e argumentos críticos, chega-se à síntese. Contudo, esta será sempre inacabada, aberta a novos processos dialéticos, socialmente elaborados. Neste sentido, a titulo de conclusão, deixamos uma citação de Ferrari (2014), que analisa o conhecimento no Mênon de Platão:

Não há dúvidas que a concepção de anamnesis (…) tenha também a função de delinear um modelo alternativo de aquisição do saber, um modelo no qual o componente ativo do discente, isto é, do aluno, seja plenamente valorizado. (…) Conforme este modelo alternativo, um mestre não pode ser simplesmente uma fonte de conhecimento, um mero transmissor, mas deve se mostrar como um estimulador; da sua parte o aluno não pode proceder como mero contentor, mas deve assumir um papel ativo no processo de aquisição do conhecimento e, portanto, da virtude.

Realmente, não existe nada de novo abaixo do sol, principalmente quando se tem coragem de abandonar as cavernas do conformismo – mas essa é uma outra história platônica

P.S.: Agradecemos ao colega de Blog Cássio Riedo pelas adições, correções e melhoramentos, sem quais este texto não teria saído do “prelo”.

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Formado em Sociologia, Mestre em Ciência Política, Especialista em Jornalismo Científico e Doutor em Educação, Profissional da Comunicação e Administrador do Blog Ring.

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