O contexto da roteirização de vídeos educacionais

Roteiro
Roteiro

Atualmente, as mudanças tecnológicas se impõem e se refletem cada vez mais na organização social. Cada vez mais as competências digitais são exigidas para a busca de informações em diferentes fontes (ZAIDAN, 2011). Por exemplo, o vídeo tornou-se o formato preferido na internet para a aprendizagem e o consumo de todo tipo de conteúdo (VIDMONSTERS, 2018). Assim, considerando a utilização de novos formatos de acesso às informações pela Educação, a roteirização adquiriu importância relevante na produção e na transmissão do conhecimento.

Percebe-se uma mudança radical no modo como as pessoas se relacionam entre elas e com toda e qualquer informação. A escrita, que revolucionou o modo de pensar e dominou o suporte para o conhecimento por séculos, perdeu a predominância na transmissão do conhecimento. Para Kenski (2003), a aprendizagem passou a ser caracterizada por novas condições de acesso às informações, as quais se apresentam em constante atualização. Dessa forma, com o surgimento das tecnologias de informação e comunicação e da digitalização, as imagens e a não linearidade ganharam importância. Segundo Zaidan (2011, p. 193), cabe à Educação “a responsabilidade de buscar novos instrumentos para preparar e integrar os sujeitos às inovações tecnológicas”.

É importante considerar que a aprendizagem, em todos os tempos, sempre foi mediada pelas tecnologias disponíveis em sua época (KENSKI, 2003). Juntamente com a ampliação das possibilidades de comunicação por meio de equipamentos como o telefone, a televisão e o computador, alterou-se a forma de viver e de aprender. Atualmente, a aprendizagem não precisa mais ser um processo solitário de aquisição e domínio de conhecimentos. Ao invés de um corpo sólido de conhecimentos previamente determinados e historicamente datados, o aprender também tornou-se aberto, não linear e mutável. Dessa forma, as pessoas nunca se encontram plenamente formadas.

Mas por que escrever posts sobre roteirização?Roteirização

Identificada a importância das novas tecnologias na produção do conhecimento e do vídeo na internet, além da necessidade da educação de integrar as inovações tecnológicas e a aprendizagem, a roteirização se sobressai como instrumento de organização na produção de vídeos. Por tudo isso, foi proposta no programa PEDmais (Programa de capacitação e formação docente para PEDs) a criação de um vídeo educacional para os pós-graduandos da UNICAMP atuando no PED (Programa de Estágio Docente). Com a intenção dar algum suporte teórico para a elaboração do material, foi-me solicitada uma apresentação sobre a criação de roteiros. A solicitação se justifica pelo trabalho que o GEPES (Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Superior) da Faculdade de Educação da UNICAMP, grupo que participo desde quando entrei no mestrado em 2003, está desenvolvendo com MOOCs (Massive Open Online Course).

Nesse ínterim, preparamos dois cursos para formação de professores num projeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os cursos deverão ser lançados ao público no segundo semestre de 2018. A intenção é que, principalmente professores, leiam livros clássicos da Educação. Um dos cursos aborda o último livro escrito por Emmanuel Kant (2011) “Sobre a Pedagogia”. O outro, “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire (2011).

Entretanto, agora não vou escrever sobre este projeto. Vou apresentar uma etapa muito importante para a criação de vídeos que é a roteirização. Não será uma apresentação teórica sobre roteirização, mas para vídeos educacionais curtos, pois é recomendado que vídeos para MOOCs tenham por volta de 10 minutos. Este limite consegue manter a atenção do expectador sem cansá-lo. E serve também como referência para toda e qualquer aprendizagem online.

ApresentaçãoA apresentação transformada em posts

A apresentação, no formato de palestra, foi feita em 26 de abril de 2018 no Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem (EA)2. O objetivo da palestra foi refletir sobre a roteirização, isto é, a produção de roteiros para a criação de videoaulas. Uma preocupação inicial foi fornecer indicações práticas e não apenas considerações teóricas para a roteirização. Para a leitura não ficar muito cansativa, a palestra foi dividida em 2 posts. Neste primeiro, apresentarei um pouco de teoria para compreender como e porque as imagens e, consequentemente, a roteirização se tornaram tão importantes. Posteriormente, talvez até mais interessante, serão apresentadas algumas dicas práticas para a produção de roteiros curtos, dicas não necessariamente voltado apenas para a roteirização de videoaulas educacionais.

Inicialmente, serão apresentados alguns conceitos básicos que serão úteis para compreender o contexto tecnológico da roteirização. Tentarei refletir sobre como as atuais condições de produção de material multimídia tanto possibilita como cria dificuldades em relação à roteirização. Historicamente os roteiros surgiram como um instrumento de organização da produção audiovisual. Portanto, é importante considerar o vídeo como uma ferramenta de comunicação, na qual todos os sentidos devem ser explorados (CARVALHO, 2017). Atualmente, a roteirização é muito usada e mesmo necessária na produção de qualquer tipo de vídeo.

O que é um roteiro?Roteiro

O roteiro é um documento que descreve uma produção audiovisual, desde o início até seu final. É um instrumento que ajuda a planejar e organizar cada elemento utilizado na produção audiovisual. Sua criação é importante para otimizar o tempo da produção, pois possibilita controlar imprevistos e garantir a objetividade. O roteiro ajuda na hora da gravação e deve ser o mais simples possível (GOMES, 2018). É como um mapa que traça a rota a ser seguida (CARVALHO, 2017).

Os elementos a serem organizados são as cenas, os atores, os diálogos, os tons de voz, os locais de gravação, os equipamentos, as indicações de edição e toda e qualquer característica que compõe uma produção. Ou seja, a roteirização possibilita um controle maior sobre a produção de um vídeo, desde a gravação até a edição.

O formato ideal do roteiro?

BússolaDeve-se reconhecer que não existe um formato ideal de roteiro. O formato pode variar de acordo com as características e objetivos de cada vídeo. Ou seja, não existe roteirização certa ou errada, mas, no máximo, adequado ou inadequado. Por exemplo, se formos um pouco mais específicos, um roteiro voltado para a aprendizagem deve também explicitar os objetivos e expectativas da proposta didático-pedagógica e os pressupostos teórico-metodológicos assumidos em sua produção (Piconez; Nakashima, 2011). Segundo Gomes (2018), mesmo diante de suas características específicas, não se deve esquecer que todo roteiro deve descrever, mesmo que sucintamente:

  1. as cenas e o que acontecerá entre elas;
  2. as falas dos atores, narrações e outros sons;
  3. as indicações para a edição (corte, inserção de títulos, indicação de animação, legendas, etc.);
  4. as características do cenário;
  5. as sugestões de encenação para os atores e de movimentos e posicionamento da câmera;
  6. as indicações sobre a inserção de trilha e efeitos sonoros.

Em relação aos vídeos destinados à aprendizagem, deve-se proporcionar oportunidades para os envolvidos no processo “coordenarem diferentes pontos de vista e solucionarem cooperativamente situações problemáticas [… e] incentivar a formulação de conceituações necessárias para o avanço no domínio do objeto de conhecimento” (PICONEZ; NAKASHIMA, 2011, p. 382). Recomenda-se a apresentação de situações-problemas, a partir das quais os conteúdos escolares possam ser reelaborados de modo a promover discussões entre os alunos, incentivando a reflexão sobre suas próprias opiniões e a de seus pares.

Digitalização 1Como o avanço tecnológico mudou o modo de produção do conhecimento?

Antes de entrar nas sugestões voltadas para a prática da roteirização, é importante compreender melhor o contexto atual da produção e transmissão do conhecimento. Então, é preciso reconhecer a “revolução digital quando a escrita saltou do papel impresso para as telas eletrônicas. Nesse momento a escrita muda de natureza, pois o computador permite a mistura inconsútil das três matrizes da linguagem, o verbal, o visual e o sonoro” (BRAGA, 2012, p. 2). Torna-se cada vez mais importante que a educação, enquanto prática social, promova “a reflexão entre os sujeitos da ação educativa sobre os diversos contextos de que participam e em que interagem, de modo a enfrentar os desafios que a evolução da tecnologia impõe, através das novas formas de apropriação do saber” (BARBOSA, 2012, p. 90).

É preciso reconhecer que o computador tornou-se o novo habitat da escrita. E “não só o discurso, mas também a história, a economia, a política, a cultura, a percepção, a memória, a identidade e a experiência estão todos hoje mediados pelas tecnologias digitais” (BRAGA, 2012, p. 12). A utilização do computador tornou-se cada vez mais onipresente tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. E não há nenhum tipo de computação sem o processo digital, isto é, sem a digitalização. Mas o que é digitalização? É a divisão de uma grandeza física em pequenas frações, mediante valores em intervalos regulares, ou seja, a quantificação do real. Assim, fazendo uso de valores numéricos, o processo de conversão do real (analógico) para o digital torna trivial a manipulação das linguagens a partir de seus elementos concretos, ao invés de suas abstrações (BASTOS, 2003, p. 4).

Digitalização 2Tecnologias digitais

“O digital, ao contrário da comunicação escrita que se encerra no momento da impressão, potencializa o alcance e amplia as opções de leitura, permitindo que o leitor assuma o papel de comando” (TEIXEIRA, 2004, p. 3). Por isso, tornou-se importante compreender os cinco princípios das mídias digitais (BRAGA, 2012):

  1. a representação numérica (princípio fundamental da computação, baseada na díada 0/1);
  2. a modularidade (os elementos podem se juntar em objetos de maior escala sem perder sua identidade);
  3. a automação (a intencionalidade humana pode ser removida pelo menos em parte do processo criativo, por exemplo, ao classificar e buscar objetos);
  4. a variabilidade (nenhum objeto é imutável, podendo existir, ao menos potencialmente, uma infinidade de versões);
  5. a transcodificação (a possibilidade de conversão de um código de linguagem para diferentes formatos de apresentação, inclusive entre diferentes códigos de linguagem).

Esses princípios, resultantes da computação, são importantes porque, antes da digitalização, os suportes das diferentes linguagens eram incompatíveis. Existia o papel para o texto, a película química para a fotografia ou filme, ou a fita magnética para o som ou vídeo. Posteriormente à digitalização, as principais formas de comunicação (documentos escritos, audiovisuais, telecomunicações e a informática) se fundiram. Logo, esse processo passou a ser chamado de “convergência das mídias” e deu origem à multimídia. Dessa forma, signos híbridos, digitalizados, fluidos e reconfiguráveis passaram a circular no espaço das redes mundiais. Da mesma forma, as redes interativas tornaram-se capazes de intercambiar informação através de oceanos e continentes em frações de segundos, ligando corporações, instituições e indivíduos em todo o mundo.

A sequencialidade da leituraLeitura

Ainda que a leitura continue como um fator preponderante, a sociedade contemporânea passou a requerer a apropriação da informação como uma das formas de se obter conhecimento. As pessoas tornaram-se capazes de “atualizar, a qualquer momento, os conhecimentos adquiridos no processo de educação formal e dar continuidade, de forma autônoma e autodidata, ao aprendizado ao longo da vida” (BELLUZZO; FERES, 2011, p. 42). Dessa forma, a digitalização e a convergência das mídias propiciaram a virtualidade.

O leitor deixou de seguir sequencialmente um texto, virando páginas, manuseando volumes, percorrendo com seus passos a biblioteca. Ao mesmo tempo, passou para um estado de prontidão, conectando-se entre nós e nexos, num roteiro multilinear, multisequencial e labiríntico, construído ao interagir com palavras, imagens documentação, músicas, vídeo e tudo o que conseguir encontrar. Dessa forma, as aprendizagens “vão além das capacidades e habilidades adquiridas por meio de memorização e reprodução do que lhes é transmitido e ensinado, como era exigido nas sociedades predominantemente orais” (KENSKI, 2003, p. 53).

Considerações finais

A escrita revolucionou o modo de pensar da humanidade. Assim, impôs uma ordem sequencial ao pensamento. Igualmente, contribuiu até no desenvolvimento da lógica e da argumentação. Contudo, o pensamento, e principalmente as emoções, não ocorrem de maneira sequencial. Os avanços tecnológicos possibilitaram que as imagens fossem revalorizadas na criação e transmissão do conhecimento. Não que não tivessem importância anteriormente, como é reconhecidamente dito que uma imagem vale mais do que mil palavras.

Por outro lado, a tecnologia proporcionou novas maneiras, mais flexíveis, de usar as imagens, permitindo liberar mais facilmente os arroubos artísticos de um número maior de pessoas. Seja como for, as imagens não substituirão as palavras, ainda que não pensemos diretamente com elas. Entretanto, cada vez é mais necessário que a Educação, em todo o processo ensino-aprendizagem, se preocupe com uma formação mais ampla não apenas de um ponto de vista social mas também material.

Se os livros não são mais suficientes para armazenar todo nosso conhecimento (e nunca foram!), cada vez mais precisamos estar preparados para dominar e transmitir as informações em diferentes linguagens, contribuindo para uma construção mais significativa do conhecimento, ultrapassando a simples memorização de conteúdo sequencialmente determinados. Definitivamente o mundo tornou-se mais complexo, bem mais complexo. Mas que os educadores estejam preparados e sejam conscientes de todas as possibilidades atuais, conseguindo, da melhor maneira possível, produzir bons roteiros, roteiros multilineares, multisequenciais e que despertem realmente o interesse dos aprendizes, pois, quer queiramos ou não, somos aprendizes durante toda a vida.

Referências

BARBOSA, C. M. A. M. A aprendizagem mediada por TIC: interação e cognição em perspectiva. Revista Brasileira de Aprendizagem Aberta e a Distância, v. 11, p. 83–100, 2012.

BASTOS, M. Samplertropofagia: a cultura da reciclagem. In: Anais do XXVI CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO. Belo Horizonte: Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2003.

BELLUZZO, R. C. B.; FERES, G. G. Tecnologias e a formação de leitores: desafios na sociedade contemporânea. In: BARROS, D. M. V.; NEVES, C.; MOREIRA, J. A.; SEABRA, F.; HENRIQUES, S. Educação e tecnologias: reflexão, inovação e práticas. Lisboa: Edição dos Autores, 2011. p. 42–71.

BRAGA, M. L. S. Transmutações da escrita em suporte digital. Signo, v. 37, n. 62, p. 02–15, 2012.

CARVALHO, H. Como fazer um roteiro fácil e rápido para vídeos que engajam. Acesso em: 26 abr. 2018.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 50a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

GOMES, D. Roteiro de vídeo: como fazer e exemplos para se inspirar. 5 jan. 2018. Acesso em: 26 abr. 2018.

KANT, I. Sobre a pedagogia. 6a ed. Piracicaba: UNIMEP, 2011.

KENSKI, V. M. Aprendizagem mediada pela tecnologia. Revista diálogo educacional, v. 4, n. 10, p. 1–11, 2003.

PICONEZ, S. C. B.; NAKASHIMA, R. H. R. Equipes de produção de materiais digitais de aprendizagem e os critérios de usabilidade técnica e pedagógica: um diálogo necessário. In: BARROS, D. M. V.; NEVES, C.; MOREIRA, J. A.; SEABRA, F.; HENRIQUES, S. Educação e tecnologias: reflexão, inovação e práticas. Lisboa: Edição dos Autores, 2011. p. 364–402.

TEIXEIRA, P. F. A web como espaço urbano imagético. In: Anais do I CONGRESSO INTERNACIONAL MÍDIAS: MULTIPLICAÇÃO E CONVERGÊNCIAS. São Paulo: SENAC, 2004.

VIDMONSTERS. Roteiro: o guia definitivo de como fazer um plano de vídeo incrível. Acesso em: 26 abr. 2018.

ZAIDAN, R. L. Competências para o acesso a sistemas EaD. In: BARROS, D. M. V.; NEVES, C.; MOREIRA, J. A.; SEABRA, F.; HENRIQUES, S. Educação e tecnologias: reflexão, inovação e práticas. Lisboa: Edição dos Autores, 2011. p. 183–208.

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Sobre Cássio Ricardo Fares Riedo 9 Articles
Doutorando em Educação (FE), psicólogo, químico, programador e analista de sistema. Envolvido com software livre desde os 16 anos qdo começou a programar. Acredita que, com a atual mudança no sistema de produção em direção a digitalização das informações, o movimento de abertura em várias áreas (open source, open science, open data, recursos educacionais abertos, etc.) possa propiciar uma sociedade mais justa e solidária, com uma melhor distribuição dos conhecimentos e mesmo de renda.

3 Comentários

  1. Antigamente eu não dava destaque para roteirização, mas comecei a aprender o quanto ela é importante e esta presente em todos os setores.

    Ao ler esse post, tomei mais consciência disso ainda, obrigado.

    • É, Danilo, a tecnologia, de modo geral, está tão presente em nossas vidas q muitas vezes nem percebemos. Sem dúvida é uma situação q precisamos reflitir (e fazer com q reflitam) muito na área da Educação.

      Abraços e ótimas conexões!

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