Dicas para a criação de roteiros curtos

Roteiro

Este post é continuação da série sobre roteiros e produção de audiovisuais. Vão ser apresentadas sugestões práticas para a elaboração de roteiros curtos. Além disso, também serão apresentadas breves justificativas para a importância da roteirização. Os conceitos teóricos foram apresentados no primeiro post da série. No próximo post será apresentado um glossário com os principais termos técnicos utilizados na roteirização.

Um resumo do post anterior

No post anterior, foram apresentados conceitos teóricos sobre a definição do que é um roteiro: “documento que descreve uma produção audiovisual, desde o início até seu final. É um instrumento que ajuda a planejar e organizar cada elemento utilizado na produção audiovisual”.

Foi apontado que não existe um modelo ideal, adequado a todo tipo de roteiro. Entretanto, foram apresentadas características representativas: cenas, cenário, falas, indicações para encenação, edição, trilha sonora e efeitos especiais.

Foi apresentado como o avanço tecnológico mudou o modo de produção do conhecimento e como as novas tecnologias possibilitaram a digitalização. Portanto, com a informatização, tornou-se possível utilizar simultaneamente diferentes tipos de linguagens (texto, imagens ou filmes), anteriormente consideradas incompatíveis. Assim, signos híbridos, digitalizados, fluidos e reconfiguráveis passaram a circular no espaço das redes mundiais e, simultaneamente, as redes interativas tornaram-se capazes de intercambiar informação através dos continentes em frações de segundos.

Enfim, a sequencialidade necessária à leitura passou a ser redimensionada e o roteiro ganhou cada vez mais importância na produção audiovisual e, consequentemente, na produção de novos conhecimentos.

60 segundos na internet

Portanto, não se pode esquecer a revolução digital no contexto atual, nem a influência da Internet na comunicação interpessoal. Uma das principais justificativas para a importância dos roteiros é a maneira como as pessoas se relacionam com as informações. Pensando em termos quantitativos, vejamos o que acontece em apenas 60 segundos na internet:

60 segundos na internet - 2017
60 segundos na internet – 2017
60 segundos na internet - 2018
60 segundos na internet – 2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As pessoas são bombardeadas com elevadíssima quantidade de informação. Torna-se cada vez mais difícil selecionar o que é importante e o que realmente vale a pena prestar atenção. Entretanto, não se trata apenas de concorrer com a produção do conhecimento virtual, se é que existe tal tipo de conhecimento. De qualquer modo, é preciso despertar a atenção da audiência. Assim sendo, é o roteiro que poderá que garantir uma produção conforme planejado. Ou seja, de uma forma ou de outra, a produção audiovisual, para qualquer fim que se destine, terá de “concorrer” com outros canais para despertar a atenção da audiência. Mesmo em relação ao processo de ensino-aprendizagem, por mais impositiva que seja a visualização da produção audiovisual, o referencial social da comunicação não pode ser deixado de lado.

A digitalização e a cópia

Outro aspecto também muito importante é a cópia. Considerando que um dos principais canais de comunicação atualmente é a internet, não é possível esquecer que “a Internet é construída sobre a cópia. Isso é verdade em um nível puramente técnico: na medida em que pacotes de dados transitam ao redor do mundo, eles são copiados de rede para rede e, finalmente, para o dispositivo do usuário final. Mas também é verdade em termos de como as pessoas usam a Internet: estão constantemente enviando cópias através da rede, quer que sejam trechos parciais ou obras inteiras” (MOODY, 2015).

Portanto, o sucesso do audiovisual não deve ser considerado apenas em relação à sua finalização, mas também em relação à propagação da informação e na maneira como pode vir a interagir com outras produções. Enquanto que anteriormente a autoria era um critério de suma importância, atualmente a viralização das informações também precisa ser considerada. E, para tanto, é fundamental a qualidade e relevância do audiovisual. Mas, agora, deixemos de lado a teoria e vamos para as indicações práticas.

Os roteiros na práticaRoteirização

O primeiro ponto a se considerar é que “sem o planejamento e a produção de um roteiro, o vídeo pode ficar sem direcionamento, sem objetivo e fracassar ainda durante as filmagens” (GOMES, 2018). Seja como for, o roteiro deve ajudar na hora da gravação e ser o mais simples e eficiente possível. Uma boa forma de começar é questionar “para que”, “para quem”, “onde” e “como” será o roteiro.

Detalhando um pouco mais, deve-se pensar com quem o vídeo será feito, onde e quando será produzido. Além disso, deve-se considerar aspectos técnicos sobre como será gravado e quanto poderá ser gasto em sua produção. É sempre importante:

  • anotar as ideias e buscar referências;
  • construir um “briefing”, isto é, o documento onde estarão todas as informações referentes ao projeto a ser executado;
  • escolher o formato adequado do vídeo, definido segundo o objetivo, a mensagem e o público a ser atingido;
  • definir um modelo para o roteiro;
  • escolher um tom adequado de voz para falar diretamente com o público.

O que deve ter nos roteiros?

Todo roteiro deve ter basicamente:

  • uma breve descrição das cenas e o que acontecerá entre elas;
  • as falas dos atores, narrações e outros sons que vão aparecer;
  • indicações para a edição, como cortes, inserção de animações e legendas;
  • definição do(s) cenário(s);
  • sugestões de encenação para os atores e de movimentos e posição de câmera para quem for gravar;
  • indicações sobre a inserção de trilha e efeitos sonoros.

Indicações fundamentais para roteiros mais detalhados

Caso se deseje um roteiro mais detalhado, principalmente quando for preciso utilizar mais recursos durante a gravação, o mesmo deve conter:

  • a descrição das cenas;
  • a descrição de falas, diálogos, narração, etc;
  • a descrição da linguagem a ser usado e do tom da gravação;
  • a descrição do local de gravação e do cenário;a descrição dos personagens, figurinos e posturas destes;
  • orientações para enquadramentos e movimentação da(s) câmera(s);
  • a indicação dos equipamentos para gravação;
  • sugestões para o posicionamento da câmera e da luz de iluminação;
  • a indicação dos equipamentos para edição;
  • indicações de corte e tipos de transição para a edição;
  • a descrição do formato de finalização.

A prática da criação de roteiros

Algumas dicas que sempre devem ser levadas em consideração:

  • escolha um modelo de roteiro que atenda aos critérios de simplicidade mas que possibilite descrever adequadamente todos os aspectos do roteiro;
  • capriche nos segundos iniciais: pode-se fazer perguntas ao público ou começar com frases impactantes, colocando o expectador no centro da ação, assim como aproveitar assuntos do momento;
  • encontre a duração ideal para os vídeos, definindo-a de acordo com o objetivo, o público e o tipo de conteúdo;
  • adéque o tom da mensagem, isto é, tente “falar a mesma língua” da audiência, caso contrário, poderá perder engajamento e mesmo credibilidade perante ela;
  • não tenha medo de escrever e, quando possível, use softwares específicos para roteirização, por exemplo, Celtx, Final Draft ou Scrievener;
  • para finalizar, revise tudo em voz alta e de forma cronometrada.

Modelos de roteiros

Reforçando mais uma vez que o formato ideal varia conforme as características e os objetivos de cada vídeo e que não existe um tipo de roteiro certo ou errado, é possível identificar basicamente três modelos de roteiro:

  • roteiro de texto direto: apresenta o conteúdo em um texto corrido e pode ser utilizado para vídeos majoritariamente narrativos ou com pouca edição, como vídeos tutoriais e educativos;
Modelo de 2 colunas para roteiros curtos
Modelo de 2 colunas para roteiros curtos

 

  • roteiro técnico ou de duas colunas: separe-se uma coluna para o áudio e outra para o vídeo, indicando, até como forma de antecipar o resultado final, a duração de cada cena;

 

 

 

 

 

Modelo de 5 colunas para roteiros curtos
Modelo de 5 colunas para roteiros curtos
  • roteiro de cinco colunas, o qual é mais detalhado, apesar de continuar sendo bastante simples e assertivo. Neste modelo, o roteiro será divido em cinco colunas, onde estarão:
    1. o número da cena;
    2. o texto que será falado;
    3. a indicação da fonte da fala, isto é, quem irá falar;
    4. as “letterings”, isto é, a apresentação dos textos que serão inseridos no vídeo durante a edição;
    5. a descrição da cena.

Indicações para a preparação dos roteiros

Uma vez definido o modelo do roteiro, lembre-se sempre de que cada produção deve ter uma personalidade própria e que deve deixar sua marca pessoal nos vídeos. Além disso, é sempre recomendado levar em consideração alguns aspectos que podem influir na elaboração do roteiro, não se esquecendo de fazer o que for mais natural e confortável para você:

  • organize seu roteiro por cores, isto é, use cores diferentes para indicar os diferentes tipos de informações;
  • faça pesquisas para descobrir os assuntos mais procurados pela audiência, tentando conhecer seus desejos, medos e objeções;
  • procure por outros vídeos similares para melhor compreender a audiência;
  • colete dados sempre de fontes confiáveis;
  • entre no assunto principal nos primeiros 30 segundos;
  • use exemplos sobre como o conteúdo apresentado se encaixa na vida do espectador ou pode resolver algum problema específico;
  • fale com a audiência: use “você” e “seu ou sua” para engajar a audiência;
  • considere a distância razoável da fonte de gravação, de modo que o espectador consiga ver perfeitamente os olhos de quem estiver focado pela lente – ou levemente para o lado, para que possa ler o roteiro;
  • escolha o tom adequado de voz, de preferência em close-up ou plano médio, independentemente da linguagem ser formal ou informal;
  • conte histórias, mas mantenha a coerência e use apenas uma história para ilustrar ponto(s) importante(s);
  • estabeleça um ritmo na narração, sendo recomendado um fluxo de 125 a 150 palavras por minuto;
  • feche o vídeo com uma chamada para a uma ação (Call to Action), pois assim causará uma maior engajamento na audiência;
  • depois de escrito, revise tudo mais de uma vez: corte e reordene o que for necessário, pois geralmente é sempre possível cortar um pouco mais;
  • após das revisões, leia em voz alta, como se você estivesse gravando o vídeo, e veja se o texto se adapta bem à fala.

Indicações práticas para a linguagem a ser usada em roteirosRoteiro - linguagem

Muita atenção com as diferenças entre a linguagem escrita e a falada! Nesse sentido, é importante “naturalizar o texto”, isto é, troque toda e qualquer expressão normalmente não utilizada numa conversa do dia a dia. Ademais, tenha sempre em vista a adequação ao público-alvo. Em síntese, aqui vão alguns conselhos para deixar o texto mais “natural”:

  • evite o uso de “nós” e prefira usar “a gente”;
  • use com muita cautela as repetições de palavras e redundâncias;
  • evite apostos, isto é, informações entre vírgulas, optando por criar uma sentenças novas ou eliminar frases desnecessárias;
  • não use ênclises, isto é, em vez de “propuseram-me” use “me propuseram”;
  • use preferencialmente a voz ativa, por exemplo, “eu vou fazer um roteiro” em vez de “um roteiro será feito por mim”;
  • evite o uso do futuro simples, isto é, no lugar de “eu farei um roteiro”, prefira “eu vou fazer um roteiro”;
  • não use palavras difíceis ou ambíguas;
  • não dê mais de uma informação por frase, pois o espectador precisa de tempo para absorver cada informação;
  • evite usar jargões, frases e expressões muito batidas.

Evite os erros mais comuns encontrados em vídeos finalizados

A produção de vídeos é uma aprendizagem contínua. Assim sendo, aprende-se muito ao analisar criticamente vídeos existentes, preferencialmente os que abordam assuntos similares. De modo geral, os erros mais comuns que podem ser vistos em vídeos curtos são:

  • falta de pesquisa sobre o tema;
  • desconhecimento do público-alvo;
  • diálogos forçados;
  • impossibilidade de realização na prática das indicações do roteiro;
  • falta de objetividade;
  • 30 segundos iniciais fracos ou pouco claros;
  • excesso de clichês;
  • falta de originalidade.

Conclusão

As dicas apresentadas para a produção de roteiros são genéricas. Entretanto, será produzido um roteiro realmente de qualidade tomando-se cuidado com a pré-produção e a escrita do roteiro ao seguir determinado modelo, de forma que fique devidamente detalhado. Além disso, é importante também se preocupar com a identificação do público a que se destina, com a linguagem a ser utilizada e mesmo com possíveis erros.

É importante ressaltar que deve-se sempre ter-se em mente os objetivos e o público a que se destina. Posteriormente, outro aspecto fundamental é a revisão: quanto mais detalhada, melhor o roteiro ficará e mais fácil se tornará a transformações das ideias indicadas em um produto final.

Enfim, que as orientações possam ter colaborado para uma visão global sobre a criação de roteiros e que muitos vídeos de qualidade a atraentes ao público possam ser produzidos a partir dos roteiros criados com a reflexão e adequação das orientações a cada caso. Ótimas produções aos aventureiros digitais!

 

p. s. As dicas foram sumarizadas principalmente a partir das indicações de Carvalho (2017), Gomes (2018) e VIDMONSTERS (2018).

Referências

CARVALHO, H. Como fazer um roteiro fácil e rápido para vídeos que engajam. Acesso em: 26 abr. 2018.

GOMES, D. Roteiro de vídeo: como fazer e exemplos para se inspirar. 5 jan. 2018. Acesso em: 26 abr. 2018.

MOODY, G. The battle to reform 300-year-old copyright law for the digital age. Ars Technica. Jul 2, 2015. Acesso em: 10 agosto 2018.

VIDMONSTERS. Roteiro: o guia definitivo de como fazer um plano de vídeo incrível. Acesso em: 26 abr. 2018.

Doutorando em Educação (FE), psicólogo, químico, programador e analista de sistema. Envolvido com software livre desde os 16 anos qdo começou a programar. Acredita que, com a atual mudança no sistema de produção em direção a digitalização das informações, o movimento de abertura em várias áreas (open source, open science, open data, recursos educacionais abertos, etc.) possa propiciar uma sociedade mais justa e solidária, com uma melhor distribuição dos conhecimentos e mesmo de renda.

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Sobre Cássio Ricardo Fares Riedo 12 Artigos
Doutorando em Educação (FE), psicólogo, químico, programador e analista de sistema. Envolvido com software livre desde os 16 anos qdo começou a programar. Acredita que, com a atual mudança no sistema de produção em direção a digitalização das informações, o movimento de abertura em várias áreas (open source, open science, open data, recursos educacionais abertos, etc.) possa propiciar uma sociedade mais justa e solidária, com uma melhor distribuição dos conhecimentos e mesmo de renda.

2 Comentários

    • Realmente, Augusto César, esta é a beleza e dificuldade do roteiro: transformar palavras em imagens!

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