Aprendendo com a queda

Programa “O Professor” TV Cultura – Sadao Mori e Caio Blat. https://www.youtube.com/watch?v=sTj6tSGs79w&t=49s

 

Como um típico descendente de japoneses, aprender Judô fazia parte do roteiro tradicional. No meu caso, aos dez anos de idade, a motivação especial era me defender das “brincadeiras” dos colegas maiores. A sala de coordenação, com a cartilha dos direitos do consumidor, e o termo bullying eram conceitos inexistentes. Desse modo, a intervenção da escola nas desavenças diárias entre alunos era mínima, vacina eficaz no fortalecimento da autonomia.

Finalmente…a primeira aula

A tão esperada iniciação no Judô aconteceu com muito entusiasmo e ansiedade. Após o aquecimento aconteceu uma sequencia interminável de rolamentos e quedas que consumiram todo o tempo da aula. Assim, a decepção por não aprender o “golpe fatal” só não foi maior que a dor sentida em todo corpo.  Basicamente aprende-se a amortecer uma queda sem que a cabeça se choque contra o solo.

Para aqueles que não conhecem, a primeira lição no Judô é de como cair sem se machucar. Portanto, trata-se de um conteúdo óbvio, uma vez que o objetivo é o de projetar o adversário para que ele caia com as costas.

O tombo da primeira nota vermelha

Assim, nesse esporte, a derrota é inquestionavelmente traduzida pela queda. Uma excelente oportunidade para amadurecer e aprender a se responsabilizar pelas próprias ações, pois não há como culpar o adversário pelo tombo levado. Para dificultar um pouco mais, ao terminar a luta, é obrigatória a reverência oriental de agradecimento pelo aprendizado.

Graças a toda essa construção que o impacto da minha primeira nota vermelha, em Química, foi muito bem administrado. Tratava-se de compreender que o erro, assim como a derrota na luta, era inevitável em qualquer processo de desenvolvimento. Portanto, a nota baixa deveria ser encarada como parte da lição a ser aprendida e não o amargo fracasso irrecuperável.

Água mole em pedra dura…

Outra forte lembrança é a das longas esperas, nos campeonatos, até o momento de nossa luta. Caso acontecesse uma derrota, deveríamos aguardar até que todas as outras terminassem para que pudéssemos sair. Na verdade, as derrotas e frustrações, ao longo dos treinos e campeonatos, foram constantes em toda minha carreira de judoca.

Após um certo tempo de treinamento, finalmente, as vitórias começaram a acontecer. Lembro-me até hoje do momento em

O “golpe fatal” colocado em prática

que consegui conectar, num golpe só, tudo aquilo que aprendi. Todo o conjunto de informações e técnicas fizeram sentido e se encaixaram como as peças de um brinquedo de montar.  Nesse instante, muitos colegas que haviam começado comigo já haviam desistido e, assim, perderam a grande chance de experimentar o saboroso gosto da vitória preparada no fogo baixo da resiliência.

 Intencionalidade pedagógica

Abastecido por toda essa experiência, fico sempre muito confortável ao começar a construção de um conceito pela prática, num laboratório, deixando a elaboração teórica para o momento seguinte. Foi assim que surgiu minha preferência pelos experimentos científicos construídos sob a luz dos objetivos de aprendizagem. No caso, provocar os alunos para que levantem hipóteses e busquem por explicações dentro do próprio repertório. Trata-se de uma estratégia que não aceita as respostas prontas, decoradas, tendo sempre como ponto focal do trabalho o desenvolvimento da autonomia no raciocínio.

Recentemente reencontrei o meu prezado professor de Judô e fiquei muito feliz ao constatar em nossa conversa que, mesmo sendo muito novo naquela época, ele apresentava uma grande coerência entre sua prática e intencionalidade pedagógica.

Habilidades ligadas ao aprender, lidar com frustrações e, principalmente, o desenvolvimento da autonomia, faziam parte da rotina desse esporte. Foram muitos tombos antes de aprender aquele golpe que, no meu entendimento dos dez anos de idade, resolveria o problema com os colegas maiores. Confesso que deixei essa motivação inicial de lado, pois os treinos acabaram abrindo novas e diferentes perspectivas para minha leitura de mundo.

Após uma década de muito treino e obtendo a tão almejada faixa preta encerrei minha carreira de lutador. No entanto, certamente, muito da atitude prática com a vida e em sala de aula vem das quedas no tatame.

Share
Sobre sadaomori 3 Artigos
Canal:http://youtube.com/c/sadaomoriOprofessor - CEO da empresa Sinapsys - Projetos Educacionais, dentre eles: “O Professor” e “Vestibulando Digital” TV Cultura; Revista “Lego Zoom - Projetos de Robótica Educacional” Lego - Divisão Educacional Brasil; “Manual do Franjinha” – Mauricio de Sousa Produções; “Vingança do Professor”- primeiro game educacional do Brasil.

2 Comentários

  1. sim, Augusto, sem dúvida!
    não costumo ser saudosista, mas foi um modo que encontrei para lançar um olhar para a Educação Contemporânea.
    Grande Abraço!!!

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*


Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.