Conectando cérebros para solucionar problemas

Mais uma vez, olha eu aqui falando de cérebros…

Continuando com a série começada no post “Sincronia cerebral em sala de aula..“, vou procurar abaixo apresentar uma pesquisa recente e tecer breves comentários. O artigo em questão é o “BrainNet: A Multi-Person Brain-to-Brain Interface for Direct Collaboration Between Brains”, publicado na revista Nature, em Abril de 2019.

Os Borgs são organizados como uma coletividade interconectada; as decisões são tomadas por uma mente coletiva.

Fiquei interessado pelo artigo porque a BrainNet é a primeira interface de conexão entre cérebros, não invasiva, multi-indivíduo, colaborativa e para solução de problemas. Imagine as potencialidades, imagine as possibilidades na área de educação, mas imagine também…. Pois então, foi isso que me atraiu a ler mais sobre isso…mas vamos lá, como funciona esse mecanismo “Borg“?

De acordo com o artigo, a interface combina Eletroencefalografia-EEG (elétrodos na cabeça que medem atividade cerebral), para leitura de informações (saída) e Estimulação Magnética Transcraniana- EMT (bobina que estimula pequenas regiões do cérebro por indução eletromagnética),  para enviar informações ao cérebro (entrada). A interface possui uma configuração que permite a interação entre três indivíduos, possibilitando a cooperação e a resolução de problemas.

Para fins de experimentação, utilizou-se um jogo similar ao Tetris, de forma cooperativa. A dinâmica toda acontece da seguinte forma: dois dos indivíduos possuíam a função de “Emissores”, tendo seus sinais cerebrais decodificados utilizando-se do EEG. O processo de decodificação consistia na decisão do remetente em virar ou não o bloco de Tetris antes que ele chegasse ao fim da tela, completando ou não a linha (neste jogo, ao completarmos uma linha, ela some e você ganha pontos). Estas decisões eram enviadas via Internet ao cérebro do terceiro indivíduo, o “Receptor”, por EMT e este não podia ver a tela do jogo.  O Receptor então integrava as informações recebidas pelos dois Transmissores e, através da interface EEG, tomava uma decisão em relação a virada ou não do bloco de Tetris. O resultado aparecia para os dois Emissores.

Resumo esquemático da experiência Fonte: Newscientist

Em suma, trata-se então de dois indivíduos “opinando” a um terceiro sobre o que ele deve fazer, mas diretamente no cérebro. Mas não para por aí, numa segunda etapa do experimento, o Receptor recebe o feedback dos Emissores sobre suas decisões, com informações se o resultado foi positivo ou não (pontuação). Neste caso, o Receptor consegue avaliar se está tomando as decisões corretas. Num conjunto de 5 grupos de três pessoas, a margem de sucesso foi de 81.25%, mesmo quando inserido “ruído” entre as comunicações, no intuito de simular Emissores de confiabilidades diferentes.

Vale a pena ler o artigo para ver como toda a experiência se desenvolveu. Agora vamos a breves digressões sobre o que esse tipo de tecnologia permite, abaixo coloco mais perguntas e provocações do que respostas concretas, com objetivo de estimular a reflexão:

a) Muitos cérebros trabalhando para resolver um problema, à distância e sem comunicação verbal. Será que, desta forma, aumentaremos a velocidade e a capacidade de processamento?

b) A experiência apresentou a aplicação da tecnologia à um problema simples, com possibilidade de respostas limitadas. O que aconteceria num caso de problemas que envolvem facetas variadas, complexas e, até mesmo, visões de mundo variadas? (como os problemas éticos)

c) A informação, quando chega ao cérebro pelos mecanismos apresentados, pode ser considerada indução,sugestão ou apenas uma mera informação? O quanto o receptor é livre para fazer suas escolhas?

d) Existe algum efeito colateral desta tecnologia? Nosso organismo é capacitado ou suporta esse tipo de interação sem “sobrecarga” ou algum efeito deletério?

e) O que aconteceria se todos fossem receptores e emissores ao mesmo tempo? Quem tomaria as decisões e decidiria o que é certo ou errado?

Os pesquisadores preparando um dos voluntários.

Em entrevista ao NewScientist, os autores desenvolvem mais as possibilidades futuras deste tipo de conexão. Para Rajesh Rao, pesquisador da Universidade de Washington, a conexão entre cérebros para resolução de problemas é o futuro, a superação dos limites biológicos da evolução humana. Inclusive na entrevista, aparece o termo “hivemind” (mente de colmeia, ou algo parecido), uma consciência coletiva.  “Estamos provavelmente em uma fase pré mente de colmeia”, afirma um dos pesquisadores. Outro afirma que uma de suas aplicações seria no auxílio a pessoas que não podem falar, abrindo-se assim mais uma possibilidade de comunicação. Particularmente, acredito que poderia ser uma ferramenta interessante em atividades educacionais, onde você coloca grupos para “agregarem” seus cérebros em torno de um problema comum.

Mas sabemos que as tecnologias, por si só, ganham sentidos diversos, dependendo de quem as opera e seus objetivos confessos ou não. Isso que é preocupante, pois trata-se aqui de mais um mecanismo que permite coleta de dados e, talvez, controle. Algumas empresas já estão nesta seara de interfaces neurais faz algum tempo, como o Facebook e o DARPA (braço de pesquisa do exército americano), mas seus objetivos públicos tem sido no sentido de buscar uma conexão mais direta entre indivíduo e seu computador, agilizando a operação de softwares e até mesmo possibilitando a criação de conteúdo sem a utilização das mãos. Infelizmente, observando a história recente, não me permito acreditar em objetivos tão nobres. Vejamos o que o futuro nos aguarda.

Formado em Sociologia, Mestre em Ciência Política, Especialista em Jornalismo Científico e Doutor em Educação, Profissional da Comunicação e Administrador do Blog Ring.

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Sobre André Garcia 8 Artigos
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