{"id":219,"date":"2011-02-20T23:45:55","date_gmt":"2011-02-21T02:45:55","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/balamagica\/2011\/02\/a_revolucao_de_1911\/"},"modified":"2011-02-20T23:45:55","modified_gmt":"2011-02-21T02:45:55","slug":"a_revolucao_de_1911","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/balamagica\/2011\/02\/20\/a_revolucao_de_1911\/","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o de 1911"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">\nVoc\u00ea pode estar pensando:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;- Revolu\u00e7\u00e3o? Em 1911? Fernanda enlouqueceu&#8230; tanto tempo longe do blog fez mal pra cabe\u00e7a dela&#8230;&#8221;. <\/p><\/blockquote>\n<p><i>ou<\/i><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;-Bem, houve mesmo uma revolu\u00e7\u00e3o na China em 1911&#8230;. mas como isso estaria relacionado \u00e0 qu\u00edmica ou \u00e0 nanotecnologia? Bala M\u00e1gica por acaso virou blog de hist\u00f3ria agora? Fernanda enlouqueceu&#8230; tanto tempo longe do blog fez mal pra cabe\u00e7a dela&#8230;&#8221; <\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"float: left;padding: 15px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\"><img decoding=\"async\" alt=\"ResearchBlogging.org\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/balamagica\/wp-content\/uploads\/sites\/210\/2011\/08\/rb2_large_gray25.png\" style=\"border:0\" \/><\/a><\/span>  Embora tenha mesmo ficado distante do blog porque meu lado rato-de-laborat\u00f3rio aflorou de forma particularmente intensa nos \u00faltimos tempos, ainda n\u00e3o perdi o ju\u00edzo. Realmente acredito que uma revolu\u00e7\u00e3o aconteceu em 1911, e n\u00e3o foi na China. Ora, vejamos&#8230;. h\u00e1 cem anos uma mulher ganhou o Pr\u00eamio Nobel de Qu\u00edmica. Sim, a admir\u00e1vel pesquisadora franco-polonesa Marie Sklodowska-Curie. Admir\u00e1vel, por ser a primeira mulher a receber o t\u00edtulo de <i>Doutora em Ci\u00eancias <\/i> na Europa e ainda por cima ser a primeira pessoa a receber <u>dois Pr\u00eamios Nobel<\/u> na vida &#8211; de F\u00edsica em 1903, pela descoberta da radioatividade, e de Qu\u00edmica logo depois, pela descoberta dos elementos pol\u00f4nio e  radio. Embora possa parecer, n\u00e3o \u00e9 da revolu\u00e7\u00e3o feminista que quero falar. At\u00e9 porque sabemos que ela aconteceu s\u00f3 uns cinq\u00fcenta anos depois.<br \/>\nA revolu\u00e7\u00e3o \u00e0 qual me refiro come\u00e7ou sem armas, mas com muitos choques. Foi causada pela descoberta de novos espa\u00e7os, mas sem tomada de territ\u00f3rios. N\u00e3o ocorreu por iniciativa de ativistas pol\u00edticos ou de um l\u00edder do povo, mas sim por causa de um pequeno grupo de f\u00edsicos, na solid\u00e3o de um laborat\u00f3rio na Universidade de Manchester (UK).<br \/>\nA saga come\u00e7a cerca de 10 anos antes da data apontada no t\u00edtulo desse post, quando os f\u00edsicos Ernest Rutherford e Paul Villard classificaram diferentes tipos de radia\u00e7\u00e3o conforme sua capacidade de penetrar em objetos e causar ioniza\u00e7\u00e3o. A radia\u00e7\u00e3o foi dividida por esses cientistas em <b>alfa, beta<\/b> e .. adivinhe&#8230; <b>gama<\/b>. Destas, a radia\u00e7\u00e3o alfa \u00e9 aquela que apresenta menor capacidade de penetra\u00e7\u00e3o, podendo ser bloqueada por uma simples folha de papel. Podemos considerar essa radia\u00e7\u00e3o como sendo part\u00edculas com carga positiva e massa determinada &#8211; hoje, sabemos que part\u00edculas alfa nada mais s\u00e3o que dois pr\u00f3tons e dois n\u00eautrons (ou seja, o n\u00facleo de um \u00e1tomo de h\u00e9lio-4). <i>S\u00f3 para situar o leitor sobre o grau de conhecimento da \u00e9poca, ainda acreditava-se que os \u00e1tomos eram formados por um mar de carga positiva contendo regi\u00f5es pontuais de carga negativa (o famoso modelo do pudim de passas sobre o qual ouvimos falar na escola). <\/i><br \/>\nAs part\u00edculas alfa podem ser obtidas a partir do decaimento de brometo de radio, um dos compostos radioativos descobertos por madame Curie. E foi justamente brometo de radio que os f\u00edsicos Hans Geiger e Ernest Marsden utilizaram para produzi-las, num experimento famoso coordenado por Ernest Rutherford em 1909. Ao redor de uma folha de ouro muito fininha mesmo, foi disposta uma folha circular de sulfeto de zinco. A ideia era bombardear a tal folha de ouro fininha com part\u00edculas alfa, pra ver o que aconteceria. O sulfeto de zinco atuaria como uma esp\u00e9cie de filme fotogr\u00e1fico, marcando os locais para onde as part\u00edculas alfa seriam projetadas ap\u00f3s o bombardeio. Qual seria a hip\u00f3tese l\u00f3gica para esse experimento na \u00e9poca? Todas as part\u00edculas alfa (cuja carga era positiva, j\u00e1 se sabia) atravessariam a folha de ouro, porque a carga positiva estaria bastante &#8220;espalhada&#8221; no pudim esf\u00e9rico que constitu\u00eda os \u00e1tomos, de forma que n\u00e3o haveria repuls\u00e3o significativa de carga. Algumas part\u00edculas alfa poderiam sofrer alguns pequenos desvios, se encontrassem pelo caminho as &#8220;passas&#8221; de carga negativa mais concentrada ali presentes.<br \/>\nSurpreendentemente, os cientistas observaram n\u00e3o s\u00f3 o esperado, mas tamb\u00e9m algo completamente bizarro: algumas daquelas part\u00edculas alfa bombardeadas simplesmente ricochetearam de volta! Rutherford interpretou esse resultado no seu famoso artigo de 1911, como sendo causado pela presen\u00e7a de algo realmente muito denso e pequeno no centro do \u00e1tomo, que impediria a passagem das part\u00edculas alfa numa colis\u00e3o de frente. Esse &#8220;algo&#8221; provavelmente teria carga positiva tamb\u00e9m. E as cargas negativas? Bem, elas deveriam estar ali no \u00e1tomo para neutralizar as cargas positivas. No entanto, muitas part\u00edculas alfa n\u00e3o foram desviadas, e <i>se<\/i> topassem com cargas negativas, necessariamente <i>seriam desviadas<\/i> (aquela velha hist\u00f3ria dos opostos, voc\u00ea sabe). Bem, se n\u00e3o bateu em nada positivo, nem em nada negativo, n\u00e3o bateu&#8230;. em nada! Sim, o \u00e1tomo seria um sistema composto por um n\u00facleo muito pequeno de carga positiva e massa consider\u00e1vel, envolto por um gigantesco espa\u00e7o onde estariam os el\u00e9trons de carga negativa e um monte de &#8230;.. vazio. Tal qual uma bola de futebol no meio de um est\u00e1dio, com apenas algumas centenas de pessoas nas arquibancadas, assim seria um \u00e1tomo com seu n\u00facleo e seus el\u00e9trons (os quais estariam nessa regi\u00e3o imensa ao redor do n\u00facleo, chamada eletrosfera). Definitivamente, os dias de analogia culin\u00e1ria para o \u00e1tomo haviam acabado.<br \/>\nAs ideias de Rutherford serviram como base para um novo entendimento sobre a estrutura da mat\u00e9ria. Desde ent\u00e3o, tivemos um s\u00e9culo de descobertas espantosas, e um salto gigantesco no \u00e2mbito da qu\u00edmica &#8211; motivo mais que suficiente para um ano inteiro de celebra\u00e7\u00e3o. Interessante como descobrir tudo e nada onde menos se esperava fez toda a diferen\u00e7a &#8230;<br \/>\n<b>[continua no <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/bala_magica\/2011\/04\/a_celebracao_de_2011.php\">pr\u00f3ximo post <\/a>&#8230;. ]<\/b><br \/>\n<i>(a reflex\u00e3o que resultou nesse post e no pr\u00f3ximo veio de uma conversa sobre hist\u00f3ria da ci\u00eancia, no meio de tantas outras, num desses dias de fevereiro&#8230; obrigada ao Fabiano pela inspira\u00e7\u00e3o e pelas ideias para esses textos)<\/i>\n<\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Proceedings+of+the+Royal+Society+A%3A+Mathematical%2C+Physical+and+Engineering+Sciences&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1098%2Frspa.1909.0054&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=On+a+Diffuse+Reflection+of+the+Formula-Particles&amp;rft.issn=1364-5021&amp;rft.date=1909&amp;rft.volume=82&amp;rft.issue=557&amp;rft.spage=495&amp;rft.epage=500&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Frspa.royalsocietypublishing.org%2Fcgi%2Fdoi%2F10.1098%2Frspa.1909.0054&amp;rft.au=Geiger%2C+H.&amp;rft.au=Marsden%2C+E.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Chemistry%2CNanoscience\">Geiger, H., &amp; Marsden, E. 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