Biologia: Ciência única. Mas currículo único?

Conversas de sala dos professores sempre rendem idéias. Aqui na UNEMAT o fato de não haver uma sala isolada para cada professor às vezes faz falta. Mas quando houver certamente sentirei falta dessas conversas ao redor da mesa.

 

Essa semana discutíamos sobre as diferenças entre os currículos de biologia nas diferentes universidades de biologia do Brasil. Aqui tem professor vindo do Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Santa Catarina, Brasília, São Paulo, Goiás e Acre, portanto temos uma boa amostragem do país. O ponto central da discussão era: Deveriam os currículos de Ciências Biológicas do país inteiro ser iguais?

 

Os pontos de vista eram diversos. Eu vou argumentar em favor de que cada região tem suas particularidades e, portanto, deve ter currículos distintos. Mas não deixarei de apresentar o ponto de vista dos colegas que se opunham. Quem votava por um currículo único achava que há um conjunto de conhecimentos básicos que qualquer um que queira intitular-se “Biólogo” deve ter. Também achava que a formação de um profissional não deveria ser regionalizada, já que alguém que se forme em um lugar poderá migrar para outros locais.

 

Pessoalmente, acredito que é quase que inexorável que os conteúdos de um curso convirjam para a realidade e as necessidades de um determinado local. Foi um problema grande, assim que cheguei ao Mato Grosso, dar aula de peixes sem um conhecimento mais profundo da fauna regional. Na sala havia pelo menos dois pescadores amadores que conheciam os animais bem melhor que eu. Acabei descambando a falar de grupos de peixes marinhos que a maioria nunca havia visto fora de uma lata no mercado.

 

O próprio processo de memorização passa por três mecanismos: associação, sensação e envolvimento. Isso significa que algo só é apreendido pela memória se correlacionamos aquele conhecimento a outros pré-existentes, se percebemos aquele estímulo com nossos sentidos e se aquilo traz algum significado para nós. Como querer que nossos alunos aprendam alguma coisa se o que ensinamos não carrega significado para nossos alunos.

 

Hoje eu tinha que dar aula sobre biodiversidade de peixes, aquela mesma aula que me fez sofrer quando recém havia chegado. Foi tudo muito diferente. A decepção de me ouvir falar de grupos que os alunos não conheciam transformou-se no processamento de conhecimentos mais técnicos a partir dos conhecimentos empíricos que eles obtiveram em inúmeros finais de semana nas barrancas do Rio Paraguai.

 

Fora isso, cada região precisa de um tipo de profissional. No sudeste, onde me graduei, a biotecnologia carrega muitos profissionais. Genética humana, biologia molecular, melhoramento genético são áreas que despontam aí e empregam muita gente. É natural que haja um esforço em formar pessoal apto a trabalhar nessas áreas. O Mato Grosso vem sendo apontado como campeão nacional em desmatamento, contém três das maiores bacias hidrográficas do Brasil (Amazonas, Araguaia e Paraguai) e representa três biomas (Pantanal, Cerrado e Amazônia). Isso faz com que muitos biólogos vão para o lado da conservação. É igualmente natural que façamos aqui um esforço para formar pessoal apto a trabalhar com meio ambiente. Não é deixar de dar conteúdos básicos necessários a qualquer biólogo, mas aprofundar-se em alguns. Mesmo que esse profissional migre, como eu migrei, ele terá bagagem para começar a se adequar ao novo ambiente, só terá que aprofundá-la.

 

Apesar da Biologia ser, certamente, uma ciência única, como propôs o Ernst Mayr, ela é ampla o suficiente para abraçar variações sobre o mesmo tema.

Discussão - 1 comentário

  1. Cledinaldo disse:

    Olá. Eu acredito que, e segundo as últimas portarias do CFBio, os cursos de Biologia de todo país devam seguir uma linha similar. É proposto uma formação básica para as universidades do país com carga horária mínima, porém cada uma deve utilizar suas potencialidades, realidade local e área específica do corpo docente para complementar, através de disciplinas optativas e estágios sua formação de Biólogo. Estou tentando trabalhar a reformulação curricular aqui na UESPI, mas encontro algumas dificuldades. Abraço

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