Manchetes comentadas 11 – Alienígena de 29 kg capturado em Brasília

Eron de Almeida e seu alien de 29 kg

Eron de Almeida e seu alien de 29 kg (www.correiobraziliense.com.br)


Vou aproveitar o encontro brasileiro de ictiologia para soltar uma manchete comentada sobre peixes. Hoje uma nova carpa prateada, desta vez pesando 29 kg, foi pescada no lago Paranoá, Brasília, próxima à estação de tratamento de esgoto da ponte das garças. Os animais foram introduzidos há 10 anos com o intúito de despoluir o lago.
Mas como é que um peixe poderia fazer isso? Uma das principais formas de poluição do ambiente aquático é a chamada eutrofização. Eutrofização é a entrada de um grande volume de matéria orgânica, principalmente fósfatos e nitratos, na água. Esses elementos podem vir da lixiviação de lavouras ou do despejo direto de esgoto nos corpos d’água. Para quem conhece um pouco de cultivo de vegetais sabe que nitratos e fosfatos são excelentes fertilizantes, por isso, assim que atingem a água esses elementos são capturados por vegetais aquáticos grandes, como o aguapé, ou microscópicos, como as algas cianofíceas. As carpas prateadas se alimentam dessas microalgas cianofíceas, levando junto com as algas o fosfato que poluía o lago.
Bem, não é tão simples assim. Caso o peixe permaneça no lago ele um dia irá morrer e, ao se decompor, devolver para o lago todo o fosfato que consumiu. Para que isso não ocorra o peixe tem que ser retirado do lago. Um destino razoável para uma carpa pescadaseria uma grelha, umas rodelas de tomate, cebola, pimentão, coentro, uma cervejinha, quem sabe. Deixar os bichos completarem seu ciclo de vida no lago daria o mesmo que não fazer nada. É o mesmo problema que ocorre com a despoluição pelos aguapés, se há muito fosfato ocorre uma explos”ao populacional dessas plantas, elas morrem, se decompõem e voltam a poluir o lago. Por isso precisam ser retiradas.
Quando esse projeto de despoluição do Paranoá começou eu adorava passear de barco pelo lago. A CAESB, companhia de água e esgoto de Brasília, tinha tanques-rede abrigando os peixes. Nos tanques-rede a água poluída entrava, as carpas tiravam as cianofíceas para se alimentar e a água saía mais limpa. Quando as carpas estivessem grandes o suficiente era só retirar o tanque inteiro do lago e pegar as carpas. Depois novas carpinhas eram colocadas ali e o tanque-rede devolvido ao lago. O estado trófico (grau de eutrofização) do Lago Paranoá melhorou muito desde a década de 90, graças a essa e outras medidas, como o tratamento do esgoto lançado no lago.
Mas um problema ainda fica evidenciado pelas capturas dos últimos dias. Se essas carpas prateadas estão sendo pescadas agora é sinal de que figiram dos tanques-rede. Carpas prateadas são peixes originários da China, de apetite extremamente voraz, possivelmente mais hábil em evitar predadores, portador de suas próprias doenças as quais podem ser muito agressivas contra nossos peixes nativos e talvez imune às doenças dos peixes brasileiros. Isso tudo configura um fenômeno já bem conhecido dos ecólogos: Invazões Biológicas. As espécies invasoras, ou alienígenas, são o segundo maior causador de extinções conhecido graças à sua habilidade em destruir espécies nativas por exclusão competitiva. O problema da poluição no Lago Paranoá pode ter sido bastante amenizado, mas trouxe consigo um novo problema de invasão biológica, essa talvez muito mais difícil de resolver. No lago Paranoá, além da carpa prateada, há tilápias africanas, tartarugas da Flórida e o mexilhão dourado, também da China.

Discussão - 3 comentários

  1. Paula disse:

    Bom… não vai ser o primeiro, nem o último Alien que aparece em Brasília…
    Fato é: quando é que vamos pescar?

  2. Marão disse:

    Ora, ora. Lembro-me, alguns anos passados, do cheiro insuportável que o Paronoá apresentou, provocado, “naturalmente”, por essas algas. Coisa de sentir-se na 215 Norte, quarto andar, onde eu morava. Seria por exemplo, um vexame convidar um amigo para jantar em casa. O vento trazia aquela podridão toda para dentro de casa. Não havia apetite que resistisse. Bibiu, minha filhota, garotinha nquela época, surpreendeu-me com coisas do tipo:-” por que o lago não usa desodorante?” e sempre dizia que lá era a “bunda da cidade”. Invasões biológicas à parte, o que eu quero é respirar…Marão.

  3. Júnia disse:

    Nossa muito legal essa reportagem… foi a melhor até agora.

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