Manchetes comentadas 13- Deu urubu no Sudoeste

visitantes inconvenientes

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Na manhã de ontem vi no Bom dia Brasil enquanto perdia a fome pelo meu café da manhã a invasão dos urubus num bairro residencial de Brasília. As aves usam os prédios como poleiro para ficar de olho em um aterro sanitário a alguns quilômetros esperando pelo lixo fresco levado pelos caminhões. Na verdade já conhecia a história já que meu pai mora em um dos prédios dali, tendo por ocasião escrito o poético texto que transcrevo abaixo em sua homenagem.

A ave preta e de maus agouros é lancinante não pela sua periculosidade mas pela representação da sujeira – símbolo do fúnebre.  Os urubus eram meus conhecidos nos primórdios de minha infância no velho Piauí. Lá estavam elas voando em círculos a mais de mil metros de altura. Rondava o velho bairro do matadouro onde se abatiam animais para abastecerem a população teresinense. O vôo em círculo daquelas aves de rapina era sinal de que em baixo havia vísceras não aproveitáveis. Se presentes em algum outro local significavam haver por lá algum bicho morto, cuja carne em decomposição atraía moscas azuis onde depositavam seus ovos.

Recordo-me também dos velhos filmes de faroestes com John Wayne, xerife e paladino da justiça, e também do imbatível Kirg Douglas, ora como vilão ora como homem da lei. Eram esses os nossos heróis, o “Rambo” da criançada dos anos 1950. E em qualquer cowboy que se prezasse, onde predominava a matança, lá estavam essas aves repulsivas sobrevoando em círculo e em perseguição, junto com o xerife e seu parceiro, os foragidos, sempre à espreita de saboreá-los tão logo fossem mortos. Alguns dos bandidos seriam levados para a delegacia e julgados a morrer na forca; outros, baleados,  ficavam caídos pelo caminho, para serem comidos pelos carnívoros.

 O menino e tantos outros pirralhos as observavam de longe e meio amedrontados porque tais aves representavam a morte e o luto.  No cemitério, sempre algum urubu pousava sobre sepulturas. Esses símbolos nos remetem às fantasias que habitam o imaginário da criança: o medo da perda dos pais e da impotência perante o mundo assustador. Os urubus sempre simbolizaram o que mais nos assusta: a morte!

Na medida em que fomos crescendo também os assustávamos com nossas baladeiras e espingarda de ar comprimido. Ah! Pobre de nós que tentamos nos livrar dos urubus tal qual fazemos quando reprimimos uma angústia.

Para manter afastadas as angústias despendemos tanta energia em reprimi-las que nos tornamos presos desta manobra. No entanto, quando podemos enfrentá-las, isso nos liberta. Só conseguimos mudar o que aceitamos, e não nos livramos tão-somente evitando o que rejeitamos. É como tentar afundar uma rolha. O sentimento de aversão aos urubus nos remete a nossas histórias, às nossas tentativas encobridoras de experiências dolorosas. Também essas estão sempre por perto, rondando, à espera de pousarem sobre nossos “corpos” ou sobre nossas consciências. Continuam denunciando a sujeira e o doentio de uma sociedade em decadência onde o “lixo” está cada vez mais próximo. 

Por tudo isso, as leis nos amparam tanto e a tantos, inclusive as indesejáveis aves de rapina, que paradoxalmente algumas vezes nos sentimos desamparados. Até quando essas carnívoras “peçonhentas” vão nos incomodar?

Nossa maior tristeza é que não temos a visão dos urubus e não enxergamos de longe nem de tão perto. Plagiando o carnavalesco Joãozinho Trinta, ainda não percebemos o que nos traz uma sociedade que sobrevive: “o luxo e o lixo”.
Por José Renato.

Discussão - 2 comentários

  1. Igor Santos disse:

    Magnífico!
    Ele escreve regularmente?

  2. Marão disse:

    Reminiscências à parte, o que poderá realmente explicar tal comportamento dessas aves? Acasalamento e nidificação, já que aparecem em casais nas reportagens televisivas? (Pouco provável, não sei se é a época e se iniciaram o ninho)Por que não surgiram antes, logo quando da construção do prédio, que remonta uns dez anos ? Por que só agora? Um morador telou todas as aberturas, já que não seria prudente deixar o seu neném de colo exposto ao risco da vingança dos urubus, contra a cegonha. Os inconvenientes são inúmeros, desnecessário dizer. Mas falar abobrinhas e evasivas como o representante do IBAMA fez na entrevista, sem sugerir qualquer atitude ou medida efetiva, é ainda mais desnecessário. Tenho certeza que se ele lá residisse, daria um “jeito”. Não creio, como assegurou o técnico, que outras catartídeas retomassem o lugar dos atuais visitantes. Nesse caso, somente uma solução engenheril, um tanto radical, resolveria a questão – implosão.

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