Ciência Cotidiana 8 – O que é que há com o chocolate?

À minha amiga Ale e minhas duas filhas por empréstimo: Dani e Paolla

Tinha Passado incólume pela páscoa, como me exilei com meu pai e minha mulher nos confins do Mato Grosso para fazer ecoturismo estava distante de qualquer jazida de chocolate que os instigasse a me presentear com um daqueles ovos embalados em papel colorido e visualmente tão atraente. Não teve jeito, essa uma colega me encontra no corredor e tira duas barras infinitas em calorias para mim. Ah meus quilômetros de corrida, essa semana terei que acrescentar uns cinco extras!
Por que o chocolate é tão irresistível? Deve ter alguma coisa de valor adquirido e de simbologia, mas eu, como sempre, vou para o lado mais biológico e menos cultural da coisa (Bah, como se cultura não fosse o resultado de fatores biológicos!). Talvez a resposta resida há uns 12 mil anos, em nossos cérebros paleolíticos. Naquela época conseguir alimento era algo tremendamente complicado, ainda mais alimentos que nos dessem um bom aporte de energia, como açúcares e gorduras, dois dos principais componentes do chocolate. Nosso cérebro tem, desde então, um mecanismo para nos premiar com uma bela sensação de bem-estar quando adquirimos estes alimentos ricos em açúcar e gordura pela injeção de endorfina, um opióide natural, na corrente sanguínea. Desta forma somos estimulados a sempre repetir o comportamento, igual a um cãozinho que obedece aos comandos do dono para ganhar um biscoito. Nos nossos cérebros o sistema de recompensa fica localizado na amígdala, duas estruturas em forma de amendoins localizados fundo dentro do encéfalo. O pior é que hoje alimentos ricos em gordura e carboidratos são abundantes, o que gerou a moderna epidemia da obesidade.
Além disso, o chocolate é um verdadeiro coquetel de substâncias capazes de alterar o humor. A primeira delas, e melhor reconhecida, é o triptofano, um aminoácido essencial (não produzido pelo corpo) que é o principal componente do neurotransmissor serotonina. A serotonina é a substância responsável pela sensação de serenidade, reduzindo drasticamente a ansiedade. Outras substâncias encontradas no chocolate são a cafeína e a teobromina, que atuam aumentando a capacidade de concentração, a disposição e o metabolismo. Por outro lado, a concentração de cafeína em um copo de coca-cola ou uma xícara de café ou chá é muito maior do que a de uma barra de chocolate. A terceira substância química encontrada no chocolate que pode ter efeitos psicotrópicos é a anandamida, um canabinóide (isso mesmo, similar à maconha) naturalmente presente no cérebro e potencializado pela ingestão de chocolate. Tenha em vista, porém, que para ficar chapado de chocolate é preciso comer alguns quilos da guloseima. A última das substâncias atualmente conhecidas no chocolate e que podem ter efeitos neurológicos é a feniletilamina, ou PEA. Ela atua como uma anfetamina e está na mesma classe de produtos que antidepressivos, estimulantes e alguns alucinógenos. Contudo, seus efeitos ainda não são plenamente conhecidos. O que se sabe é que a maior parte da PEA é degradada por enzimas antes que ela chegue ao sistema nervoso central, o que evita sua ação psicotrópica maior.
As barras estão na minha bolsa, esperando pela geladeira de casa porque o estado físico típico do chocolate no Mato Grosso é o líquido. Cuidando das calorias o chocolate tem até diversos benefícios à saúde. Mal posso esperar para comer o meu. Feliz páscoa atrasado!

Discussão - 5 comentários

  1. Chloe disse:

    Gostei das informações!
    Claro, que só por estar lendo-as já tive meus sentidos aguçados e corri comer uma trufa de especiarias, pois é melhor alimentar o humor do que alimentar a inveja (das suas barras, rs…)
    THX…
    ( )’s.
    C.

  2. Marão disse:

    Caramba! Estamos todos pavloviando as duas barrinhas do Bessa. Explicações científicas muito bem colocadas entre elas e nós. Vi na TV um especialista afirmando que a quantidade máxima que podemos ingerir, por dia, são míseras 30g.Não ligo muito para chocolate, ainda bem que ele não falou de cerveja. Mas me ligo na Páscoa com todos os sentidos, os nossos cinco (ou já descobriram mais?!) e os outros. Gostei da mistura de cultura com fatores biológicos, até então não pensara nisso. Achava que cultura biológica era apenas criar paramersos ciliados em folhinhas apodrecidas de alface.Mas não o é, faz sentido. Também imaginava a PEA altamente influenciável somente pela saúde econômica do País, mas agora sei que ela tem, na verdade, um nome horroroso e é degradante em todos os sentidos. O tal especialista também afirmou que não se deve guardar chocolate em geladeira pois perde as “propriedades”. Agora, convenhamos, coelhinho botando ovo ou galinha orelhuda, isso já é demais, pira qualquer baixinho! Todavia, acho que a associação entre coelhinho da Páscoa e o chocolate é a cor. Nós também somos atraídos pelo pigmento. E a coprofagia é responsável por isso, qualquer psicanalista explica. Faz sentido…

  3. Ana disse:

    Senti uma certa ironia no ar… Tá ficando pessoal, te cuida guri!!!
    hahaha
    Mas tudo bem, até gostei do texto!
    beijo

  4. Igor Santos disse:

    Quando criança eu comi algumas dezenas de ovos num dia (sério) e tive “entoxicação alimentar”.
    Fiquei muito doido, suando profusamente, tonto, quase alucinando e tremendo.
    Passei um ano sem comer chocolate (até a páscoa seguinte, quando me deram apenas um ovo).

  5. Mr. Bhingo disse:

    Parece que todos estão de acordo que o chocolate nos remete ao desejo, ao prazer, a alucinação e, como disse Marão, a cor possivelmente nos induza à regressão. Tim Maia que o diga: Chocolate, chocolate, chocolate eu só quero chocolate. não quero rapé, não quero cocaína, me liguei no chocolate. Sendo assim, coloque o coelho no divã que Freud explica! A noção de compulsão à repetição está no centro de “Além do princípio do prazer”. Se o que nos rege é o princípio do prazer e por outro lado nos deparamos com o princípio de realidade, bem diria o Bruxo Libidinoso(Dr. Freud): se não for você… é chocolate que eu vou comer!

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