Fugere urben

Numa dessas conversas de botequim com o amigo Alexander Turra, hoje professor do IO USP, concluímos que tudo na vida é composto de três aspectos: vontade, oportunidade e disponibilidade. Aparece um amigo seu oferecendo uma ferrari novinha pela bagatela de 100 mil reais (oportunidade), você sempre quis uma ferrari, é fascinado pela máquina (vontade), mas vendendo tudo o que tem não consegue juntar mais do que 45 mil. Falta a disponibilidade. Outro casal de amigos ganhou um cruzeiro em um navio turístico com direito a acompanhantes e convidou você (oportunidade), você tem mesmo uns dias de férias para tirar do trabalho (disponibilidade), mas a simples menção de um navio já te deixa verde de enjoo e tostar no sol no meio de madames que mais parecem um show-room de plásticas não é exatamente sua definição de diversão. Falta a vontade. Nos dois casos a ação não se efetiva, as mudanças não ocorrem se não houver o tripé vontade-oportunidade-disponibilidade.

Nunca fui muito chegado em grandes cidades (vontade), quando me mudei para São Paulo para estudar valeu muito a pena por causa da instituição formidável que havia me acolhido. Assim que terminei o mestrado (disponibilidade) não via a hora de sair da megalópole, mas primeiro tive uma oportunidade de emprego lá. Como não surgiam convites de outros lugares fui ficando, aprendi muito na vivência de sala de aula, no contato com os alunos e na experiência de estar empregado. Um dia, dois anos depois, descobri um concurso no Jornal da Ciência da SBPC para a Universidade do Estado de Mato Grosso, não vacilei. Me inscrevi, estudei feito um condenado e preparei documentos e aulas para a avaliação didática à exaustão. Surgira a oportunidade que eu tanto esperava.

jcsbpc.jpgAqui em Tangará da Serra a vida é bem mais pacata. Descobri isso no dia que comprei um sofá e foram entregar numa charrete puxada a burrinho! Com essa placidez toda de cidade do interior tenho mais tempo para cuidar de mim mesmo, mais tranquilidade (Outro dia deixei o carro aberto na frente de casa a noite inteira e na manhã seguinte ele estava lá do mesmo jeito, só meio úmido de orvalho.) e bem menos estresse. Claro que sinto falta de um monte de coisas da cidade grande. Adoro teatro, era habitué no Espaço Unibanco, adorava o agito dos barzinhos com música ao vivo e a excelente gastronomia e às vezes ia a grandes shows. Mas o custo do dia-a-dia de tensões não suplantava o benefício dos fins de semana culturais. Fora que nada que uma visita esporádica a Brasília, Rio e São Paulo não resolvam para imergir nos prazeres metropolitanos.

 

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Lar, doce lar

Além disso, os grandes centros urbanos estão ficando saturados de cientistas. Basta ver quantos catedráticos de boas universidades se aposentam por ano e quantos recém-formados são despejados no mercado. É desproporcional, a saída é mesmo ir em busca de novos habitats, migrar. Ouvia muita gente dizer que aqui seria ruim porque não tem estrutura, que a universidade é muito nova. Não deixa de ser verdade, a UNEMAT ainda tem muito o que crescer em nome e estrutura, só não sei se isso é um defeito. Só de imaginar que eu sou o único etólogo da instituição já fico quase me sentindo um Cesar Ades, sou pioneiro da etologia na UNEMAT. As grandes universidades também tiveram seu começo, aposto que em algum recôndito da USP já houve uma bancada de laboratório feita com uma porta como aqui.

Realmente acredito que os aspirantes a acadêmicos que estão em processo de formação e visitam este blog (e a tirar pelos comentários são muitos) devem pensar nisso e preparar-se para descentralizar a ciência do país. Só haverá pesquisa de boa qualidade fora dos grandes centros à medida que bons cientistas venham e mantenham seu bom trabalho aqui no interior.

Para ficar sempre por dentro dos concursos públicos para professor universitário visite regularmente o site do Universia e assine o Jornal da Ciência. Outra dica que me ajudou foi cuidar sempre bem do meu currículo Lattes e manter numa pasta os documentos para comprovar tudo o que está lá, coisa que sempre é pedida nos concursos.

Discussão - 6 comentários

  1. Kim disse:

    Olá, Bessa!
    Sempre leio seu blog, sou de Mato Grosso e achava curioso um professor do recanto esquecido da Unemat estar por esses Lablogatórios (pena que mudou o nome!). Agora que vi que você é de São Paulo a coisa mudou um pouco, mas ainda admira a sua presença neste meio.
    Acho extremamente importante esse “êxodo” de mentes, mas como você mesmo diz, pode faltar a vontade àqueles que creem que os incômodos metropolitanos não superam seus benefícios. Talvez, mais importante que bons profissionais no interior do Brasil, sejam alternativas mais “blocadas”, como o que ocorre na UFRN.
    Bom, só uma ideia. Abraços

  2. Luciana Christante disse:

    É verdade. Bonito relato pessoal. Posso dar uma sugestão? Se você der um espaço entre os parágrafos, o texto fica mais arejado e a leitura, mais convidativa – é apenas um toque estético, o conteúdo está ótimo. Abs.

  3. Bessa,
    Você falou em seu post muito do que penso e sinto. Não há dúvida de que as cidades grandes oferecem muitas oportunidades, mas de que valem se o mais das vezes estamos estressados demais para aproveitar? Para os que têm filhos pequenos, como eu, a perspectiva de os criar em uma metrópole é assustadora. Depois de seu post, começo a reconsiderar tentar concursos em cidades mais interioranas.

  4. bessa disse:

    Ítalo, aqui na UNEMAT quem dá geologia para os alunos é o pessoal de solos da Agronomia e eles não têm Paleo (!!!). Estou em campanha para abrirem uma vaga para geólogo para essas duas matérias o quanto antes. Pode deixar que te aviso se ela sair.

  5. bessa disse:

    Luciana, muito obrigado pela dica. Na verdade, desde que fizemos a mudança para o Scienceblogs que ainda não me entendi direito com o novo editor de html dele. O do lablogatórios era bem mais intuitivo. Para você ter uma idéia, até para colocar figuras tenho apanhado. Repare como os posts têm saído menos ilustrados. Acho que isso se resolve com o tempo.

  6. Otto disse:

    Olá Bessa!
    Antes de mais nada, parabéns pelo blog. Muito legal!
    Compartilho com o Ítalo o dilema entre buscar as oportunidades de trabalho nos grandes centros de pesquisa das grandes cidades ou optar pela qualidade de vida, criando os filhos pequenos em lugares mais tranqüilos. Por enquanto estou conseguindo conciliar as duas coisas, fazendo o pós-doc no CEBIMar, em São Sebastião, SP. Mas sei que em breve muito provavelmente terei que optar por uma coisa ou outra. Espero encarar a segunda opção com o mesmo entusiasmo que você, ficando feliz em ser um pioneiro em alguma nova universidade e buscando fazer a diferença nesse novo lugar.
    Abraços cebimarianos!
    Otto
    PS. Outra boa dica para se atualizar sobre os concurso é o portal Prossiga (www.prossiga.br/mercado). Vai aí a dica!

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