Lá aonde a luz não chega

Não sei se é muita calhordice, mas assim que vi o tema da blogagem coletiva decidi escrever sobre a vida onde não há luz. Nos idos do Lablogatórios postei um texto sobre peixes abissais e suas esquisitices, portanto vou mudar o enfoque aqui. Neste carnaval científico retornarei aos primórdios de minha vida acadêmica e lhes contarei um pouco sobre organismos cavernícolas.
A fauna cavernícola inclui três categorias de organismos: troglófilos, trogloxenos e troglóbios. Troglóxenos são animais que usam a caverna como abrigo, mas precisam sair para realizar suas atividades diárias. Morcegos são um bom exemplo, passam o dia pendurados de ponta-cabeça no teto da caverna e de noite saem para se alimentar, ursos são troglófilos durante o inverno no hemisfério norte, andorinhões, roedores, jaratatacas, traíras e sapos também ocupam esta categoria.
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O ecossistema cavernícola carece de produtores, por isso depende da matéria orgânica trazida de fora pelos morcegos

Os troglófilos já estão mais adaptados à vida na caverna, podendo inclusive completar todo seu ciclo vital ali, mas não são habitantes obrigatórios destes habitats. Vivem igualmente bem dentro de cupinzeiros, sob a casca de árvores ou no meio do folhiço das florestas. Bons exemplos de troglófilos são aranhas e centopéias comuns em cavernas.
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Perceba como a segunda perna deste amblipígio, um cavernícola opcional, é longa. Isto o ajuda a perceber vibrações no ambiente em um tato extremamente melhorado.

Por fim, os troglóbios são minha categoria favorita. Estes animais podem ter se originado de troglófilos ou trogloxenos aprisionados no ambiente cavernícola por algum motivo durante a história geológica daquele lugar. Daí só sobreviveram aqueles organismos mais hábeis em viver na zona afótica das cavernas, onde “é preciso tocar seus olhos para ter certeza de que estão abertos”, como disse Bilbo Bolseiro sobre a caverna do Gollum. A fauna de animais troglóbios é grande, mas vou me obrigar a listar alguns para conhecimento de vocês. Há espécies conhecidas de grilos e mosquitos, peixes, principalmente bagres e cascudos, e salamandras, que são ícones cavernícolas nos países do hemisfério norte.
A parte mais profunda do ambiente cavernícola é principalmente caracterizada pela total ausência de luz. Além disto é comum a umidade constantemente próxima ao ponto de saturação, a pequena variação da temperatura e a ocorrência de rios subterrâneos. De fato, a maioria das cavernas foi escavada pela passagem da água entre as rochas alcalinas de terrenos calcários. Devido à total ausência de luz não há organismos fotossintetizantes nas cavernas, por isso o aporte de energia neste ecossistema é extremamente dependente da entrada de matéria orgânica epígea (do lado de cima da terra). Este aporte pode ocorrer através de um rio, caindo de fora da caverna (como em um pit-fall) ou trazido pelos troglófilos. Daí a grande explosão de vida encontrada nas poças de guano (cocô de morcego) nas cavernas.
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A água que percola o calcário vem carregada de sais que ao longo dos anos vai se acumulando, formando os espeleotemas. Os mais comuns são estalactites, estagmites e travertinos.

Sem produtores, dependendo de uma quantidade restrita de alimento trazida de fora e num ambiente com fortes restrições seletivas, é de se esperar que as populações de organismos troglóbios sejam extremamente baixas. O que de fato tem sido visto na maioria das vezes, exceções feitas a cavernas com a presença de quimiossintetizantes.
Outras duas adaptações gritantes à ausência de luz são os órgãos sensoriais e a cor do corpo. Já que a visão perdeu seu papel em animais troglóbios, os olhos tendem à extrema redução, até ao desaparecimento. Por outro lado, o tato e a olfação se desenvolvem a níveis quase inimagináveis, bagres cavernícolas possuem barbilhões enormes, opiliões e amblipígios têm o 2º par de pernas alongados. Pensando que na maioria das cavernas não há nem sinal de uma brisa, o tato pode servir para perceber até o deslocamento de ar causado pela movimentação de um predador nas redondezas. O olfato também se desenvolve e passa a ser a principal forma de comunicação entre organismos da mesma espécie através dos feromônios. Ele também é fundamental para os troglóbios encontrarem o escasso alimento de que dependem. Já com relação à cor do corpo tanto a necessidade de se camuflar quanto de proteger-se da insolação desapareceram, por isso os troglóbios tendem a ser albinos. Antes que algum lamarckista comece a ficar animadinho, tanto a pigmentação da pele quanto um órgão complexo como o olho são altamente custosos em termos energéticos, daí que é vantajoso deixar de gastar energia com estas coisas inúteis e investir em reproduzir-se, por isso os organismos que o fazem propagam-se na população, não por uso e desuso, mas por pura seleção natural.
Quando eu era apenas um neófito tornei-me estagiário da Prof. Eleonora Trajano em seu laboratório de peixes de caverna. Uma fera em bioespeleologia (a ciência que estuda a vida nas cavernas), aprendi muito por lá e dei minha contribuição comparando o comportamento de duas espécies de cascudos filogeneticamente aparentadas. Um dia ainda volto a brincar disso aqui nessas cavernas quase inexploradas do Mato Grosso.
[Correções apontadas pela Fabiane inseridas no texto]

Discussão - 8 comentários

  1. Luiz Bento disse:

    Bessa,
    Acho que o seu blog e o meu estão conectados. Primeiro naquele post do Breno e agora esse. Escrevi um post ontem para a blogagem coletiva e coloquei para ser publicado amanhã. Adivinha sobre o que? Vida sem luz. A ideia do tema é a mesma, mas meu enfoque é em vida microbiana. Bem complementar.

  2. luluzita disse:

    entao.. sou medica e nao biologa, mas ando apaixonada pelo scienceblogs… vim ver seu blog hoje, encontrei esse post delicioso, mas viajei legal(essa pipoca q eu to comendo deve ter algum alucinógeno potente, ou o teflon subiu p cabeça..)
    to rindo aqui, imaginando q tem pessoas q vivem nas cavernas mesmo… e as q nunca saem da caverna, se alimentam dos excrementos alheios… isso aí é biologia ou psicologia aplicada???
    já consegui classificar um monte de gente em troglófilos, trogloxenos e troglóbios… sem falar q posso xingar esse povo com classe agora!!!

  3. Priscilla Evan disse:

    Oiii, tdo bom? Amei sei blog pq eu estou fazendo um trabalho sobre Fauna Cavernicola e nas minhas pesquisas achei seu blog! mto bom viu? Olha desculpe a pergunta + vc trabalha cm comportamento animal? qual ordem? Sou acadÊmica de Biologia da Universidade Federal do Tocantins, e estou procurando orientação.

  4. Dalvany Gualberto disse:

    Sou Bióloga amei ScienceBlogs Brasil.
    Vi uma exposição hoje sobre Bioespelologia.
    Sou Profª universitária aqui do Pará. Em Marabá, onde tem muitas cavernas – inclusive uma ferrea, segundo pesquisadores é uma das maiores do mundo. Não me identifico muito, mas admiro quem a pesquise.
    Minha especialidade é Epidemiologia.
    Parabéns

  5. Fabiane disse:

    Olá! De acordo com a revista Ciência Hoje – Mutantes de laboratório, você trocou as definições de troglóxenos e troglófilos.
    Os troglóxenos que utilizam as cavernas apenas para abrigo e os troglófilos que completam seu ciclo de vida nas cavernas.
    Abraços.

  6. bessa disse:

    Fabiane, vamos lá: troglóbios- completam o ciclo de vida na caverna e estão condenados à vida na escuridão, existem grilos, peixes, camarões e salamandras nessa categoria. Troglófilos- espécies que vivem em cavernas devido a suas características ambientais, mas que vivem bem fora delas; são tatuzinhos de jardim, opiliões e aranhas. Trogloxenos- animais que precisam sair das cavernas para se alimentar diariamente ou passam apenas curtos períodos nas cavernas; morcegos e ursos são bons exemplos, nossos primos neandertais também o eram. Obrigado pela correção.

  7. Jose Carlos disse:

    Ola!
    Sou medico e interesso-me sobre epigenetica.
    Em relaçao ao mecanismo de transformaçao/adaptaçao dos troglobios vc nao acharia mais logico considerar a epigenetica para explicar este fenomeno ?.A evoluçao tradicional nao teria o tempo necessario para operar no caso destes animais serem impedidos de repente de sairem de suas cavernas ! A influencia do meio parece-me mt significativa neste processo todo
    Abraço

    • Eduardo Bessa disse:

      É possível, Carlos. No entanto o isolamento em cavernas não é um processo rápido, dura tempo suficiente para a evolução tradicional ocorrer

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