Manchetes comentadas 18 – Voo 447: 11 corpos de vítimas são identificados

A edição de hoje do O Globo informa que dos 49 corpos já recuperados pela força tarefa franco-brasileira para o desastre do voo 447 da Air France, 11 foram identificados ontem no Instituto Médico Legal de Recife. As famílias das vítimas pediram sigilo sobre o nome dos identificados que são cinco homens e cinco mulheres brasileiros e um homem francês. As identificações foram feitas usando tatuagens, marcas de cirurgias, cicatrizes, pertences pessoais, mas sua confirmação só era aceita através de dados da arcada dentária, impressões digitais ou identificação por DNA.
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Destroços do avião expostos em Base naval de Natal
Fonte: www.oglobo.com.br

Pequenas diferenças nos dentes são comuns entre todo ser humano. Eu por exemplo tenho uma cúspide interna extra no primeiro molar superior dos dois lados e tinha uma raiz extra no segundo par de pré-molares. Um verdadeiro mutante! As digitais já são mecanismo conhecido de identificação de indivíduos há quase um século, graças aos trabalhos do incansável tomador de medidas primo de Charles Darwin, Sir Francis Galton, como nos conta esse post do Carlos Hotta. Já a identificação por análise do DNA, a chamada DNA fingerpriinting ou impressão digital do DNA, é um processo muito explorado nos CSI’s da vida, mas nem todos sabem exatamente como funcionam.
Toda pessoa tem em suas células DNA igual (ou quaaase igual) ao de qualquer outra célula. Esse DNA é herdado metade do pai e metade da mãe e é exclusivo de cada ser humano na Terra, à exceção de gêmeos idênticos. Devido a isso, se conhecemos o DNA dos passageiros do voo 447 e obtemos amostras do DNA dos corpos encontrados é possível identificar a qual passageiro pertence o corpo encontrado. O problema é que pessoas normais geralmente não têm amostras de seu DNA por aí, por isso é possível utilizar o DNA de pais, irmãos e filhos ainda vivos para fazer o mesmo tipo de identificação com um pouco mais de dificuldade, mas nada impossível. Inclusive, este é o mesmo mecanismo utilizado para os testes de paternidade e a identificação de criminosos.
Apesar de qualquer parte do DNA ser passível de utilização para a identificação, algumas partes são mais úteis que outras. Nosso DNA pode ser dividido em duas partes, DNA codificante (exons) e não codificante (introns). A parte codificante, que é transcrita em proteínas, é muito preservada pelos macanismos corretores de DNA, por isso suas modificações entre indivíduos são mais raras. Imagina só, uma modificação numa proteína participante da respiração celular é facilmente letal, portanto é imaginável que essas proteínas não variem muito na população. Por outro lado, o DNA não codificante não tem mecanismos de correção tão eficientes, por isso sofre mutações mais facilmente e é mais variável na população. É possível que mais de um passageiro do voo 447 tivesse porções de DNA codificantes de uma proteína de membrana celular idênticos, mas certamente suas porções de introns eram diferentes.
Entre o DNA não codificante há sessões repetitivas de diversos tamanhos, uma destas categorias é chamada de microssatélites, sequências de até seis bases nitrogenadas que se repetem um número diferente de vezes em cada pessoa, todo o mundo tem repetições dos nucleotídeos AC num determinado pedaço de seu genoma, mas o número de vezes desta repetição varia, por exemplo (AC)14, (AC)6 etc. Isto é perfeito para fazer uma identificação individual do DNA de forma simples. Basta contar o número de repetições naquele pedaço de DNA num corpo e nos passageiros (ou seus parentes) e descobrir a quem pertence o corpo. Utilizando-se cerca de seis regiões de microssatélites a identificação torna-se incrivelmente precisa.
Na realidade, contar repetições de uma sequência de nucleotídeos não é tão fácil. Mensurá-las é bem mais simples, mas no final dá na mesma. Em vez de contar quantos nucleotídeos há em um microssatélite, legistas expõem recortes destas regiões de DNA a uma corrente elétrica e as moléculas são atraídas pelo polo negativo da corrente, deslocando-se naquela direção. Esta exposição acontece em uma placa de gel que, microscopicamente é uma selva fechada de fibras entrelaçadas de um açúcar (acrilamida ou ágar), assim pedaços menores de DNA atravessam mais facilmente as fibras e vão mais longe, já pedaços maiores são mais lentos e ficam para trás. Tendo-se um gabarito fica fácil transformar este padrão de deslocamentos em uma análise do tamanho do microssatélite, como mostra a animação abaixo.
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Animação simulando a deriva das bandas de DNA num gel
Fonte: http://www.geocities.com/jsonnentag/iguana/pictures/gelanim.gif

Suponhamos que temos uma análise de microssatélites de um dos corpos encontrados sabidamente pertencente a uma mulher brasileira de cerca de 60 anos presente no voo, em seguida temos os dados de microssatélites de todas as mulheres brasileiras nesta faixa etária presentes no voo. A qual delas você atribuiria o corpo encontrado?
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Bandas de DNA microssatélite das vítimas do voo 447 em comparação ao de um corpo encontrado. A quem você atribuiria o corpo?

Discussão - 2 comentários

  1. Daniel disse:

    As imagens do post nao estão aparecendo, nem direto no site, nem pelo Google Reader… Será que houve algum problema?

  2. bessa disse:

    Tem razão, Daniel. O problema foi minha falta de competência com o Movable types, que aparelha o SBBr. Já deve estar arrumado.

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