Que cobra enooorme!

Passei a semana passada (!?!) em campo para meu projeto de pesquisa. Estou trabalhando com comportamento de peixes de riacho em um paraíso ecológico do nível de Bonito, no Mato Grosso do Sul, mas a apenas algumas horas aqui de Tangará. Chama-se Nobres, especificamente a Vila de Bom Jardim, uma belezinha como mostram as fotos abaixo. Alguns pesquisadores que trabalham com mergulho em campo têm a fama de intrépidos. Não acho que eu seja desses e esse post irá selar minha fama de bundão!

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No dia em que eu e meus alunos chegamos, fomos fazer um mergulho no rio Estivado, muito próximo a uma atração turística dali onde há uma placa escrito "Não ultrapasse, proibido o banho do outro lado". Estou bastante interessado em diferenças comportamentais entre os peixes que vivem onde os turistas vão e os que ficam abrigados da balbúrdia causada pelos visitantes, então a placa foi um convite ao desacato. Sem cerimônia atravessei a linha e fui descobrir todo um novo mundo. Estava tranquilamente mergulhando quando percebi um mussum nadando entre as folhas, notei primeiro o rabo e fui seguindo o peixe que se esticava, se esticava e não acabava mais. Não, não era um mussum. Sim, era uma sucuri!

Eunectes_murinus

Fonte: www.catalogoflife.org

Meu coração quase saiu pela boca. Sem dar meia volta nem tirar o olho da bichona comecei a recuar, mas minhas pernadas nervosas levantaram um monte de sedimento, turvando a vista instantaneamente. Me afastei dali e fiquei de longe olhando para ver se a serpente não vinha. Estava morrendo de curiosidade, mas não queria me arriscar a ser encontrado por ela antes que eu a encontrasse, então esperei o sedimento baixar. Voltei ao local uns três minutos depois e nem sinal da sucuri que, juro, descontando o paralaxe da mascara de mergulho, devia somar seus 2 m de cobra. Com todo o jeito que uma notícia desta natureza permite contei aos meus alunos, sabendo que tinha que deixá-los alertas, mas não poderia alarmá-los a ponto de terem medo de voltar a mergulhar ali. Nos dias que se seguiram toda vez que voltava no local procurava a serpente, mas tem coisas que deve-se aproveitar o momento, não a vi mais.

Eu provavelmente exagerei na reação. Permanecer a uma distância segura poderia ter me permitido fazer inferências bem interessantes sobre alguma eventual interação ecológica entre peixes e a serpente, mas na hora a sobrevivência e o medo irracional falaram mais alto. Melhor um bundão vivo que um corajoso morto. Quem sabe nos meses de saída de campo que faltam não a encontro de novo desta vez com mais sangue frio? Tomara que não!

Discussão - 5 comentários

  1. Clarissa disse:

    Que lugar lindo!
    Fazer trabalho de campo em lugares assim descansa a mente, não? (pelo menos para mim, por mais que o corpo fique exausto)
    Uma vez eu estava coletando em um riacho em Goiás e um rapaz que nos servia de guia na área me chamou a atenção para algo. Eu estava dentro do riacho, com água até as coxas e segurando a mangueira da bomba de água e ele estava em cima de um mata-burro (o resto da equipe estava na margem). Quando eu perguntei o que era, ele mudou de idéia e não quis me dizer. Após eu insistir, ele me mostrou uma sucuri a menos de 1m de onde eu estava (não parecia tão grande). Eu olhei, virei pro lado e continuei parada até terminar de retirar todas as amostras que eu tinha que coletar. Afinal, eu não podia deixar de coletar as amostras. ele ficou embasbacado. (risos)
    Sou como outros biólogos que eu conheço: que se machucam ou vêem o carro capotar e só pensam em como vão fazer o trabalho de campo ou se os frascos de amostras estão intactos.

  2. Marão disse:

    Lapa de cobrinha, não é interessante interagir com ela, até porque a mamãe dela pode estar por perto fazendo a sesta. No Lago Paranoá,em Brasília, a carta náutica da Marinha indica uma tal de “Baía das Sucuris”. Deve ser folclore, até porque o lago é ou era “meio artificial”, não creio haver vínculo real entre a toponímia e as ditas cujas. Agora imaginar que se pode cair num nó de sucuris é coisa pra filme do Indiana ou pesadelos,no entanto existem conselhos para livrar-se do amplexo constricto, do tipo escarear as escamas da bela em sentido contrário. Deve ser bobagem…com a palavra os especialistas.

  3. maria disse:

    fico impressionada com a força que tem esse instinto de sobrevivência. desde que virei bióloga nunca mais corri de cobra (nunca encontrei uma sucuri enorme dentro da água, aposto que aí não me sentiria nada confortável).
    mas daí a pegar a cobra… uma vez uma delas comeu um ratinho no qual eu tinha posto um transmissor de rádio. essas porcarias são caras, eu queria de volta. tinha que pegar a serpente barriguda. na califórnia é fácil: se não for cascavel, pode pegar. não era cascavel. segui a bicha pelo campo tentando me convencer disso, mas assisti enquanto ela entrava numa toca sem conseguir tomar uma atitude.
    tive que chamar um colega, que heroicamente capturou a devoradora de dados da minha tese. depois de capturada, não tive problemas em manuseá-la – ficamos até bastante amigas durante a convivência de 3 semanas até ela devolver meu transmissor. com ela num terrário ou entregue das mãos de outra pessoa, eu já não me sentia ameaçada. mistérios.

  4. Monica disse:

    Bessa, adorei a história, mas você poderia tê-la contado de forma diferente. Tipo assim: “estava mergulhando em Nobres quando me deparei com uma sucuri de 5m (2m é o tamanho do meu marido!, por isso eu não fico embasbacada com isso)que me atacou. Nós lutamos por alguns minutos…” Muito melhor, tu não achas?

  5. José Sabino disse:

    Fantástico local Edu! As histórias com os peixes –e com as serpentes– estão só no começo… vamos em frente que ainda quero muito trabalhar aí e compartilhar nossa experiência de pesquisa de Bonito.
    Abraços,
    José Sabino

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