Hierarquia de dominância e o ex-governador Arruda

Ao Marão, meu comentador assíduo e cronista da política candanga

 

A visão do governador do Distrito Federal atrás das grades me remeteu a pensamentos biológicos esses dias. Um dos processos mais naturais da vida em sociedade em todas as espécies é o escalonamento de membros desta sociedade. Parece injusto, mas é natural que, em havendo um grupo grande, alguns indivíduos sejam superiores a outros. Já até vejo os mais inclinados ao anarquismo se remexendo em frente ao monitor, mas o fato é que um dos efeitos colaterais mais graves da vida em sociedade é que há um monte de gente competindo por recursos semelhantes. Todo o mundo se alimenta mais ou menos das mesmas coisas, habita mais ou menos o mesmo tipo de local e acasala com parceiros da mesma espécie, por isso a competição é tão comum. Competição, em geral, leva a conflito, agora, entrar em conflito direto por um determinado recurso o tempo inteiro não é lá uma forma muito econômica de se viver. É tão dispendiosa que, muitas vezes, o recurso obtido nem vale mais do que o gasto com a disputa por ele. Por isso, espécies sociais frequentemente realizam uma única disputa, muitas vezes ritualizada, da qual se utilizará o ranqueamento para diversas disputas dali em diante. A isto os etólogos dão o nome de hierarquia de dominância.

Uma alcatéia de lobos encontra um coelho velho e doente, facilmente abatem o animal que é muito pequeno para que todos comam à vontade. Quem terá primazia? Os líderes da alcatéia, assim não é preciso haver brigas sangrentas com dentadas nas orelhas ou tensões como a exposição dos dentes e rosnados. Mesmo que você mal tenha chance de lamber o sangue que escorreu da lebre, será mais interessante do que se envolver numa luta direta. Aos mais baixo na hierarquia resta a esperança de ainda se sairem melhor na lanterninha de sua alcatéia do que tentando a sorte solitariamente. A vida em sociedade nem sempre é divertida.

Outra esperança dos lanterninhas da hierarquia de dominância é que um dia o jogo sempre vira e então eles podem tornar-se líderes. Nestes casos, ao ser derrotado, o ex-líder amarga dias de tristeza. É duro acostumar-se com as sobras depois de ter provado doque há de melhor na vida. Jane Goodall, estudiosa dos chimpanzés de Gombe, na Tanzânia, há mais de 40 anos, conta episódios de trazer lágrimas aos olhos quando da derrubada de alguns dos mais temíveis ou carismáticos líderes do grupo: Humphrey e Figan, por exemplo. Os chimpanzés, privados dos prazeres e bajulações do alto status, entravam no mais perto que podemos descrever de um estado depressivo para um não-humano.

É exatamente isto que eu torço para que esteja acontecendo neste momento em uma cela do Estado Maior com o José Roberto Arruda. Ele, que por mais de uma vez recebeu um alto grau na hierarquia de dominância do DF, provavelmente pela nossa falta de crítica política, agora amarga a visão das costas dos que o colocaram lá. Pode ser apenas fantasia minha, mas desejo a Arruda uma longa e triste morte política.

Discussão - 3 comentários

  1. Fernando disse:

    Estimado amigo,digo assim porque nossos pensamentos sobre este assunto são bem parecidos.Torço como você, mas tenho dúvidas que seja assim, já que a minha experiência de vida diz o contrário.Você se lembra do painel eletrônico? Era a mesma pessoa e mesmo assim ele foi eleito pelo povo local pra Governador.Pergunto…não seremos nós (zé povinho)os verdadeiros bandidos?,já que colocamos este e muitos otros iguais a ele no poder.
    “Cada povo tem o governo que se merece”,nós é que votamos.

  2. Marão disse:

    Retrato três por quatro desse Brasil Macunaíma, Brasília nos seus 50 anos vê cair a máscara de atores principais na opereta bufa da sua história hodierna. Trancafiado há doze dias, o governador pego com a boca na botija assiste como um faraó embalsamado, pela fresta do sarcófago, seus aliados fugirem dele como o diabo foge da cruz. Os ratos estão abandonando o navio. Cai o Rei de Paus – Cai o rei de Ouros, e Paulo Otário renuncia, depois de amargar uma quebra de acordo com o faraó, que o conduziria à sucessão neste pleito e amarga tê-lo transportado em liteira de luxo para o DEM. PO renunciou também ao Partido que o renegou. Assume o GDF Wilsom Lima, um molusco inexpressivo, mas oportunista, de currículo medíocre, guindado à presidência da Câmara Legislativa, que já fez acordo com seus pares, à esquerda e à direita, para dividir o butim. Repetem ritualisticamente a metáfora dos lobos, onde chega a vez dos mais novos ou fracos, mas circunstancialmente mais vorazes e agressivos, de substituir o líder. PO adotou a máxima popular:” Ninguém chuta cachorro morto”, para fugir do linchamento político, porém deixou o rabo de fora e enterrou a cabeça na areia – como avestruz. Wilsom Lima será a raposa no galinheiro, ou o bode dentro do paiol. A nossa esperança é que se lambuze ao comer o mel pela primeira vez. Arruda, coitado, é como dizem no Nordeste:” Cão mordido, todos mordem”. Aliás, anos atrás, assisti-o dizer num seminário, como bom mineiro que é:”A esperteza quando é grande, engole o dono.” Trata-se de um caso de autofagia na Hierarquia Dominante!?

  3. Parabéns pelo seu artigo! Muito bom mesmo. Poderia ser estendido a outros ex-governadores pego com a mão na cunbuca do macaco!Um abraço

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