A Mariposa ninfomaníaca

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Naquela manhã no consultório psicanalítico

 

– Dra. não aguento mais me remoer de culpa.

– Culpa? – Disse a psicanalista.

– A verdade é que sou uma devassa, não só adoro sexo muitas e muitas vezes como meu negócio é variar sempre! Tendo a oportunidade escolho um novo rapaz a cada encontro. Não me contento com um só, não que isso seja da conta de ninguém. Mas sabe? Não deve ser certo, uma moça como eu. Esses mariposos machos. – A mariposa Ephestia kuehniella falava rápido, mal inflava suas traquéias entre uma frase e a outra.

– Mas isso não é bom, um monte de rapazes aos seus pés?

– Ah, Dra., você sabe como são os rapazes. Estão sempre à disposiçào de estar aos pés de quem lhes aceitar à cama! Para mim seria tudo muito natural se deixassem eu viver minha vida em paz. Se não ficassem me perguntando, falando por aí à boca miúda. Olha, Dra., a senhora nem imagina o que essasinhas dizem por aí, viu. Mas todos se metem tanto que acabo dando desculpas esfarrapadas.

– Desculpas esfarrapadas? – Com este novo eco Ephestia começava a procurar em qual das paredes do consultório escuro, mas aconchegante, estaria se refletindo o som.

– É. Digo que eles não largam do meu pé. Que me vencem pelo cansaço. Que dá tanto trabalho rejeitar as investidas de meus pretendentes que por fim cedo. Sabe, é isso que eu digo para as minhas amigas. As mais próximas, é claro, né. Também porque eu não fico por aí falando dessas coisas com qualquer uma. Já me bastam todas as que cuidam da minha vida sem eu precisar dar satisfações.

– Mas não é verdade. – A voz da Dra. deixou em suspenso se aquilo fora uma pergunta ou uma afirmação.

– É. Não. Mais ou menos. Olha, eles são sim insistentes, mas eu sei dizer “não” quando quero. Na verdade eu gosto do esporte, Dra.  Me diga, eu sou normal?

– Por que você quer ser normal? Você se acha normal?

– Não! Nem um pouco. – Disse a mariposa com as antenas mais pinadas do que de costume.

– O que você acha que as outras meninas da sua espécie fazem em relação aos rapazes? – A analista se retraiu um pouco mais à sombra da luminária alta para a mariposa se sentir mais a sós.

– Não sei, ué. Isso não é coisa que se fique falando por aí. Você acha que elas também fazem… isso!?

– Olha, aqui no consultório passa muita gente, você sabe. Temos a ética profissional, mas acho que poderia lhe falar sobre alguns casos. Este hábito é muito comum para muitas fêmeas. Para algumas aranhas, por exemplo, variar de namorado significa ganhar mais alimento, na forma de presentes. Para as chimpanzés, significa que seus filhos serão melhor tolerados no bando. E, esquecendo as suas desculpas esfarrapadas, por que você procura novos amantes?

– Ai Dra., para te falar a verdade, não tem um só rapaz que eu diga: “esse é o tal”, parece que serei eternamente uma aventureira em busca de diversidade. Ora, quem garante que o primeiro amante que for para meus lençóis será o príncipe encantado, aquele sem nenhuma doencinha familiar esperando há gerações para se manifestar justo nos meus filhos? Na verdade, isso que minhas colegas intrigueiras chamam de safadeza é como aumento a chance de sucesso dos meus filhos. Olha só, na semana passada um dos rapazes com quem saí era um verdadeiro gênio, o outro era o macho mais sarado e atlético que já vi, corpo de jogador de volei, o último por ter um rostinho de comercial de barbeador e lindos olhos compostos azuis. Convenhamos, achar um só com tudo de bom assim está difícil hoje em dia, né.

– E essa diversidade de tipos não é a diversidade genética que faria seus descendentes tão saudáveis, sua prole tão garantida? – Perguntou a Dra.

– Diversidade o que, Dra.? Perguntou a mariposa franzindo o escutelo.

– Nada não, teorias. Apenas teorias. Prossiga.

– Então, tenho mais é que diversificar, menina. Me  distrair. Assim aumento as chances dos meus pimpolhos se darem bem na vida também, podendo nascer geniais, lindos ou fortões. Não sou interesseira, sou uma amante do amor livre de verdade. Só o que busco é diversidade. E que me deixem em paz!

– Pois deixe de se preocupar com as más línguas e vá curtir teus instintos. Nosso tempo acabou.

 

Xu, J., & Wang, Q. (2009). A polyandrous female moth discriminates against previous mates to gain genetic diversity Animal Behaviour, 78 (6), 1309-1315 DOI: 10.1016/j.anbehav.2009.09.028

Discussão - 5 comentários

  1. Marão disse:

    Credo, esse bicho pensa igual homem…

  2. bessa disse:

    Não se engane, Marão. Quem pensa como homem sou eu. A graça do texto está no antropomorfismo, crime capital entre os etólogos, mas licenciado entre os divulgadores. Só espero não confundir os papéis.

  3. Olá
    Gostei muito do post, com essa “didática romanceada”, se assim posso dizer. Parabéns pelo blog.
    Acho a etologia uma ciência fantástica, principalmente a etologia humana, que traz respostas tão significativas quanto a psicologia.
    Conheça meu blog de divulgação/educação científica, ci~encias exatas/naturais e estudos epistemológicos.
    O endereço é: http://www.imperativocientifico.blogspot.com
    Abraços!

  4. Solange disse:

    Olá, Eduardo!
    Que legal que conheci seu texto: genial!
    Vou divulgar seu blog entre meus alunos e “estudar” alguns textos seus quanto à linguagem.
    Parabéns, pois você escreve bem e com o espírito apurado da divulgação científica bem feita.
    Até outro dia,
    abraços, Solange

  5. holder disse:

    Instinto de homem, mas cabeça de mulher (sempre encucada)

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