O gobião na secura

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Naquela manhã no consultório psicanalítico

– Doutora, a senhora poderia vir receber o seu paciente, por favor!

Já era a terceira vez que a nova secretária interfonava para o consultório, mas a psicóloga estava bastante ocupada e ainda não era o horário do próximo paciente. A doutora tinha uma preferência por atendentes bonitas, mas ultimamente não podia escolher muito. Desde que a última secretária se apaixonara por uma hiena lésbica bem-dotada que frequentava o consultório e fugira para Botswana com seu novo amor, a doutora contratou a primeira moça que lhe apareceu pela frente e não queria perdê-la. A secretária tinha 1,88 m, pesava no máximo 50 kg, até aí poderia ser uma modelo esquuálida se a pele do seu rosto não lembrasse areia fina depois da chuva, seu cabelo não parecesse um tamanduá enrolado para dormir e se entre um dente o outro não passasse um dedo.

Na antessala um gobião olhava lânguido para a secretária enquanto fazia uma reverência e estendia ao objeto de seus desejos um buque de flores de plástico.

– Senhor Chlamydogobius, o senhor já chegou! Deve estar ansioso para conversarmos. Por que não devolve as flores do consultório odontológico ao lado, para de beijar a mão da minha secretária e se apressa a tomar o seu lugar no divã?

– Ah, doutora. Não tenha pressa. Eu poderia esperar a eternidade ao lado desta beldade. – Respondeu o peixe soltando coraçõezinhos pelos olhos. A doutora o arrastou pela nadadeira caudal para dentro de sua sala deixando para trás um rastro gosmento como seu amor.

chlamydogobius

Muito tempo sem namorada reduziu seus critérios?

Fonte: www.fishbase.org

– Então, meu amigo australiano, sobre o que quer conversar hoje? – Veio a voz suave, mas num tom claramente repressor, de um ponto invisível atrás do espaldar do divã.

– Sobre o amor! Estou apaixonado. – Declarou o gobídeo ainda fitando a porta.

– Ah, mas isto é muito bom! E desde quando o senhor está amando assim? – Perguntou como que casualmente a analista, mas já ciente do caso.

– Para falar bem a verdade, acho que desde que vi sua secretária. Foi paixão à primeira vista.

– Quanto tempo faz que o senhor está solteiro? – Agora não havia nem sinal de casualidade.

– Não vejo qual o interesse de sua pergunta, mas agora que falou, acho que já faz um bom tempo desde que a última garota passou pela minha toca. Como não saio muito dela, acabo dependendo de alguma fêmea ativamente passar por lá. – O peixinho agora parecia intrigado.

– Veja, meu amigo, essa paixão arrebatadora é fruto do longo período de espera. Você…

– Não é, não. Eu amo sua secretária. Como é que ela se chama mesmo? – Interrompeu o cliente negando a terapeuta, que se calou e ficou esperando que ele terminasse.

Alguns instantes de silêncio pareceram ao peixe uma eternidade. Para quebrar aquela situação constrangedora ele precisava falar novamente.

– A Sra. acha isso mesmo? – Perguntou o cliente com olhos de peixe morto.

– A paixão, Sr. Chlamidogobius, é proporcional ao volume de esperma acumulado*. – A voz detrás do divã disse com assertividade incontestável.

-  Mas… – ouviu-se um longo suspiro. – Essa visão não é muito romântica, não é mesmo?

– Veja bem, é claro que o senhor sabe o que é uma fêmea bonita. Só que, à medida que o tempo passa, vai baixando seus critérios com receio de ficar sozinho até chegar a um ponto de achar irresistível uma mulher como minha secretária. Se o senhor a conhecesse logo após encontrar uma fêmea bonita certamente não a desejaria tão vorazmente. – À medida que a dra. falava o peixinho parecia ficar revoltado, mas lhe restava pouca energia para discutir. – O que quero do senhor é que volte na próxima semana e que, daqui até lá, faça um exercício: encontrar-se com o maior número de fêmeas que conseguir. Se na próxima semana essa paixonite não passar, serei madrinha de casamento de vocês dois!

– De verdade, doutora? – Exclamou o peixe excitado. – Onde é que tem uma boa joalheria por perto?

A doutora se despediu do cliente na antessala com a intenção de proteger do assédio sua secretária. Ela agora estava com olhos que pareciam arregalados mesmo através das espessas lentes de seus óculos fundo de garrafa. O Sr. Chlamidogobius não pode evitar encarar o objeto de seu amor, mas subitamente começou a enxergar coisas que pareciam não estar ali antes, como a pinta muito escura e peluda do tamanho de uma digital que havia na testa da menina.

 

Svensson, P., Lehtonen, T., & Wong, B. (2010). The interval between sexual encounters affects male courtship tactics in a desert-dwelling fish Behavioral Ecology and Sociobiology DOI: 10.1007/s00265-010-1007-z

 

*Pequeno dicionário amoroso.

Discussão - 2 comentários

  1. Marão disse:

    Bem, o tal “Chla o quê” parece-me sinceramente apaixonado pela esquálida potranca. Mas fica uma pergunta no (m)ar, gônadas repletas deprimem o controle de qualidade do tesão e inversamente aumentam mesmo o nível de testosterona? E se utilizadas saudáveis práticas onanísticas, estas seriam responsáveis por uma escolha mais refinada de pretendentes? Neste caso galera, pra namorar mulher bonita, há que praticar…Com a palavra, a Ciência!Marão

  2. bessa disse:

    Pelo artigo, Marão, não foram medidas as quantidades de testosterona. De fato o “muito tempo” que o gobião ficou sem ver uma fêmea foram apenas cerca de 24h, aparentemente uma eternidade para a espécie. Da mesma forma, as supracitadas práticas onanísticas não foram exploradas, já que ainda não conheci uma espécie de peixe com tal habilidade. Se for para arriscar um chute diria que a auto-satisfação até pode dar uma aliviada, mas a longo prazo toda mulher vira Juliana Paes.

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