Doutores demais?

Ao Rafael, que nada disso o aflija

Algumas semanas atrás saiu na Nature (Jenifer Rohn, Give postdocs a career, not empty promises. Nature 471, 7 (2011); doi:10.1038/471007a) uma matéria acerca do que fazer com os doutores que se formam sem que haja vagas suficientes para absorvê-los. A autora sugere abrir uma nova carreira de pesquisador auxiliar em um laboratório já estabelecido e reduzir o número de pessoas aceitas para o doutorado ou o pós-doutorado em função do número de vagas disponíveis no mercado de trabalho, evitando assim as falsas esperanças referidas no título. O texto desencadeou uma onda de comentários que eu nunca tinha visto em matérias desta coluna. Boa parte deles fizeram dos comentários um consultório sentimental dando vazão a seus medos e experiências ruins. No entanto, não me senti de todo confortável com a posição da autora, ao que responderei aqui.
O principal temor da autora era a escalada de buscas por cursos de pós-doc como uma alternativa à falta de um emprego formal para os pesquisadores (e tenham em mente que no exterior a indústria tem muito mais olhos para os cientistas do que no Brasil, ampliando a área de atuação do cientista). De fato, outra matéria da Nature aponta que 43% dos doutores formados procuram um pós-doutorado, 16% fazem um segundo pós doc e 3,6% um terceiro. Não se sabe quantos destes o fazem em busca de maior conhecimento, incremento das redes de trabalho ou para aprender uma nova técnica, mas a autora acredita que a maioria é levada ao pós-doutorado simplesmente por falta de emprego. Felizmente o Brasil passa por um período diferente deste anunciado nas duas matérias, pelo menos em comparação com o passado recente. A crise financeira ainda afeta o orçamento de muitas instituições de pesquisa nos EUA e na Europa, enquanto que a política brasileira tem investido fortemente nas universidades, inclusive em contratações. Desta forma, talvez estejamos em situação menos desesperadora. E é exatamente por aí que vai minha discussão.
Se uma coisa é certa nesse mundo é que as coisas irão mudar. Se estão boas irão piorar, se estão ruins uma hora melhoram. Então, se reduzimos hoje as vagas de doutorado e pós-doc, o que nos garante que em breve o número de empregos não irá aumentar e então teremos escassez de pessoas aptas a ocupá-las? Cercear a qualificação em relação à disponibilidade de empregos seria um tiro no pé. Imagine se quando o mercado mudasse os cursos de pós reabrissem suas vagas de doutorado. Vagas não podem esperar por quatro anos para serem preenchidas, elas terminariam por ser ocupadas por pessoas com menor qualificação e os doutores formados dali a quatro anos permaneceriam sem emprego. Assim como a instituição que teve que se dobrar e contratar mestres teria de abrir mão deles em seguida para que estes se qualificassem.
Em conclusão, formar profissionais que terão que duelar a faca as vagas existentes pode ser uma boa maneira de obter os melhores, mas não é por isso que vale a pena manter as taxas atuais de pós-graduados. Flutuações que virão com o tempo têm que ser previstas e supridas pelos pensadores que devem ser formados na pós graduação.

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Discussão - 2 comentários

  1. Marão disse:

    Parece-me que a questão subjacente é a motivação no trabalho. Na prolífica academia essa conceituação assume multi-nuanças. Creio podermos destacar o foco nas relações de trabalho diante das mudanças a reboque da revolução tecnológica, que vem acontecendo na economia globalizada. Nos dias de hoje, os clientes estão mais conscientes e exigentes de seus direitos nos setores público e privado. O pesquisador tem que ser polivalente, desempenhar ene-tarefas e papéis simultaneamente. Como ter esta performance se não há motivação no trabalho? Só emprego, salário, carteira assinada não motivam ninguém no trabalho. O que rola é gente empregada procurando emprego, disputando a tapa uma vaga com quem não a tem. Ambientes corporativos chatos, problemáticos, em condições ruins no que tange à organização, relações socioprofissionais, etc, desmotivam e levam à busca de um outro emprego. Isto influi nos indicadores críticos que bem demonstram ameaças ao bem-estar dos empregados, sejam eles pesquisadores, doutores, ou gente de apoio. Minam até as bases do que poderíamos chamar de desenvolvimento econômico e social sustentável.
    A falta de motivação no trabalho evolui para a desmotivação com a vida. Reverter tal quadro requer descobrir e investir no que os funcionários valorizam e os impelem às performances de excelência: o reconhecimento no trabalho, a autonomia responsável, a participação nas decisões, espaço para a criatividade e a possibilidade real de crescimento profissional. É conquistar o comprometimento dos empregados investindo no sentido humano do trabalho. Na falta de tudo isso, o cachorro corre atrás do rabo, fazendo cursos a perder de vista. É engraçado, mas não sai do lugar. Marão

  2. Mr. Bhyngo disse:

    Adultecer: Ser ou não ser?
    Parece que a cultura precisa recriar-se urgentemente. Vivemos um paradoxo: a sociedade chegou a um nível de desenvolvimento tecnológico espetacular no qual o indivíduo se conecta virtualmente com todos. Por outro lado, o distanciamento gerado causado pela competição, individualismo e o isolamento é gritante. A sociedade estimula valores nos quais se é mais fácil ter do que ser. Consequentemente, o indivíduo jovem que ingressa na vida adulta (adultecer) se vê diante do grande conflito conhecido há séculos – ser ou não ser?.
    Portanto, como tornar-se um adulto se para isso é necessário amar e ter um trabalho? Apaixonar-se e desejar são requisitos fundamentais para integração da personalidade do indivíduo – ser. E o pertencimento é que integra o indivíduo no social. Será que nosso comportamento como ser social facilitamos esse processo?
    O espaço para o sonho e a ilusão (acrescento aqui o virtual) da criança e do jovem é necessário se transformar e criar espaço para o real estruturador da pessoa. É mister se ter consciência de que o princípio da realidade é soberano ou sucumbiremos numa sociedade dia a dia mais patologizante.
    Em nós habita gansos e pavões, felinos e herbívoros. Ou anjos e demônios, bruxas e fadas, amantes, carrascos, santos, filósofos e bêbados.
    Sendo assim é com bons olhos que vejo a academia trazer, oportunamente, um tema tão desafiante. Como a biologia trata do estudo dos seres vivos: sua estrutura, funcionamento, evolução e inter-relações a quem mais caberia, fundamentalmente, instigar um debate sobre os nossos rumos?

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