Fabrício Barreto Teresa- O futuro do doutorado


Fabrício, nosso personagem de hoje, em ação
Foto de Daniel De Granville | Photo in Natura

Fabrício Barreto Teresa é biólogo, mestre em biologia animal e atualmente encontra-se na fase final do curso de doutorado em biologia animal na UNESP de São José do Rio Preto, SP. Suas pesquisas são financiadas pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP e envolvem aspectos ecológicos e comportamentais de organismos aquáticos em ambientes de água doce, em especial os peixes, focando mais especificamente na investigação dos fatores ambientais responsáveis pela organização das comunidades.

 

1) O que levou você a procurar a carreira científica? Como isto resultou no ingresso num programa de doutorado?

 O desejo pela carreira científica surgiu durante o curso de graduação em Biologia na UNESP. Meu interesse pelo ensino foi despertado com a prática, proferindo seminários, participando de projetos de extensão e também nos livros de Rubem Alves e a paixão pela pesquisa científica foi acentuada a partir dos estágios e iniciação científica. A partir dessas convicções busquei me qualificar, traçando um caminho em direção à carreira científica junto à Universidade. O ingresso no mestrado e, posteriormente no doutorado foram os caminhos naturais tendo em mente esses objetivos.

 

2) Quais os seus planos para sua carreira depois da titulação? Até o momento essa expectativa tem se cumprido?

Espero ingressar em uma Universidade Pública por meio de concurso para poder fazer o que mais gosto que é lecionar e desenvolver pesquisas. A oferta de vagas nas Universidades não tem acompanhado a demanda, por isso os concursos têm sido bem concorridos. Sou otimista e espero terminar o doutorado competitivo para pleitear uma vaga em curto prazo. Se isso não for possível, existem diversas oportunidades de pós-doutorado que são opções para recém-doutores desempregados manterem-se produtivos academicamente enquanto não são absorvidos pelas Universidades.

 

3)      Em linhas gerais, como é sua rotina de trabalho no doutorado?

O desenvolvimento da tese é a principal atividade. Acabei de terminar a coleta dos dados. Durante esse período fazia viagens ao campo para coletar peixes alternando com atividades no laboratório (identificação e pesagem dos peixes, análise do que comeram por meio da inspeção do conteúdo estomacal, etc). Agora estou na fase de análise dos dados e redação da tese buscando perceber padrões dentro do conjunto de dados que acumulei, uma etapa que exige muito tempo, reflexão e leitura. Paralelamente ao desenvolvimento da tese envolvo-me em atividades da Pós-Graduação tais como disciplinas, além de participar de outros projetos paralelos, palestras e eventos científicos.

 

4)      Quais os problemas que a pós-graduação no Brasil tem encarado?

Um dos problemas que destaco na Pós-Graduação é a sua concentração regional. Muitas regiões do Brasil não oferecem cursos de mestrado e/ou doutorado. Uma das causas é a falta de condições (recursos humanos e estruturais) para criação de cursos em muitas regiões. Por isso, o fortalecimento das instituições de ensino e pesquisa de nível superior por meio da contratação de profissionais qualificados e o
investimento na consolidação das Universidades são imprescindíveis. Outro aspecto relevante diz respeito à qualidade dos doutores que estão sendo formados. Por exemplo, a supervalorização da produção quantitativa de artigos científicos na Pós-Graduação tem resultado em um menor investimento no desenvolvimento de outras habilidades importantes para um doutor, tais como conhecimento filosófico e bases teóricas de ciência. O título de doutor tem sido banalizado e não é mais sinônimo de excelência.

 

5)      Que conselhos você daria a alguém considerando agora ingressar na carreira acadêmica?</p>

Sugiro inicialmente investir um bom tempo pensando sobre o assunto. Não é uma decisão banal, o tempo investido para se tornar competitivo nesse mercado de trabalho é muito longo. Quando você se torna apto a entrar em uma Universidade como docente/pesquisador já poderia ter uma carreira consolidada em outras áreas. Por isso, sugiro que se pense onde se quer estar daqui uns 10-15 anos. Se a carreira acadêmica estiver envolvida nessa projeção então siga em frente. Nesse caso, procure locais de bom nível para sua formação e durante a formação inicial (graduação) envolva-se ativamente com o máximo de atividades que a Universidade possa oferecer em diferentes áreas do conhecimento. Isso possibilitará identificar vocações e facilitará a escolha de uma área compatível com o seu perfil para investir na Pós-Graduação.

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Discussão - 3 comentários

  1. Clarissa disse:

    Imagino que houve má escolha de palavras do entrevistado ao afirmar “Um dos problemas que destaco na Pós-Graduação é a sua concentração regional. Muitas regiões do Brasil não oferecem cursos de mestrado e/ou doutorado” (Ou, eu espero que não tenha sido isso o que ele quis dizer). O Brasil possui apenas cinco regiões e, basta uma busca no site da capes para ver que há, sim, cursos em todas as regiões do país. Claro que em termos que consolidação e visibilidade, assim como das áreas mais fortes de pesquisa, isso difere entre as universidades e pode haver certa regionalização de certas áreas de pesquisa. Vindo de alguém que estudou toda a vida acadêmica no Sudeste (e em São Paulo), isso demonstra uma certa ignorância a respeito da pesquisa em outras regiões do Brasil. Especialmente para alguém que trabalha com Ecologia de Comunidades Aquáticas, ignorar grupos de pesquisa e pós-graduações em outras regiões denota ignorância ou recusa em reconhecer esses grupos.
    Outro detalhe é que algumas universidades foram CRIADAS nos últimos anos, especialmente em áreas menos desenvolvidas. Novos doutores foram contratados? Sim. Claro que não significa que essas contratações deram ou têm dado conta de absorver a massa de doutores sendo formados e que passam anos trabalhando como pós-doutores. Vale lembrar também a existência das bolsas de Desenvolvimento Científico Regional (DCR) do CNPq, que buscam consolidar áreas de pesquisa em universidades levando doutores para regiões menos tradicionalmente procuradas (geralmente o Norte, Nordeste e Centro-Oeste, mas conheço professor/pesquisador que passou pelo Nordeste e pelo Sul com uma dessas bolsas).
    Sim, o investimento em pesquisa e desenvolvimento das atividades na pós-graduação é ainda insuficiente na maioria das universidades, especialmente nas mais novas e que ainda precisam passar pela fase de ter os laboratórios e equipes equipados e consolidados. Porém, a realidade é que, ainda que as universidades paulistas tenham mais dinheiro e maior estrutura e formem mais doutores no total, não há estrutura para todos esses doutores permanecerem e serem absorvidos por universidades em São Paulo.

  2. bessa disse:

    Clarissa, acredito, como você, que tenha sido uma má escolha de palavras. Não é que não haja cursos nas outras regiões, eles são apenas mais raros e nem sempre tão tradicionais quanto os do principal eixo de produção científica nacional. Obrigado pela participação.

  3. Fabricio B Teresa disse:

    Não me referi as macroregiões geopolíticas (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, etc). Se fosse o caso, de fato estaria cometendo uma injustiça enorme. A pós-graduação se expandiu muito nos últimos anos por todo o Brasil, em especial no Norte, Nordeste e Centro-Oeste (http://www.anpg.org.br/gera_noticia.php?codigo=454&tipo=1), regiões que contam com excelentes programas e grupos de pesquisa de excelência (sim, reconheço e admiro-os). Meu ponto de vista referiu-se à região em um sentido latu sensu. Na maior parte dos estados brasileiros as pós-graduações encontram-se concentradas nas regiões metropolitanas. Entretanto, existem inúmeras unidades universitárias espalhados por outras regiões, com milhares de estudantes formados a cada ano e que não são atendidas por programas de mestrado e doutorado. Refiro-me a essa escala de concentração regional da pós-graduação. Tomemos como exemplo o estado de Goiás. Só a UEG tem cerca de 42 campus, a maior parte dos quais encontra-se distante da região metropolitana que é onde as pós-graduações se concentram. Isso limita o acesso de centenas de pessoas ao mestrado e doutorado. O mesmo problema acontece em muitos outros estados. E não podemos pensar somente nos recém formados que têm a chance de pleitear bolsas que os possibilitam ingressar em cursos distantes, mas também em uma parcela importante de professores graduados, especialistas e mestres que encontram grandes dificuldades para continuar sua qualificação. Mas o que fazer? O primeiro passo, dentro do meu ponto de vista, envolve o investimento na consolidação estrutural e de recursos humanos dos centros universitários nas micro ou mesoregiões do interior dos estados. A bolsa DCR citada acima, quando bem gerida é um exemplo de ações que contribuem para isso. Obrigado, abraços

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