{"id":263,"date":"2009-09-02T01:07:27","date_gmt":"2009-09-02T04:07:27","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/bessa\/2009\/09\/vivendo_na_merda\/"},"modified":"2009-09-02T01:07:27","modified_gmt":"2009-09-02T04:07:27","slug":"vivendo_na_merda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/2009\/09\/02\/vivendo_na_merda\/","title":{"rendered":"Vivendo na Merda"},"content":{"rendered":"<p>Aqui na UNEMAT estamos em plena realiza\u00e7\u00e3o do Ciclo de Estudos de Biologia de Tangar\u00e1 da Serra \u2013 BIOTA. Todo dia temos palestras e mini-cursos, pessoas novas de institui\u00e7\u00f5es distantes para interagir com nossos acad\u00eamicos (e n\u00f3s mesmos) e abrir novos horizontes. Muito ricas estas experi\u00eancias! Nos fazem ver o qu\u00e3o pouco sabemos, o tanto de coisas legais que h\u00e1 para explorar fora daquilo que j\u00e1 pesquisamos.<\/p>\n<p>&#160;<\/p>\n<p>Numa dessas esta tarde fui assistir a uma palestra sobre caracteres comportamentais e sistem\u00e1tica filogen\u00e9tica. O convidado, Fernando Vaz de Mello, da UFMT, tem se especializado em besouros rola-bosta e sua empolga\u00e7\u00e3o com o modelo \u00e9, digamos, contagiante. Esta subfam\u00edlia de besouros, os Scarabeinae, utilizam fezes como seu principal recurso alimentar, assim como fonte de nutrientes dos filhotes. Algumas esp\u00e9cies retiram um peda\u00e7o de esterco, moldam-no em uma esfera, e v\u00e3o rolando at\u00e9 um local onde enterram-na, remodelam-na, ovipositam ali dentro e podem permanecer ali para cuidar dos filhotes, s\u00e3o os chamados telecopr\u00eddeos. Outro grupo, o dos paracopr\u00eddeos, escava galerias sob o monte de merda preenchendo-as do recurso e colocando ali seus ovinhos. O \u00faltimo grupo deposita seus ovos em esferas de esterco dentro da pr\u00f3pria montanha de esterco, s\u00e3o os endocopr\u00eddeos. \u00c0 parte est\u00e3o diversas varia\u00e7\u00f5es destes comportamentos, como carregar o esterco sem rol\u00e1-lo, simplesmente depositar os ovos sem fazer bolinha nenhuma ou at\u00e9 trocar a bosta por uma apetitosa i\u00e7\u00e1 ou um emaranhado de plumas. Como et\u00f3logo meu instinto ficou ouri\u00e7ado para saber mais sobre os bichinhos de h\u00e1bito de vida t\u00e3o peculiar.<\/p>\n<p>&#160;<\/p>\n<p align=\"center\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-content\/uploads\/sites\/231\/2011\/08\/rolabosta.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px;border-top: 0px;border-left: 0px;border-bottom: 0px\" height=\"295\" alt=\"rolabosta\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-content\/uploads\/sites\/231\/2011\/08\/rolabosta_thumb1.jpg\" width=\"241\" border=\"0\" \/><\/a> <\/p>\n<p align=\"center\">Poucos animais s\u00e3o escultores t\u00e3o h\u00e1beis\u2026 <\/p>\n<p align=\"center\"> ou escolhem mat\u00e9ria prima mais duvidosa<\/p>\n<p align=\"center\">fonte: <a href=\"http:\/\/www.insecta.ufv.br\">www.insecta.ufv.br<\/a><\/p>\n<p>&#160;<\/p>\n<p>A despeito destes besouros viverem na merda literalmente, eles est\u00e3o melhores do que muitas esp\u00e9cies por a\u00ed. Afinal, seu nicho, pelo menos no que se refere \u00e0 dieta, n\u00e3o est\u00e1 escasso de forma alguma. Pior est\u00e1 a on\u00e7a-pintada de outra palestrante, a Nat\u00e1lia Mundim T\u00f4rres da UFG, em que cada indiv\u00edduo necessita para viver de uma \u00e1rea preservada de 100 km\u00b2 ou mais, dependendo da densidade de presas dispon\u00edveis a ela. Neste ponto bem est\u00e3o os rola-bostas, se h\u00e1 on\u00e7as eles chafurdam na bosta dela. Se s\u00f3 restaram suas presas, l\u00e1 v\u00e3o eles pro coc\u00f4 da capivara. Se nem isso a agropecu\u00e1ria deixou, que se pode fazer? chafurdam os besouros na merda de vaca! N\u00e3o h\u00e1 tempo ruim pra quem j\u00e1 vive na merda. Ou quem sabe a escolha evolutiva do grupo n\u00e3o seja t\u00e3o m\u00e1 assim. Os bichinhos capricham tanto em suas esferinhas e as levam com tamanha destreza que d\u00e1 gosto de ver (de nariz tampado, claro).<\/p>\n<p>&#160;<\/p>\n<p>A Biologia \u00e9 mesmo assim, linda em cada detalhe, desde que nos d\u00eamos tempo para olhar. Tudo vale a pena se a id\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 pequena.<\/p>\n<p>&#160;<\/p>\n<p>E falando em poesia, lembrei de uma escrita pelo Paulo Robson de Souza, bi\u00f3logo, no livro Poesia Animal que transcrevo um peda\u00e7o abaixo:<\/p>\n<p>&#160;<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>A peleja do Rola-bosta com a Formiga fazendeira<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">&#160;<\/p>\n<p align=\"center\">Era uma tarde ap\u00f3s a chuva.<\/p>\n<p align=\"center\">Um besour\u00e3o empurrava<\/p>\n<p align=\"center\">esterco sem usar luvas.<\/p>\n<p align=\"center\">sem querer, deu um esbarr\u00e3o<\/p>\n<p align=\"center\">numa formiga sa\u00fava.<\/p>\n<p align=\"center\">&#160;<\/p>\n<p align=\"center\">Que que \u00e9 isso, meu amigo?!<\/p>\n<p align=\"center\">&#8211; disse a formiga, espantada- ,<\/p>\n<p align=\"center\">na sua cabe\u00e7a chifruda<\/p>\n<p align=\"center\">tens esta merda rolada?<\/p>\n<p align=\"center\">Seu comedor de coc\u00f4!<\/p>\n<p align=\"center\">Quer partir para a porrada?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aqui na UNEMAT estamos em plena realiza\u00e7\u00e3o do Ciclo de Estudos de Biologia de Tangar\u00e1 da Serra \u2013 BIOTA. Todo dia temos palestras e mini-cursos, pessoas novas de institui\u00e7\u00f5es distantes para interagir com nossos acad\u00eamicos (e n\u00f3s mesmos) e abrir novos horizontes. Muito ricas estas experi\u00eancias! Nos fazem ver o qu\u00e3o pouco sabemos, o tanto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":475,"featured_media":264,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[10,14],"tags":[167,186,520,903,1080],"class_list":["post-263","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-divulgacao-cientifica","category-vida-academica","tag-besouro","tag-biota","tag-fernando-vaz-de-mello","tag-paulo-robson-de-souza","tag-rola-bosta"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-content\/uploads\/sites\/231\/2011\/08\/rolabosta_thumb.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/263","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-json\/wp\/v2\/users\/475"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=263"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/263\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-json\/wp\/v2\/media\/264"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/bessa\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}