{"id":325,"date":"2012-05-08T13:35:47","date_gmt":"2012-05-08T16:35:47","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/?p=325"},"modified":"2012-05-08T13:35:47","modified_gmt":"2012-05-08T16:35:47","slug":"resgates-de-fauna-suas-verdades-ocultas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/2012\/05\/08\/resgates-de-fauna-suas-verdades-ocultas\/","title":{"rendered":"Resgates de fauna e suas verdades ocultas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">por Rafael Marcondes, Luciano Moreira Lima &amp; Guilherme Garbino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Recentemente foi amplamente <a href=\"http:\/\/www.rondoniaovivo.com\/noticias\/santo-antonio-animais-silvestres-morrem-afogados-no-lago-da-usina-consorcio-construtor-diz-que-foram-apenas-cerca-de-500-fotos-e-video\/86796\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">noticiado<\/a><strong><\/strong> a morte em massa de animais silvestres afogados devido ao enchimento da represa da Usina Hidrel\u00e9trica de Santo Ant\u00f4nio, que est\u00e1 sendo constru\u00edda no Rio Madeira, pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Porto Velho &#8211; RO. De acordo com uma pessoa que trabalhou nas atividades de\u00a0 resgate de fauna durante o enchimento do lago da usina, o resgate foi ineficaz e houve um verdadeiro exterm\u00ednio de animais na regi\u00e3o. Antas, tatus, pacas, cotias e diversos outros bichos se afogaram, morreram e apodreceram nas \u00e1guas do Madeira. O cons\u00f3rcio Santo Ant\u00f4nio Energia, respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o da usina <a href=\"http:\/\/www.renctas.org.br\/pt\/informese\/noticias_nacional_detail.asp?id=6114\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">respondeu<\/a> que realmente ocorreram mortes, mas elas teriam sido m\u00edseros &#8220;1,8%\u201d do total de animais resgatados, 25.517, e que desses, 97,7% haviam sido devolvidos &#8220;saud\u00e1veis&#8221; a natureza.<\/p>\n<div id=\"attachment_336\" style=\"width: 555px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/usina-santo-antonio-4.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-336\" class=\"size-medium wp-image-336\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/usina-santo-antonio-4-545x408.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"408\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-336\" class=\"wp-caption-text\">Um dos milh\u00f5es de animais afogados pelo enchimento do lago da Usina Hidrel\u00e9trica de Santo Ant\u00f4nio, Rio Madeira, Rond\u00f4nia. Fonte - aqui -<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Um pequeno exerc\u00edcio matem\u00e1tico revela uma verdade oculta e macabra por traz s\u00e3o desses n\u00fameros. Vamos raciocinar um pouco&#8230; Uma esp\u00e9cie t\u00edpica de ave passeriforme possui uma densidade populacional de 1 casal a cada 5 hectares, ou 1 indiv\u00edduo a cada 2,5 hectares (Terborgh <em>et al.<\/em> 1990). Segundo a pr\u00f3pria<strong><\/strong> Santo Ant\u00f4nio Energia, a \u00e1rea a ser alagada \u00e9 de 16.400 hectares. Essa \u00e1rea comporta, portanto, cerca de 6.560 indiv\u00edduos de uma esp\u00e9cie t\u00edpica de p\u00e1ssaro. Numa estimativa, conservadora, 200 esp\u00e9cies de passeriformes ocorrem na regi\u00e3o do alto Rio Madeira. Multiplicando 6.560 por 200, chegamos a outra estimativa, tamb\u00e9m conservadora, de mais de 1 milh\u00e3o de p\u00e1ssaros na \u00e1rea a ser inundada! Apenas de aves passeriformes! N\u00e3o estamos contando as demais aves, nem r\u00e9pteis, anf\u00edbios, mam\u00edferos, borboletas e a m\u00edriade de outros invertebrados. Se os cont\u00e1ssemos, facilmente a conta chegaria a bilh\u00f5es de animais. Nesse contexto, a afirma\u00e7\u00e3o da empresa de que teriam sido 459, ou melhor, 459,306 para ser mais exato, os animais mortos pelo alagamento dispensa mais coment\u00e1rios.<\/p>\n<div id=\"attachment_337\" style=\"width: 555px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-337\" class=\"size-medium wp-image-337\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/Sto-antonio-545x363.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"363\" \/><p id=\"caption-attachment-337\" class=\"wp-caption-text\">Usina Hidrel\u00e9trica de Santo Ant\u00f4nio, Rio Madeira, Rond\u00f4nia, ainda em fase de constru\u00e7\u00e3o. Com as obras completamente conclu\u00eddas mais de 16.000 hectares de florestas estar\u00e3o para sempre submersos.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Vamos deixar um pouco de lado os infortunados que n\u00e3o conseguiram embarcar na Arca de No\u00e9 e nos concentrar em analisar o destino desses quase 25 mil animais resgatados e devolvidos &#8220;saud\u00e1veis&#8221; a natureza. Um \u00f3timo ponto de partida para nos enveredarmos nessa quest\u00e3o \u00e9 um elucidativo artigo do Professor Marcos Rodrigues, da UFMG, publicado em 2006 na revista <em>Natureza &amp; Conserva\u00e7\u00e3o<\/em>. Nessa publica\u00e7\u00e3o o autor levanta uma s\u00e9rie de quest\u00f5es sobre o destino dos animais realocados, compartilhadas abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O objetivo declarado dos resgates de fauna \u00e9 salvar animais que de outra maneira se afogariam. Para isso, equipes de bi\u00f3logos e veterin\u00e1rios capturam animais, principalmente vertebrados, durante o enchimento da represa. Os animais capturados passam um breve per\u00edodo em centros de reabilita\u00e7\u00e3o e em seguida s\u00e3o liberados em \u00e1reas que, teoricamente, possuem caracter\u00edsticas semelhantes \u00e0quelas de onde foram retirados, mas onde, obviamente, n\u00e3o haver\u00e1 alagamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Embora l\u00f3gico a primeira vista, esse procedimento parece ignorar o fato que muitas das esp\u00e9cies inclu\u00eddas nesse bolo s\u00e3o territorialistas. Nesses casos, cada indiv\u00edduo, casal ou bando, dependendo da esp\u00e9cie, defende uma \u00e1rea da floresta (ou cerrado, caatinga, etc.), mantendo um territ\u00f3rio geralmente com fronteiras muito bem delimitadas. As vantagens do animal manter um territ\u00f3rio est\u00e3o relacionadas principalmente com competi\u00e7\u00e3o por recursos, incluindo alimento, abrigo e parceiros reprodutivos. Por isso, muitas esp\u00e9cies defendem exaustivamente seus territ\u00f3rios, n\u00e3o tolerando indiv\u00edduos da mesma, ou, por vezes, at\u00e9 de outras esp\u00e9cies. Em um ecossistema em equil\u00edbrio, geralmente a maior parte do espa\u00e7o est\u00e1 ocupada por territ\u00f3rios de uma dada esp\u00e9cie, imediatamente onde termina o territ\u00f3rio de um indiv\u00edduo, j\u00e1 come\u00e7a o de outro. \u00c1reas &#8220;desocupadas&#8221; geralmente n\u00e3o apresentam recursos necess\u00e1rios para aquela esp\u00e9cie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O leitor provavelmente j\u00e1 entendeu onde acabaremos chegando. Ora pois, os animais resgatados s\u00e3o soltos em \u00e1reas onde geralmente n\u00e3o h\u00e1 territ\u00f3rios vagos, o que, consequentemente, resultar\u00e1 em uma superpopula\u00e7\u00e3o local da esp\u00e9cie. O que acontecer\u00e1 ent\u00e3o com esses indiv\u00edduos? As op\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o muitas e, possivelmente, eles tentar\u00e3o tomar o territ\u00f3rio de um indiv\u00edduo j\u00e1 estabelecido. No entanto, as chances de sucesso s\u00e3o baixas, pois o rec\u00e9m-chegado, al\u00e9m de n\u00e3o conhecer o novo local, provavelmente estar\u00e1 em m\u00e1-forma e estressado, ap\u00f3s fugir da inunda\u00e7\u00e3o, ser mantido em gaiolas, transportado etc., diminuindo ainda mais suas chances.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Caso n\u00e3o morra por motivos resultantes de disputas territoriais, o &#8220;invasor&#8221; poder\u00e1 tornar-se um \u201csat\u00e9lite\u201d: indiv\u00edduos que vagam em busca de um territ\u00f3rio desocupado. As chances de sobreviv\u00eancia de um sat\u00e9lite, no entanto, s\u00e3o baixas, pois ele tem menor acesso a recursos e constantemente tem que se envolver em disputas com indiv\u00edduos cujos territ\u00f3rios ele invade. Al\u00e9m disso, quanto maior o n\u00famero de sat\u00e9lites, mais tempo os indiv\u00edduos territoriais tem que passar se defendendo, diminuindo assim o tempo dedicado a atividades como alimenta\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o. Ou seja, a introdu\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos translocados pode impactar seriamente as popula\u00e7\u00f5es naturais j\u00e1 estabelecidas<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Assim, fica claro que resgates de fauna s\u00e3o muito pouco efetivos frente ao n\u00famero de animais afetados no alagamento causado por uma usina hidrel\u00e9trica de grandes propor\u00e7\u00f5es, ou pior, podem funcionar como um \u201ctiro no p\u00e9\u201d. No entanto, \u00e9 uma atividade com grande repercuss\u00e3o na m\u00eddia (quem nunca viu na televis\u00e3o cenas de animais sendo resgatados por helic\u00f3pteros e depois saindo de gaiolas para a \u201cliberdade\u201d da floresta?) e popular frente \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, que acredita que os animais est\u00e3o realmente sendo \u201csalvos\u201d e ignoram que outros centenas de milh\u00f5es foram, literalmente, por \u00e1gua abaixo ou sentenciados a vagar sem rumo nem dire\u00e7\u00e3o pela floresta tal qual refugiados de um verdadeiro massacre. Problema? Nenhum&#8230; Afinal, o que os olhos n\u00e3o veem o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sente.<\/p>\n<p><strong><em>Post scriptum:\u00a0<\/em><\/strong>Reproduzo aqui um pertinente coment\u00e1rio sobre o texto acima feito no FaceBook por\u00a0Vitor de Queiroz Piacentini, o qual lan\u00e7a luz sobre mais um grave problema associado a resgates de fauna e n\u00e3o abordado diretamente no nosso texto.<\/p>\n<blockquote><p>O texto t\u00e1 muito bom, e poderia ir at\u00e9 mais longe: os resgates em rios divisores de fauna (= esp\u00e9cies ou subesp\u00e9cies aparentadas substituindo-se em margens opostas dos rios) simplesmente ignoram o papel biogeogr\u00e1fico desses rios. O bicho-pregui\u00e7a da margem direita t\u00e1 h\u00e1 694.750 anos sem contato com a popula\u00e7\u00e3o da margem esquerda? N\u00e3o faz mal, solta tudo no mesmo buraco! Danem-se os padr\u00f5es filogeogr\u00e1ficos que a evolu\u00e7\u00e3o levou anos construindo (os n\u00fameros do exemplo s\u00e3o hipot\u00e9ticos, mas sei de fonte segura que mais de 200 pregui\u00e7as de uma margem foram soltas na outra!)<\/p><\/blockquote>\n<div id=\"attachment_327\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-327\" class=\"size-full wp-image-327 \" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/496990-little-squirrelmonkey-hiding-it-s-face-while-sitting-on-a-branch.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/496990-little-squirrelmonkey-hiding-it-s-face-while-sitting-on-a-branch.jpg 400w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/496990-little-squirrelmonkey-hiding-it-s-face-while-sitting-on-a-branch-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><p id=\"caption-attachment-327\" class=\"wp-caption-text\">O que os olhos n\u00e3o veem... <\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Fontes:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Rodrigues, M. 2006. <em>Hidrel\u00e9tricas, Ecologia Comportamental, Resgate de Fauna: uma Fal\u00e1cia<\/em>. <strong>Natureza &amp; Conserva\u00e7\u00e3o<\/strong>, vol. 4, n. 1, p. 29-38. (A maior parte das informa\u00e7\u00f5es, racioc\u00ednio e conclus\u00f5es desse post foi adaptada deste excelente artigo.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Terborgh, J. <em>et al.<\/em> 1990. <em>Structure and organization of an Amazonian forest bird community<\/em>. <strong>Ecological Monographs<\/strong>, vol. 60, p. 213-238.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Rafael Marcondes, Luciano Moreira Lima &amp; Guilherme Garbino Recentemente foi amplamente noticiado a morte em massa de animais silvestres afogados devido ao enchimento da represa da Usina Hidrel\u00e9trica de Santo Ant\u00f4nio, que est\u00e1 sendo constru\u00edda no Rio Madeira, pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Porto Velho &#8211; RO. De acordo com uma pessoa que trabalhou nas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":461,"featured_media":336,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[2,3,11,17],"tags":[],"class_list":["post-325","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-biodiversidade","category-conservacao","category-hidreletricas","category-noticias"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/usina-santo-antonio-4.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/325","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-json\/wp\/v2\/users\/461"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=325"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/325\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-json\/wp\/v2\/media\/336"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=325"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=325"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=325"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}