{"id":343,"date":"2012-05-20T19:39:58","date_gmt":"2012-05-20T22:39:58","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/?p=343"},"modified":"2012-05-20T19:39:58","modified_gmt":"2012-05-20T22:39:58","slug":"primatofobia-questoes-existenciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/2012\/05\/20\/primatofobia-questoes-existenciais\/","title":{"rendered":"Primatofobia e quest\u00f5es existenciais&#8230;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\">por Guilherme Garbino<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Foi na primeira metade s\u00e9culo XVI que Cop\u00e9rnico retirou a terra do centro do universo, trocando-a pelo Sol. Ap\u00f3s correr um s\u00e9rio risco de ser queimado vivo, o cientista retirou suas alega\u00e7\u00f5es. Anos depois, Galileu Galilei, considerado um dos pais do m\u00e9todo cient\u00edfico, fez a mesma afirma\u00e7\u00e3o e foi condenado a pris\u00e3o domiciliar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Incrivelmente, s\u00f3 dois s\u00e9culos depois de Galileu ter jogado o planeta Terra para escanteio \u00e9 que surgiram os primeiros ind\u00edcios de um outro reposicionamento universal, o do lugar do ser humano no universo, assumindo nossa esp\u00e9cie a posi\u00e7\u00e3o de \u00a0\u201capenas outro grande s\u00edmio\u201d. Mais estranho ainda \u00e9 pensar que o \u201cPr\u00edncipe dos Bot\u00e2nicos\u201d, Carl Linnaeus, o grande classificador do s\u00e9culo XVIII e indubitavelmente um n\u00e3o-evolucionista, colocou o <em>Homo sapiens <\/em>dentro da ordem Primates.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na d\u00e9cima edi\u00e7\u00e3o de seu <em>Systema Naturae<\/em>, Linnaeus criou o g\u00eanero <em>Homo<\/em>. Originalmente, o g\u00eanero inclu\u00eda duas esp\u00e9cies: <em>Homo sapiens <\/em>e <em>Homo troglodytes<\/em>. Como de praxe, o autor oferece uma diagnose de suas esp\u00e9cies. A descri\u00e7\u00e3o de <em>H. sapiens<\/em> s\u00e3o apenas tr\u00eas palavras: <em>Nosce te ipsum <\/em>(Conhe\u00e7a a ti mesmo).\u00a0 A segunda esp\u00e9cie de <em>Homo<\/em>, entretanto,<em> <\/em>claramente refere-se a uma criatura mitol\u00f3gica que, pelas fontes citadas por Linnaeus, seriam seres albinos habitantes de cavernas. H\u00e1 tamb\u00e9m um relato do viajante holand\u00eas Jakob de Bondt que se refere a uma criatura que pode ser uma orangotango f\u00eamea ou uma mulher com hipertricose. O <em>Homo troglodytes <\/em>de Linnaeus n\u00e3o tem nada a ver com o <em>Simia troglodytes <\/em>de Blumenbach, este \u00faltimo o nome cient\u00edfico do chimpanz\u00e9 (hoje <em>Pan troglodytes<\/em>). O sistema binomial de nomenclatura admite o mesmo ep\u00edteto espec\u00edfico em g\u00eaneros diferentes.<\/p>\n<div id=\"attachment_349\" style=\"width: 217px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-349\" class=\"size-full wp-image-349\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino1.jpg\" alt=\"\" width=\"207\" height=\"316\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino1.jpg 207w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino1-197x300.jpg 197w\" sizes=\"(max-width: 207px) 100vw, 207px\" \/><p id=\"caption-attachment-349\" class=\"wp-caption-text\">Figura de Jacob de Bondt, uma das fontes de Linnaeus, retratando um dos human\u00f3ides por ele observado durante duas viagens \u00e0s col\u00f4nias holandesas nas ilhas do sudeste asi\u00e1tico.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">A \u00faltima esp\u00e9cie de <em>Homo <\/em>descrita por Linnaeus, o <em>Homo Lar,<\/em> tamb\u00e9m \u00e9 uma criatura real, nesse caso gib\u00e3o de lar (hoje <em>Hylobates lar<\/em>),<em> <\/em>que foi descrito, assim como outros primatas, em seu <em>Mantissa Plantarum<\/em>, embora, at\u00e9 onde sei, n\u00e3o se trate de uma esp\u00e9cie de planta. Tr\u00eas novas esp\u00e9cies de \u201cs\u00edmios\u201d<em> <\/em>foram ainda posteriormente descritas por Linnaeus, em 1760, na disserta\u00e7\u00e3o de seu aluno, Hoppius, entitulada <em>Anthropomorpha <\/em>(at\u00e9 meados do s\u00e9culo XIX era costume na Su\u00e9cia que o professor escrevesse a tese e o aluno apenas arcasse com os custos!): <em>Simia Satyrus<\/em>, <em>Simia Lucifer <\/em>e<em> Simia Pygmaeus; <\/em>Todas baseadas em ilustra\u00e7\u00f5es das quais a \u00fanica que se refere a uma criatura real \u00e9 <em>Simia Pygmaeus<\/em>, o orangotango de Born\u00e9u que o classificador sueco nomeou <em>pygmaeus <\/em>por pensar ser esse um membro da ra\u00e7a de pigmeus mencionada por Homero.<\/p>\n<div id=\"attachment_348\" style=\"width: 307px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-348\" class=\"size-full wp-image-348\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino2.jpg\" alt=\"\" width=\"297\" height=\"167\" \/><p id=\"caption-attachment-348\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00f5es dos \u201cAnthropomorpha\u201d de Linnaeus, presentes no livro de Hoppius. Da esquerda para a direita: Simia Troglodyta, S\u00edmia L\u00facifer, S\u00edmia Satyrus e Simia Pygmaeus.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Embora essa primeira classifica\u00e7\u00e3o tenha um teor otimista e de justi\u00e7a filogen\u00e9tica (ao menos para mim, que leio isso em 2012), colocando os humanos firmemente na Ordem que inclu\u00eda os outros macacos, l\u00eamures, t\u00e1rsios, colugos e morcegos, a classifica\u00e7\u00e3o de Linnaeus, vale lembrar, tinha um car\u00e1ter pr\u00e1tico e artificial, agrupando os seres vivos, por vezes, com base em um \u00fanico car\u00e1ter similar compartilhado (no caso de Primates, o n\u00famero de incisivos). Para termos alguma no\u00e7\u00e3o de como essa classifica\u00e7\u00e3o do homem foi recebida numa Europa antropoc\u00eantria, o alem\u00e3o Blumenbach, em 1775, apontou que o grande erro de Linnaeus foi misturar atributos dos s\u00edmios com os do homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A escola francesa p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o e os alem\u00e3es, no entanto, insistiram em dar um lugar especial ao homem; nesse sentido, nomes muito conhecidos como Georges Cuvier, \u00c9tienne Geoffroy Saint-Hilaire e Johann Blumenbach separaram o <em>Homo sapiens <\/em>em uma ordem exclusiva de mam\u00edferos, Bimana (&#8220;duas m\u00e3os&#8221;), e os outros primatas na ordem Quadrumana (&#8220;quatro m\u00e3os&#8221;). Sir Richard Owen, diretor do Museu Brit\u00e2nico, foi al\u00e9m e classificou o homem como \u00fanico representante de Archencephala (ou c\u00e9rebros dominantes) uma de suas quatro subclasses de Mammalia, com base em caracter\u00edsticas supostamente \u00fanicas de nosso enc\u00e9falo. \u00a0Na \u00e9poca essa id\u00e9ia foi veementemente contestada, principalmente por Thomas H. Huxley.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O extremo talvez tenha sido atingido, em pleno s\u00e9culo XX, por Julian Huxley, neto de T. H. Huxley, que em 1942 prop\u00f4s separar o homem em um Reino a parte, o &#8220;Psicozoa&#8221;, argumentando que possu\u00edmos o car\u00e1ter \u00fanico de cultura e &#8220;dom\u00ednio do mundo&#8221; (o que quer que isso queira dizer). Os homens, principalmente os do sexo masculino da Europa e dos EUA, simplesmente se recusavam a aceitar nosso passado simiesco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Somente um s\u00e9culo ap\u00f3s Linnaeus outros naturalistas voltaram a incluir o homem em Primates. Ningu\u00e9m menos que Charles Darwin, em seu livro de 1871, &#8220;The Descent of Man and selection in relation to Sex&#8221; (A Descend\u00eancia do Homem e Sele\u00e7\u00e3o em Rela\u00e7\u00e3o ao Sexo), prop\u00f4s, depois desse enorme hiato, que &#8220;o homem, sob um ponto de vista geneal\u00f3gico, pertence aos Catarhini (sic)&#8221;. Ao saber disso, a mulher do bispo de Worcester exclamou a famosa frase: &#8220;descendente de s\u00edmios! Querido, vamos rezar para que isso n\u00e3o seja verdade, mas se for rezemos para que isso n\u00e3o se espalhe!&#8221;.<\/p>\n<div id=\"attachment_347\" style=\"width: 355px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-347\" class=\"size-full wp-image-347 \" style=\"margin-left: 20px;margin-right: 20px\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino3.jpg\" alt=\"\" width=\"345\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino3.jpg 345w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino3-276x300.jpg 276w\" sizes=\"(max-width: 345px) 100vw, 345px\" \/><p id=\"caption-attachment-347\" class=\"wp-caption-text\">Charge do s\u00e9culo XIX, onde o gorila diz \u201cAquele homem quer meu pedigree. Ele diz que \u00e9 um de meus descendentes\u201d. Sr. Bergh (um dos fundadores da sociedade protetora dos animais) responde \u201cSr. Darwin, como voc\u00ea p\u00f4de insulta-lo dessa maneira?\u201d. (Fonte: http:\/\/claesjohnsonmathscience.wordpress.com\/2011\/12\/15\/scientists-and-science-in-cartoons\/)<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Essa avers\u00e3o ao \u201crebaixamento\u201d do homem fez com que mesmo os anatomistas mais experientes do ocidente ignorassem a evid\u00eancia diante dos seus olhos. De fato, W.K. Gregory, em artigo publicado na <em>Science<\/em>, criou o termo \u201cpitecofobia&#8221;, que fica perfeitamente definido nas pr\u00f3prias palavras do autor (em tradu\u00e7\u00e3o livre minha): &#8220;Esse novo tipo de fobia pode, portanto, ser chamada de pitecofobia, ou o medo de s\u00edmios, especialmente o medo de s\u00edmios como parentes pr\u00f3ximos ou ancestrais&#8221;. E depois adiciona, com sarcasmo: &#8220;Durante os \u00faltimos anos essa fobia se tornou quase pand\u00eamica; especialmente nas comunidades rurais&#8221;.<\/p>\n<div id=\"attachment_346\" style=\"width: 198px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-346\" class=\"size-full wp-image-346\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino4.jpg\" alt=\"\" width=\"188\" height=\"239\" \/><p id=\"caption-attachment-346\" class=\"wp-caption-text\">William King Gregory (1876-1970), mastozo\u00f3logo e antrop\u00f3logo do American Museum of Natural History em Nova Iorque.<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Hoje o homem \u00e9 classificado (pela maioria dos autores) como membro da fam\u00edla Hominidae, que tamb\u00e9m inclui os chimpanz\u00e9s e bonobos (g\u00eanero <em>Pan<\/em>), gorilas (g\u00eanero <em>Gorilla<\/em>) e os orangotangos (<em>Pongo<\/em>), sendo que nosso g\u00eanero teria se separado de <em>Pan <\/em>h\u00e1 mais ou menos 6 milh\u00f5es de anos. Existe ainda o que seria impens\u00e1vel pelos vitorianos do s\u00e9culo XIX: a proposta da cria\u00e7\u00e3o de um &#8220;direito dos grandes-s\u00edmios&#8221;, de maneira similar aos Direitos Humanos, mas distinta dos Direitos Animais, o \u201cGreat Ape Project\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_345\" style=\"width: 435px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-345\" class=\"size-full wp-image-345\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino5.jpg\" alt=\"\" width=\"425\" height=\"286\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino5.jpg 425w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/05\/garbino5-300x202.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><p id=\"caption-attachment-345\" class=\"wp-caption-text\">Filogenia dos Hominoidea vivente, com alguns f\u00f3sseis-chave inclu\u00eddos (Fonte: Scientific American, 16:4-13. Junho de 2006)<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse exemplo serve para nos mostrar como preconcep\u00e7\u00f5es err\u00f4neas e fortemente enviesadas fazem com que um corpo enorme de evid\u00eancia seja ignorado, ou que haja uma &#8220;for\u00e7ada de barra&#8221; para garantir nossa exclusividade, como fez J. Huxley. Como respons\u00e1vel por tantas outras mudan\u00e7as de paradigma na biologia, a evolu\u00e7\u00e3o de Darwin e Wallace cimentou o pedestal humano junto aos outros grandes s\u00edmios e de lambuja respondeu duas das grandes perguntas existenciais que sempre acompanharam a humanidade: &#8220;quem somos e de onde viemos&#8221;. Para saber para onde vamos &#8220;<em>ligue dj\u00e1&#8221;<\/em>\u00a0para o seu vidente de confian\u00e7a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Guilherme Garbino Foi na primeira metade s\u00e9culo XVI que Cop\u00e9rnico retirou a terra do centro do universo, trocando-a pelo Sol. 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