{"id":359,"date":"2012-08-04T10:42:58","date_gmt":"2012-08-04T13:42:58","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/?p=359"},"modified":"2012-08-04T10:42:58","modified_gmt":"2012-08-04T13:42:58","slug":"bichos-brasil-urutaus-maes-da-lua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/2012\/08\/04\/bichos-brasil-urutaus-maes-da-lua\/","title":{"rendered":"Bichos do Brasil: urutaus e m\u00e3es-da-lua"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_367\" style=\"width: 555px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/2012\/08\/bichos-brasil-urutaus-maes-da-lua\/urutau-gussoni-3\/\" rel=\"attachment wp-att-367\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-367\" class=\"size-medium wp-image-367 \" title=\"M\u00e3e-da-lua\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/08\/urutau-gussoni2-545x351.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"351\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-367\" class=\"wp-caption-text\">Uma m\u00e3e-da-lua (Nyctibius griseus) mostrando todo seu charme. <a href=\"http:\/\/www.wikiaves.com.br\/227594\">Foto por Carlos Gussoni no site Wikiaves<\/a>.<\/p><\/div>\n<p>O nome popular j\u00e1 diz muito sobre essas aves: \u201curutau\u201d vem do guarani <em>guyra <\/em>(ave) e <em>tau <\/em>(fantasma). Tratam-se dos membros da fam\u00edlia Nyctibiidae, conhecidos como urutaus ou m\u00e3es-da-lua, um dos grupos mais fascinantes (e bizarros) de aves brasileiras. Essa pequena fam\u00edlia inclui sete esp\u00e9cies de aves noturnas, cinco das quais ocorrem no Brasil. Todas s\u00e3o inclu\u00eddas no g\u00eanero <em>Nyctibius<\/em> e exclusivas dos neotr\u00f3picos (regi\u00e3o biogeogr\u00e1fica que inclui a Am\u00e9rica do Sul, Central, partes do M\u00e9xico e do extremo sul dos Estados Unidos).<\/p>\n<p>Muita gente chama os urutaus de feios, mas eu prefiro dizer que eles s\u00e3o apenas estranhos. Os membros dessa fam\u00edlia t\u00eam uma cabe\u00e7a enorme e a boca descomunal, mas o bico \u00e9 min\u00fasculo. E ainda por cima seus enormes olhos s\u00e3o esbugalhados e amarelos. As p\u00e1lpebras possuem uma engenhosa adapta\u00e7\u00e3o: duas pequenas incis\u00f5es que permitem \u00e0 ave enxergar mesmo com o olho fechado.<\/p>\n<p>A plumagem \u00e9 cinza ou amarronzada. Essas cores, em conjun\u00e7\u00e3o com o h\u00e1bito de pousar em postura ereta na ponta de galhos verticais, conferem aos urutaus uma das melhores camuflagens dentre todas as aves do mundo. Essa postura \u00e9 assumida at\u00e9 mesmo pelos filhotes mal sa\u00eddos do ovo. Podem ter seus poleiros de descanso diurno em mour\u00f5es de cerca ou outros troncos totalmente expostos, em plena luz do dia, tal \u00e9 a excel\u00eancia de sua camuflagem. Com certa freq\u00fc\u00eancia s\u00e3o surpreendidos nesses poleiros, e, de t\u00e3o estranhos que s\u00e3o, acabam virando at\u00e9 not\u00edcia de jornal, como foi o caso at\u00e9 mesmo <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ciencia\/ult306u13806.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">em plena capital paulista<\/a>.<\/p>\n<div id=\"attachment_371\" style=\"width: 304px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/2012\/08\/bichos-brasil-urutaus-maes-da-lua\/485843g\/\" rel=\"attachment wp-att-371\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-371\" class=\"wp-image-371 \" title=\"M\u00e3e-da-lua camuflagem\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/08\/485843g-545x818.jpg\" alt=\"\" width=\"294\" height=\"442\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-371\" class=\"wp-caption-text\">Uma m\u00e3e-da-lua em sua postura de camuflagem. Observe os entalhes na margem da p\u00e1lpebra que permitem que o animal enxergue mesmo o com os olhos fechados. <a href=\"http:\/\/www.wikiaves.com.br\/485843\">Foto por Ricardo Q. T. Rodrigues no site Wikiaves.<\/a><\/p><\/div>\n<p>Como se esses h\u00e1bitos cr\u00edpticos j\u00e1 n\u00e3o bastassem para dar um ar fantasmag\u00f3rico aos urutaus, suas vocaliza\u00e7\u00f5es podem ser ainda mais estranhas. Variam desde o melanc\u00f3lico <a href=\"http:\/\/www.wikiaves.com.br\/62199&amp;p=1&amp;tm=s&amp;t=s&amp;s=10538\">lamento<\/a> da m\u00e3e-da-lua (<em>Nyctbius griseus<\/em>) &#8211; citado diversas vezes por Guimar\u00e3es Rosa em seu <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em> &#8211; at\u00e9 o aterrorizante <a href=\"http:\/\/www.wikiaves.com.br\/43027&amp;p=1&amp;tm=s&amp;t=s&amp;s=10536\">berro<\/a> da m\u00e3e-da-lua-gigante (<em>Nyctibius grandis<\/em>). Imagine o que os primeiros europeus a chegar a nossas terras n\u00e3o devem ter pensado ao ouvir essas vozes sinistras ecoando na noite&#8230;<\/p>\n<p>Tudo isso levou o urutau a ser figura popular no folclore brasileiro. Uma das hist\u00f3rias mais difundidas conta que a m\u00e3e-da-lua seria uma jovem que perdeu seu amor. Era uma menina do sert\u00e3o muito feia, mas muito inteligente. Certa noite, encontrou um belo pr\u00edncipe nas redondezas e conseguiu impression\u00e1-lo com sua intelig\u00eancia. Quando o pr\u00edncipe estava prestes a pedi-la em casamento, a lua cheia surgiu por detr\u00e1s das montanhas, iluminando o rosto da jovem. Assustado com sua fei\u00fara, o pr\u00edncipe fugiu para nunca mais voltar. Desolada, a garota procurou uma feiticeira e pediu para ser transformada em uma ave, para buscar o pr\u00edncipe onde quer que ele estivesse. A feiticeira consentiu, e assim nasceu a m\u00e3e-da-lua. No entanto, mesmo ap\u00f3s longa procura, a garota em forma de ave n\u00e3o conseguiu encontrar o pr\u00edncipe. Voltou \u00e0 feiticeira e pediu para ser transformada de volta em gente, mas isso estava fora dos poderes da bruxa. Desde ent\u00e3o, a garota vaga pela noite como uma ave feia e triste, e sempre que aparece a lua, solta seu pio melanc\u00f3lico \u201cfoi, foi, foi&#8230;\u201d, lembrando do pr\u00edncipe que a deixou.<\/p>\n<div id=\"attachment_375\" style=\"width: 337px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/2012\/08\/bichos-brasil-urutaus-maes-da-lua\/378715g\/\" rel=\"attachment wp-att-375\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-375\" class=\" wp-image-375 \" title=\"Nyctibius grandis\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/08\/378715g-545x650.jpg\" alt=\"\" width=\"327\" height=\"390\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-375\" class=\"wp-caption-text\">Uma m\u00e3e-da-lua gigante (Nyctibius grandis), a maior esp\u00e9cie da fam\u00edlia e dona de aterrorizante vocaliza\u00e7\u00e3o. <a href=\"http:\/\/www.wikiaves.com.br\/378715\">Foto por Celuta Machado.<\/a><\/p><\/div>\n<p>Voltando agora ao aspecto mais cient\u00edfico, a fam\u00edlia Nyctibiidae \u00e9 parte da ordem Caprimulgiformes, que inclui outras aves noturnas, como os igualmente bizarros \u201cfrogmouths\u201d (fam\u00edlia Podargidae) da \u00c1sia e Oceania e os mais familiares bacuraus e curiangos (Caprimulgidae). Suas caracter\u00edsticas \u00fanicas, no entanto, e a exist\u00eancia de um urutau f\u00f3ssil datado de 25 milh\u00f5es de anos (<em>Euronyctibius kurochnikii<\/em>) n\u00e3o deixam d\u00favidas que se trata de um grupo muito antigo e distinto. Este f\u00f3ssil prov\u00e9m da Fran\u00e7a, sugerindo que a fam\u00edlia j\u00e1 teve uma distribui\u00e7\u00e3o bem mais ampla que a atual. A pr\u00f3pria separa\u00e7\u00e3o entre as esp\u00e9cies da fam\u00edlia aparentemente \u00e9 bastante antiga, j\u00e1 que, apesar de sua morfologia externa bastante homog\u00eanea, possuem enorme diverg\u00eancia gen\u00e9tica e diversas diferen\u00e7as no esqueleto, sugerindo que possam no futuro ser separados em g\u00eaneros distintos.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia dos urutaus guarda ainda uma das esp\u00e9cies de aves brasileiras \u201c<a title=\"Perdido e achado: o ti\u00ea-bicudo, Conothraupis mesoleuca\" href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/2012\/03\/perdido-e-achado-o-tie-bicudo-conothraupis-mesoleuca\/\">perdidas e achadas<\/a>\u201d nas \u00faltimas d\u00e9cadas: o urutau-de-asa-branca (<em>Nyctibius leucopterus<\/em>), que ficou incr\u00edveis 168 anos desaparecido para a ci\u00eancia. Essa esp\u00e9cie foi descoberta em 1821 no litoral da Bahia pelo naturalista Maximiliano de Wied-Neuwied. Desde sua descri\u00e7\u00e3o n\u00e3o se teve mais not\u00edcias dela at\u00e9 1989, quando ela foi reencontrada nos arredores de Manaus, em plena Amaz\u00f4nia, a mais de 2500 km do litoral da Bahia. Os h\u00e1bitos cr\u00edpticos dos urutaus certamente contribu\u00edram para essa esp\u00e9cie passar tanto tempo sumida. Mas, felizmente, quando ocorreu essa redescoberta a vocaliza\u00e7\u00e3o do urutau-de-asa-branca (um l\u00edmpido <a href=\"http:\/\/www.wikiaves.com.br\/62969\">assobio<\/a>), at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida, p\u00f4de ser gravada. Munidos dessa grava\u00e7\u00e3o, ornit\u00f3logos utilizando a t\u00e9cnica do <em>playback<\/em> (em que aves, altamente territoriais, s\u00e3o atra\u00eddas pela reprodu\u00e7\u00e3o do canto de sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie) localizaram a esp\u00e9cie em diversas localidades amaz\u00f4nicas, do Peru \u00e0s Guianas, e, em 2003, de novo no litoral da Bahia.<\/p>\n<div id=\"attachment_378\" style=\"width: 337px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/2012\/08\/bichos-brasil-urutaus-maes-da-lua\/110419g\/\" rel=\"attachment wp-att-378\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-378\" class=\" wp-image-378 \" title=\"Nyctibius leucopterus\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/08\/110419g-545x639.jpg\" alt=\"\" width=\"327\" height=\"383\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-378\" class=\"wp-caption-text\">O raro urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus). <a href=\"http:\/\/www.wikiaves.com.br\/110419\">Foto por Andrew Whittaker.<\/a><\/p><\/div>\n<p><strong>Para saber mais:<\/strong> meu amigo e especialista em urutaus e bacuraus Thiago V. V. Costa estudou a anatomia dos urutaus. Seu trabalho pode ser conferido em <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0031-10492009002100001&amp;lng=pt&amp;nrm=iso\">Costa &amp; Donatelli (2009)<\/a>. <a href=\"http:\/\/www.bioone.org\/doi\/abs\/10.1676\/10-087.1\">Cestari <em>et al.<\/em> (2011)<\/a> estudaram o cuidado parental de <em>Nyctibius griseus<\/em>. O artigo inclui uma interessante foto do filhote j\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o ereta no \u201cninho\u201d &#8211;\u00a0 se \u00e9 que podemos chamar assim. Sobre as redescobertas de <em>N. leucopterus<\/em>, confira <a href=\"http:\/\/library.unm.edu\/sora\/Auk\/v110n02\/p0391-p0394.pdf\">Cohn-Haft (1993)<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.ararajuba.org.br\/sbo\/ararajuba\/artigos\/Volume111\/ara111art1.pdf\">Whitney <em>et al.<\/em> (2003)<\/a><em><\/em>. Para uma introdu\u00e7\u00e3o popular a esses bichos bizarros, veja o texto de Fernando Straube na revista <em>Atualidades Ornitol\u00f3gicas<\/em>: <a href=\"http:\/\/www.google.com\/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=3&amp;ved=0CFUQFjAC&amp;url=http%3A%2F%2Fwww.ao.com.br%2Fdownload%2Furutau.pdf&amp;ei=fBocUNbjCqPr6wGm74CQBg&amp;usg=AFQjCNGBcNQs51jcY6U8CDewEiGAdsAM8w\">Straube (2004)<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O nome popular j\u00e1 diz muito sobre essas aves: \u201curutau\u201d vem do guarani guyra (ave) e tau (fantasma). Tratam-se dos membros da fam\u00edlia Nyctibiidae, conhecidos como urutaus ou m\u00e3es-da-lua, um dos grupos mais fascinantes (e bizarros) de aves brasileiras. Essa pequena fam\u00edlia inclui sete esp\u00e9cies de aves noturnas, cinco das quais ocorrem no Brasil. 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