{"id":389,"date":"2012-08-22T16:12:22","date_gmt":"2012-08-22T19:12:22","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/?p=389"},"modified":"2012-08-22T16:12:22","modified_gmt":"2012-08-22T19:12:22","slug":"bichos-brasil-atretochoana-eiselti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/2012\/08\/22\/bichos-brasil-atretochoana-eiselti\/","title":{"rendered":"Bichos do Brasil: Atretochoana eiselti"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_391\" style=\"width: 555px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/2012\/08\/bichos-brasil-atretochoana-eiselti\/1jywueuqigtw05siv57fh19m4\/\" rel=\"attachment wp-att-391\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-391\" class=\"size-medium wp-image-391\" title=\"Atretochoana\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/08\/1jywueuqigtw05siv57fh19m4-545x341.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"341\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-391\" class=\"wp-caption-text\"><em>Atretochoana eiselti<\/em>, mas pode chamar de bicho-feio-da-p****. Foto por Juliano Tupan.<\/p><\/div>\n<p>As cec\u00edlias s\u00e3o os mais esquecidos dos vertebrados. A maioria das cerca de 200 esp\u00e9cies deste estranho grupo, de exist\u00eancia absolutamente desconhecida pela maioria dos seres humanos, se assemelha superficialmente muito mais a minhocas do que a outros vertebrados. Pequenos, sem membros, alongados e muitas vezes fossoriais, esses animais constituem a ordem Gymnophiona. Ao lado dos mais populares anuros (sapos, r\u00e3s e pererecas) e salamandras, formam a classe Amphibia.<\/p>\n<p>Uma esp\u00e9cie de gimnofiona era para mim um dos maiores s\u00edmbolos do quanto o Brasil ainda desconhece sua fauna. Essa esp\u00e9cie, <em>Atretochoana eiselti<\/em>, foi descrita em 1968 com base em um \u00fanico e antigo exemplar depositado no museu de hist\u00f3ria natural de Viena.\u00a0 Trata-se da maior cec\u00edlia do mundo, com quase um metro de comprimento e at\u00e9 dez cent\u00edmetros de circunfer\u00eancia.<\/p>\n<p>O mais surpreendente, no entanto, \u00e9 que a <em>Atretochoana<\/em> simplesmente n\u00e3o possui pulm\u00f5es. Essa caracter\u00edstica n\u00e3o \u00e9 \u00fanica entre os tetr\u00e1podes: pulm\u00f5es tamb\u00e9m est\u00e3o ausentes muitas em muitas esp\u00e9cies de salamandras (inclusive no \u00fanico g\u00eanero que ocorre no Brasil, <em>Bolitoglossa<\/em>), mas estas t\u00eam no m\u00e1ximo poucos cent\u00edmetros de comprimento, fazendo da <em>Atretochoana<\/em> n\u00e3o s\u00f3 a maior cec\u00edlia mas tamb\u00e9m, de longe, o maior tetr\u00e1pode sem pulm\u00e3o conhecido.<\/p>\n<p>O frustrante \u00e9 que esse esp\u00e9cime do museu de Viena, possivelmente coletado pelo naturalista austr\u00edaco Johann Natterer em suas viagens pelo Brasil no in\u00edcio do s\u00e9culo 19, n\u00e3o possui qualquer informa\u00e7\u00e3o associada, exceto que prov\u00e9m da Am\u00e9rica do Sul. Em 1998, um segundo exemplar foi descoberto, na cole\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), mas sem quaisquer informa\u00e7\u00f5es sobre a localidade de coleta. A <em>Atretochoana<\/em> possui uma morfologia consistente com h\u00e1bitos aqu\u00e1ticos, e devido \u00e0 aus\u00eancia de pulm\u00f5es e a seu grande tamanho, especulou-se que viveria em riachos frios e com corredeiras do Brasil central, condi\u00e7\u00f5es em que a \u00e1gua \u00e9 bastante oxigenada, favorecendo a respira\u00e7\u00e3o cut\u00e2nea.<\/p>\n<p>Portanto essa era a absurda situa\u00e7\u00e3o at\u00e9 2011: a maior gimnofiona do planeta, o maior tetr\u00e1pode apulmonado do planeta, um animal enorme de quase um metro de comprimento, e pod\u00edamos apenas especular sobre qual seria seu h\u00e1bitat e at\u00e9 distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica! Quem sabe os dois \u00fanicos exemplares coletados seriam para sempre os \u00faltimos e \u00fanicos testemunhos de uma esp\u00e9cie que j\u00e1 se fora&#8230;<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio da <em>Atretochoana<\/em> come\u00e7ou a ser finalmente resolvido em 2011, quando herpet\u00f3logos do Museu Paraense Em\u00edlio Goeldi, em Bel\u00e9m (PA), receberam fotos de um grande animal capturado num matapi, uma armadilha para captura de camar\u00e3o colocada em \u00e1guas rasas. O animal n\u00e3o foi capturado, mas com base nas fotografias os cientistas o identificaram como um exemplar de <em>Atretochoana eiselti<\/em>. Surpreendentemente, as fotografias n\u00e3o foram realizadas num riacho frio e r\u00e1pido do Brasil central, mas sim numa praia na ilha de Mosqueiro, logo ao norte de Bel\u00e9m, no estu\u00e1rio do rio Amazonas.<\/p>\n<div id=\"attachment_396\" style=\"width: 555px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/2012\/08\/bichos-brasil-atretochoana-eiselti\/sem-titulo\/\" rel=\"attachment wp-att-396\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-396\" class=\" wp-image-396 \" title=\"cec\u00edlias\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/08\/Sem-t\u00edtulo-545x195.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"195\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-396\" class=\"wp-caption-text\">A <em>Atretochoana<\/em> em compara\u00e7\u00e3o com uma cec\u00edlia de tamanho mais usual para a ordem (<em>Boulengerula niedeni<\/em>). Fotos, respectivamente, de Hogmooed <em>et al<\/em>. e <a href=\"http:\/\/www.edgeofexistence.org\/edgeblog\/?p=792\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">daqui<\/a><\/p><\/div>\n<p>Pouco mais de um m\u00eas depois, os mesmos herpet\u00f3logos receberam novas fotos de <em>Atretochoana<\/em>, e desta vez exemplares foram coletados. A coleta ocorreu a 2500 km de Bel\u00e9m, numa piscina formada no leito seco do rio Madeira dias ap\u00f3s o represamento do rio para a constru\u00e7\u00e3o de hidroel\u00e9trica de Santo Ant\u00f4nio, em Rond\u00f4nia. Subsequentemente, os herpet\u00f3logos do Museu Goeldi conseguiram obter esp\u00e9cimes tamb\u00e9m da regi\u00e3o da ilha de Mosqueiro, possibilitando a publica\u00e7\u00e3o das primeiras informa\u00e7\u00f5es sobre a esp\u00e9cie em seu ambiente natural e a an\u00e1lise de esp\u00e9cimes rec\u00e9m-coletados. Esse <a href=\"http:\/\/www.museu-goeldi.br\/editora\/bn\/artigos\/cnv6n3_2011\/discovery%28hoogmoed%29.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estudo<\/a> foi publicado no Boletim do Museu Paraense Em\u00edlio Goeldi por Marinus Hoogmoed, Adriano Maciel e Juliano Coragem, e dele tiro todas as informa\u00e7\u00f5es desse <em>post<\/em>.<\/p>\n<p>A primeira conclus\u00e3o permitida pela redescoberta \u00e9 que, al\u00e9m de j\u00e1 deter os pr\u00eamios de maior cec\u00edlia e maior tetr\u00e1pode sem pulm\u00f5es, a <em>Atretochoana<\/em> \u00e9 s\u00e9ria concorrente ao t\u00edtulo de animal mais nojento do planeta. Cinza, lisa e comprida, n\u00e3o d\u00e1 para saber se parece mais uma sanguessuga anabolizada ou uma cobra deformada&#8230; E para piorar, dependendo do \u00e2ngulo, ainda tem um leve aspecto f\u00e1lico, o que levou <a href=\"http:\/\/www.huffingtonpost.com\/2012\/08\/04\/penis-snake-photos-amazon-brazil-atretochoana-eiselti_n_1742088.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">parte da m\u00eddia<\/a> a apelida-la de \u201cpenis snake\u201d&#8230; (Falando nesse assunto, as gimnofionas s\u00e3o os \u00fanicos anf\u00edbios que possuem um \u00f3rg\u00e3o copulat\u00f3rio especializado, chamado <a href=\"http:\/\/www.aseanbiodiversity.info\/Abstract\/51011004.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">falodeu<\/a>. Aposto que essa informa\u00e7\u00e3o mudou sua vida, heim?)<\/p>\n<p>A segunda conclus\u00e3o \u00e9 que as especula\u00e7\u00f5es sobre seu h\u00e1bitat estavam totalmente erradas. Ambas as localidade conhecidas s\u00e3o de \u00e1guas quentes e turvas. Na regi\u00e3o do rio Madeira em que foi coletada, ainda h\u00e1 v\u00e1rias corredeiras, que aumentam a oxigena\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, mas no estu\u00e1rio do Amazonas as \u00e1guas s\u00e3o lentas. De modo geral, n\u00e3o \u00e9 um ambiente em que se esperaria encontrar um animal que depende de respira\u00e7\u00e3o somente atrav\u00e9s da pele.<\/p>\n<p>Os capilares sangu\u00edneos da <em>Atretochoana<\/em> s\u00e3o muito pr\u00f3ximos da pele, confirmando que ela muito provavelmente realiza respira\u00e7\u00e3o cut\u00e2nea. No entanto, devido a seu grande tamanho corporal, muitas vezes maior que outros tetr\u00e1podes apulmonados, deve haver outras superf\u00edcies de troca gasosa. Hoogmoed e seus colegas especulam que essa respira\u00e7\u00e3o complementar pode ocorrer na cavidade bucofar\u00edngea e n\u00e3o excluem a possibilidade de respira\u00e7\u00e3o intestinal ou at\u00e9 cloacal, como ocorre em algumas tartarugas (e aumentando as chances da <em>Atretochoana<\/em> no concurso de animal mais repugnante do mundo).<\/p>\n<div id=\"attachment_400\" style=\"width: 503px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/2012\/08\/bichos-brasil-atretochoana-eiselti\/atreto2\/\" rel=\"attachment wp-att-400\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-400\" class=\"size-full wp-image-400\" title=\"atreto2\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2012\/08\/atreto2.jpg\" alt=\"\" width=\"493\" height=\"311\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-400\" class=\"wp-caption-text\">Vista em<em> close<\/em> da cara (?) de uma <em>Atretochoana<\/em>. Figura modificada de Hoogmooed<em> et al<\/em>.<\/p><\/div>\n<p>A presen\u00e7a da <em>Atretochoana<\/em> em duas localidades t\u00e3o distantes sugere que ela deve ser amplamente distribu\u00edda (ainda que talvez rara) na Amaz\u00f4nia brasileira e que seu desaparecimento por tantos anos foi devido simplesmente \u00e0 falta de procurar no lugar certo. Seu mist\u00e9rio come\u00e7ou a ser desvendado, mas muito ainda resta para se descobrir sobre esse peculiar animal. A maior d\u00favida \u00e9 fisiol\u00f3gica (como respira um animal deste tamanho, sem pulm\u00f5es e em \u00e1guas n\u00e3o particularmente ricas em oxig\u00eanio?), mas virtualmente nada se sabe ainda sobre sua hist\u00f3ria natural, h\u00e1bitos e rela\u00e7\u00f5es filogen\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Com<em><\/em>o escreveram seus redescobridores: \u201cAinda temos um longo caminho a percorrer antes de considerar esta esp\u00e9cie \u2018conhecida\u2019\u201d. E, pensando assim, quantas esp\u00e9cies ser\u00e1 que podemos dizer que s\u00e3o realmente conhecidas?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As cec\u00edlias s\u00e3o os mais esquecidos dos vertebrados. A maioria das cerca de 200 esp\u00e9cies deste estranho grupo, de exist\u00eancia absolutamente desconhecida pela maioria dos seres humanos, se assemelha superficialmente muito mais a minhocas do que a outros vertebrados. Pequenos, sem membros, alongados e muitas vezes fossoriais, esses animais constituem a ordem Gymnophiona. 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