{"id":59,"date":"2009-02-22T14:43:28","date_gmt":"2009-02-22T17:43:28","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/caapora\/2009\/02\/thalassocnus\/"},"modified":"2009-02-22T14:43:28","modified_gmt":"2009-02-22T17:43:28","slug":"thalassocnus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/2009\/02\/22\/thalassocnus\/","title":{"rendered":"Pregui\u00e7as marinhas nadadoras!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">At\u00e9 hoje n\u00e3o consegui atingir o nirvana do zo\u00f3logo praticante, ou seja, descobrir e descrever uma nova esp\u00e9cie. Mas tudo bem, culpa minha ter escolhido a ornitologia e n\u00e3o outros campos menos explorados da zoologia. Certa vez ouvi a confiss\u00e3o de um ex-ornit\u00f3logo e, atualmente, influente icti\u00f3logo do MZUSP, de que ele havia se convertido \u00e0 ictiologia pois caso quisesse poderia descrever tantas esp\u00e9cies novas de peixes que sobraria homenagem at\u00e9 para a sogra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Embora n\u00e3o tenha batizado nenhuma esp\u00e9cie desconhecida, quase diariamente, de mato em mato e livro em livro, experimento em doses homeop\u00e1ticas o prazer de se deparar com uma criatura inc\u00f3gnita. Arrisco-me a dizer que entre os prazeres do intelecto poucos s\u00e3o capazes de concorrer com a sensa\u00e7\u00e3o arrebatadora de se descobrir sobre a exist\u00eancia de uma criatura que at\u00e9 ent\u00e3o se ocultava na vegeta\u00e7\u00e3o cerrada da humilde ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Embora enebriante, como todo novo achado, descobrir um animal j\u00e1 descoberto t\u00eam tamb\u00e9m um qu\u00ea de frustra\u00e7\u00e3o indagada, algo do tipo &#8220;como eu n\u00e3o sabia nada sobre isso?&#8221;. Assim me aconteceu com o extinto gliptodonte, um tatu de tamanho de um fusca, a rar\u00edssima doninha-amaz\u00f4nica (<em>Mustela africana<\/em>), que apesar do ep\u00edteto &#8220;africana&#8221; \u00e9 uma esp\u00e9cie restrita a bacia amaz\u00f4nica, e muitas outras criaturas incr\u00edveis. Poucas destas descobertas, no entanto, me renderam tamanha surpresa quanto quando soube pela primeira vez da exist\u00eancia dos Thalassocnus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Recentemente paleont\u00f3logos brasileiros <a href=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/136039\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">divulgaram<\/a> a descoberta de um f\u00f3ssil quase completo de uma extinta pregui\u00e7a terrestre que viveu h\u00e1 m\u00edseros 11 mil anos atr\u00e1s na atual regi\u00e3o da Chapada Diamantina, interior da Bahia. Embora ainda fosse um indiv\u00edduo jovem, o exemplar de <em>Ahytherium aureum <\/em>baiano possu\u00eda mais de tr\u00eas metros de comprimento e estima-se que pesava cerca de 500 quilos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como se n\u00e3o bastasse a majestade bestial das pregui\u00e7as-gigantes, os ossos de <em>Ahytherium aureum<\/em> revelaram uma faceta incr\u00edvel de sua biologia. Sua cauda era um pouco achatada, lembrando a das atuais lontras, o que levou seus descobridores a sugerirem que ela fosse uma \u00f3tima nadadora. Pregui\u00e7as-terrestres-gigantes j\u00e1 s\u00e3o dignas de figurarem em qualquer enredo \u00e9pico fabuloso ao lado de criaturas como as gigantescas \u00e1rvores andantes de &#8220;O Senhor dos An\u00e9is&#8221; e aquele mega-cachorro de &#8220;A Hist\u00f3ria sem Fim&#8221;, o que dizer ent\u00e3o de pregui\u00e7as-nadadoras?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas, o poder criativo despretensioso da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de quase qualquer coisa. Imagine voc\u00ea um paleont\u00f3logo escavando f\u00f3sseis em dep\u00f3sitos marinhos na costa sul-peruana. Entre os f\u00f3sseis de conchas, peixes, le\u00f5es-marinhos e baleias voc\u00ea se depara com v\u00e1rios ossos de pregui\u00e7as-terrestre. Hip\u00f3tese n\u00famero 1, algu\u00e9m colocou isso aqui e est\u00e1 tirando uma com a minha cara; hip\u00f3tese n\u00famero 2, estou precisando dormir mais; hip\u00f3tese n\u00famero 3, descobri uma pregui\u00e7a-marinha e vou publicar na Nature. Adivinhe qual hip\u00f3tese Muizon e MCDonald escolheram? L\u00e1 est\u00e1, edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 375 da Nature, p\u00e1g. 224: &#8220;An aquatic sloth from de Pliocene of Peru&#8221;. Neste artigo foi batizado <em>Thalassocnus natans<\/em>, traduzindo do grego: &#8220;thalassa&#8221; = mar, &#8220;socnus&#8221; = pregui\u00e7a e &#8220;natans&#8221; = nadadora, ou seja, pregui\u00e7a marinha nadadora.<\/p>\n<h5 class=\"mceTemp mceIEcenter\">\n<dl>\n<dt>\n<div align=\"center\">\n<div align=\"center\"><\/div>\n<h5 class=\"mceTemp mceIEcenter\">\n<dt><\/dt>\n<\/h5>\n<div align=\"center\">\n<\/div>\n<h5 class=\"mceTemp mceIEcenter\">\n<dt><\/dt>\n<\/h5>\n<div align=\"center\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2011\/08\/thalassocnus.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-259\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2011\/08\/thalassocnus-300x2101-1.jpg\" alt=\"Thalassocnus natans. Imagem de Bill Parsons retirada daqui.\" width=\"300\" height=\"210\" \/><\/a><\/div>\n<h5 class=\"mceTemp mceIEcenter\">\n<dt>\n<\/dt>\n<\/h5>\n<\/div>\n<\/dt>\n<dd><em>Thalassocnus natans<\/em>. Imagem de Bill Parsons retirada daqui.<\/dd>\n<\/dl>\n<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify\">As justificativas que corroboram o tratamento de Thalassocnus natans como um verdadeiro mam\u00edfero marinho, v\u00e3o muito al\u00e9m do simples fato de seus f\u00f3sseis terem sido encontrados em sedimentos marinhos. Diversas caracter\u00edsticas em seu esqueleto demonstram que esta criatura surreal possuia v\u00e1rias adapta\u00e7\u00f5es que permitiam que ele se sentisse completamente \u00e0 vontade na \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A mais evidente destas adapta\u00e7\u00f5es \u00e9 que, ao contr\u00e1rio de todas as suas parentes terrestres, Thalassocnus possui os membros anteriores mais compridos que os membros posteriores. Uma adapta\u00e7\u00e3o encontrada tamb\u00e9m em diversos grupos de animais aqu\u00e1ticos atuais que utilizam as patas anteriores como potentes remos, como os peixes-boi e as focas.<\/p>\n<h6 class=\"mceTemp mceIEcenter\">\n<dl>\n<dt><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2011\/08\/thalassocnus_wikipedia.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-257\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2011\/08\/thalassocnus_wikipedia-300x166-1.jpg\" alt=\"Esqueleto de Thalassocnus natans em exposi\u00e7\u00e3o no Museu de Hist\u00f3ria Natural de Paris. Repare na diferen\u00e7a de tamanho entre os membros anteriores e posterios. Imagem retirada da Wikipedia\" width=\"300\" height=\"166\" \/><\/a><\/dt>\n<dd>Esqueleto de <em>Thalassocnus natans<\/em> em exposi\u00e7\u00e3o no Museu de Hist\u00f3ria Natural de Paris. Repare na diferen\u00e7a de tamanho entre os membros anteriores e posterios. Imagem retirada da Wikipedia<\/dd>\n<\/dl>\n<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\">Outras adapta\u00e7\u00f5es not\u00e1veis de Thalassocnus \u00e0 vida aqu\u00e1tica incluem as v\u00e9rtebras da cauda, similares \u00e0s das lontras e castores, e caracter\u00edsticas do cr\u00e2nio e da mand\u00edbula que est\u00e3o relacionadas com a capacidade de morder e arrancar algas do fundo do mar. Durante o Plioceno, \u00e9poca em que viveram as pregui\u00e7as-marinhas, a costa peruana foi um \u00e1rido deserto e dentro deste contexto n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil conceber que algas marinhas eram uma das poucas fontes de alimentos dispon\u00edveis para um herb\u00edvoro de grande porte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 muito prov\u00e1vel que em um ambiente des\u00e9rtico as algas marinhas funcionaram como verdadeiras sereias gastron\u00f4micas, estimulando os ancestrais do Thalassocnus a se lan\u00e7arem ao mar. Outra evid\u00eancia que as pregui\u00e7as marinhas se alimentavam basicamente de algas pode ser encontrada nos seus dentes. Al\u00e9m de apresentarem uma morfologia diferente de suas parentes terrestres, os dentes de Thalassocnus apresentam in\u00fameras marcas de desgaste causadas pela abras\u00e3o dos dentes com a areia da praia. Se voc\u00ea j\u00e1 tentou comer aquele queijo-coalho na beira da praia que a peste do seu sobrinho meteu a m\u00e3o cheia de areia, voc\u00ea ent\u00e3o j\u00e1 experimentou algo parecido com os h\u00e1bitos alimentares das pregui\u00e7as-marinhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os representantes da fam\u00edlia dos atuais peixes-bois, e outros grupos de animais aqu\u00e1ticos extintos, possuem os ossos muito mais espessos e pesados que o normal. Esta caracter\u00edstica \u00e9 conhecida como paquiostose e \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o que torna esses animais mais pesados, permitindo que eles afundem e se alimentem das algas no leito marinho. As pregui\u00e7as marinhas n\u00e3o possu\u00edam tal adapta\u00e7\u00e3o e o mais prov\u00e1vel \u00e9 que utilizassem suas longas garras para se agarrarem nas algas no fundo do mar semelhante ao que fazem as iguanas-marinhas das Ilhas Gal\u00e1pagos.<\/p>\n<h6 class=\"mceTemp mceIEcenter\">\n<dl>\n<dt><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2011\/08\/iguana-marinha.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-260\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2011\/08\/iguana-marinha-300x225-1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a><\/dt>\n<dd>Iguana-marinha (<em>Amblyrhynchus cristatus<\/em>) das Ilhas Gal\u00e1pagos. Repare nas unhas grandes utilizadas para se agarrar nas pedras onde nascem as algas das quais se alimenta. Imagem retirada da Wikipedia.<\/dd>\n<\/dl>\n<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\">Desde a descri\u00e7\u00e3o de Thalassocnus natans, em 1995, quatro outras esp\u00e9cies de pregui\u00e7as marinhas foram desenterradas na mesma forma\u00e7\u00e3o da costa peruana. O mais interessante, no entanto, \u00e9 que cada uma destas esp\u00e9cies viveu em um determinado per\u00edodo de tempo entre o Mioceono e o Plioceno e que seus f\u00f3sseis demonstram uma transi\u00e7\u00e3o incr\u00edvel entre a vida terrestre e marinha. O desgaste causado nos dentes pela areia, por exemplo, diminuiu gradativamente entre as esp\u00e9cies mais antigas e as mais recentes, demonstrando que as pregui\u00e7as marinhas estavam buscando seu alimento cada vez mais fundo e n\u00e3o mais se alimentando de algas trazidas pela mar\u00e9.<\/p>\n<h6 class=\"mceTemp mceIEcenter\">\n<dl>\n<dt>\n<div align=\"right\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2011\/08\/thalassocnus-mandibles.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-3\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-262\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/caapora\/wp-content\/uploads\/sites\/209\/2011\/08\/thalassocnus-mandibles-300x139-1.jpg\" alt=\"Mand\u00edbulas de cinco esp\u00e9cies de Thalassocnus, a esquerda a mais antinga a direita a mais jovem. Note o aumento progressivo da ponta da mand\u00edbula, uma adapta\u00e7\u00e3o relacionada com o desenvolvimento de l\u00e1bios grandes semelhantes aos dos peixes-boi que ajudam na hora de se alimentar de plantas aqu\u00e1ticas.  \" width=\"300\" height=\"139\" \/><\/a><\/div>\n<\/dt>\n<dd><font>Mand\u00edbulas de cinco esp\u00e9cies de Thalassocnus, a esquerda a mais antinga a direita a mais jovem. Note o aumento progressivo da ponta da mand\u00edbula, uma adapta\u00e7\u00e3o relacionada com o desenvolvimento de l\u00e1bios grandes semelhantes aos dos peixes-boi que ajudam na hora de se alimentar de plantas aqu\u00e1ticas<\/font>. <\/dd>\n<\/dl>\n<\/h6>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 bastante poss\u00edvel que Thalassocnus yuacensis, a esp\u00e9cie mais recente de pegui\u00e7a-marinha, tenha sido t\u00e3o adaptada \u00e0 vida aqu\u00e1tica quanto os atuais pinipedes. No entanto, h\u00e1 cerca de 1,5 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s as pregui\u00e7as-marinhas se extinguiram. Talvez a distribui\u00e7\u00e3o aparentemente restrita tenha favorecido a extin\u00e7\u00e3o por alguma doen\u00e7a, ou mudan\u00e7as clim\u00e1ticas severas podem ter afetado as algas que eram seu principal alimento.  Extintas ou n\u00e3o, criaturas fabulosas como as pregui\u00e7as-marinhas est\u00e3o longe de ser raridade e poder aprender um pouco mais sobre estes animais incr\u00edveis \u00e9 um \u00f3timo motivo para celebrarmos a ignor\u00e2ncia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 hoje n\u00e3o consegui atingir o nirvana do zo\u00f3logo praticante, ou seja, descobrir e descrever uma nova esp\u00e9cie. Mas tudo bem, culpa minha ter escolhido a ornitologia e n\u00e3o outros campos menos explorados da zoologia. 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